Matérias » Personagem

Há 40 anos, o militante Bobby Sands morria de greve de fome em uma prisão

Ele era um dos líderes da luta armada contra o domínio britânico realizada na Irlanda do Norte na segunda metade do século 20

Ingredi Brunato, sob supervisão de Fabio Previdelli Publicado em 05/05/2021, às 08h00

Fotografia de Bobby Sands
Fotografia de Bobby Sands - Wikimedia Commons

Entre 1969 e 1997, a Irlanda do Norte viveu um acirrado conflito interno que gerou uma perda de cerca de 3.600 vidas. De um lado, havia o movimento unionista, que era constituído da maioria protestante da população — e queria continuar sendo um território da Grã-Bretanha

Já do outro, havia uma minoria católica que defendia a independência em relação à Inglaterra, querendo integrar-se com a Irlanda (que também era católica). É neste segundo grupo que atuava o Exército Republicano Irlandês, também conhecido por sua sigla IRA, que tratava-se de uma organização paramilitar que se usava da luta armada para tentar pôr fim ao domínio britânico e iniciar uma unificação irlandesa. 

Infelizmente para eles, esses objetivos falharam, o que pode constatar pelo fato do país, ainda hoje, ser parte do Reino Unido. 

Uma morte que mudou o conflito 

Uma das mais famosas vidas perdidas no conflito foi a de Bobby Sands, que era um dos líderes do IRA. Ele morreu fazendo uma greve de fome em uma penitenciária de Belfast, a capital da Irlanda do Norte, para onde foi enviado por conta das ações armadas e não raramente violentas realizadas pela organização. 

Distintivo do IRA / Crédito: Wikimedia Commons

 

Vale notar que sua morte foi um sacrifício deliberado: afinal, o militante nunca acreditou que sairia vivo de sua rebelião, e essa consciência fica clara em seus diários de prisão. Confira um trecho:

“Estou morrendo não apenas para parar a barbárie no Bloco H [que era a divisão da prisão para onde eram enviados os membros do IRA], ou para conseguir o legítimo reconhecimento de preso político, mas principalmente porque o que está perdido aqui está perdido para a República [da Irlanda do Norte]”, escreveu ele em seu primeiro dia de greve, segundo documentado pelo site “Bobby Sands Trust”. 

Era então primeiro de março de 1981, faltando dezesseis anos para o cessar-fogo, e dezessete para o famoso Acordo de Belfast, que pôs um fim definitivo à violência entre os grupos pró-independência e pró-Inglaterra dentro do país. 

Panfleto do IRA escrito por Bobby Sands que diz "Nunca haverá paz na Irlanda até que a presença estrangeira e opressiva dos britânicos sjea removida, deixando que todas as pessoas irlandesas unam-se para controlar seus próprios assuntos e determinar seus próprios destinos como pessoas soberanas, livres em corpo e mente, separados e distintos fisicamente, culturalmente e economicamente", em tradução livre  / Crédito: Wikimedia Commons

 

Já a greve de fome do líder do IRA durou 66 dias antes que seu corpo não resistisse mais à medida extrema. Outros nove prisioneiros que seguiram seus passos morreram depois dele, e muitos outros confinados no Bloco H juntaram-se à revolta. 

Depois de Bobby Sands 

A morte de Sands acabou chamando atenção internacional, assim atraindo os olhos do mundo para o conflito que dividia a Irlanda do Norte. Esses holofotes não vieram de forma espontânea, todavia. Eles foram resultado, principalmente, de uma inteligente estratégia aplicada pelos partidos norte-irlandeses pró-independência, que elegeram o militante como deputado. 

Para dar uma ideia do alcance da ação, esse desdobramento levou ao próprio Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos na época, a comentar que estava “profundamente preocupado” com a situação da greve de fome dos membros do IRA detidos. A informação foi relembrada pelo site português Público, em uma reportagem de 2015. 

Ao fim, Margaret Thatcher, que estava à frente do governo britânico no período, precisou ceder à pressão internacional, assim, aceitando alguns dos requisitos dos militantes encarcerados que tornaram sua vida dentro da penitenciária um pouco melhor. 

Apesar de ter cedido, contudo, deve-se observar que a Dama de Ferro não passou a concordar com os objetivos do grupo católico pró-independência: 

“Um crime é um crime. Não tem nada de político, é um crime. Ele era um criminoso condenado. Escolheu tirar a própria vida. É uma escolha que a sua organização não deu a muitas das suas vítimas”, comentou certa vez, também segundo relembrado pelo Público, o que rebate diretamente frases anteriores dos presos membros do IRA. 

Memorial dedicado a Bobby Sands na cidade de Belfast / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma outra consequência desse reconhecimento de maior escala da causa da minoria católica pró-independência ajudou o grupo a recrutar mais pessoas. 

Esse apoio, recém-conseguido, acabou concentrando-se em torno do Sinn Féin, que era um partido político que oferecia uma resistência pacífica à dominação britânica. Era, por assim dizer, a versão não violenta do IRA. Isso pois o ocorrido com Bobby havia sido um ótimo exemplo do alcance da luta política, como alternativa à luta armada.


++ Saiba mais sobre Bobby Sands através de grandes obras disponíveis na Amazon: 

One Day in My Life Capa, de Bobby Sands (2001) - https://amzn.to/33gIDSF

Bobby Sands: Nothing But an Unfinished Song, de Denis O'Hearn (eBook) - https://amzn.to/3eNGSl6

Bobby Sands: Freedom Fighter, de Gerry Hunt (2016) - https://amzn.to/3uywy7z

Bobby Sands: Nothing But an Unfinished Song, de Denis O'Hearn (2006) - https://amzn.to/3h3tR9Z

Bobby Sands: Writings from Prison, de Bobby Sands (1997) - https://amzn.to/3umswio

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, a Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.

Aproveite Frete GRÁTIS, rápido e ilimitado com Amazon Prime: https://amzn.to/2w5nJJp 

Amazon Music Unlimited – Experimente 30 dias grátis: https://amzn.to/2yiDA7W