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Há 45 anos, o Levante de Soweto terminava em tragédia

Na África do Sul, milhares de estudantes participaram de manifestações que foram cessadas por brutalidade policial e mortes

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 16/06/2021, às 09h40

Mulher carrega foto do Levante de Soweto em marcha realizada em 2013
Mulher carrega foto do Levante de Soweto em marcha realizada em 2013 - Getty Images

Há 45 anos, uma manifestação ilegal iniciou um processo que resultaria no fim do apartheid na África do Sul. O Levante de Soweto, como ficou conhecido o protesto, se tornou um evento cuja data é relembrada todos os anos no país, um momento marcante na história da África do Sul.

Como explica o autor Sifiso Mxolisi Ndlovu em seu livro The Road to Democracy in South Africa (2004) (A estrada para a democracia na África do Sul, em tradução livre), tudo começou com o Decreto Médio Afrikaans de 1974. A partir dessa lei, imposta pelo governo do apartheid, o ensino do africâner nas escolas se tornava obrigatório.

A língua em questão estava intimamente ligada com o regime opressivo do país, apresentando uma enorme influência do holandês em sua constituição. A partir do decreto, o inglês e outras línguas nativas africanas foram jogadas para escanteio, ignoradas no ensino escolar.

Muitos estudantes ficaram indignados com a nova medida, que ia de encontro a tudo que acreditavam. Mas eles não foram os únicos: como aponta o SAHO (South African History Online), a Associação de Professores Africanos da África do Sul se opôs ao decreto na época, assim como o arcebispo Desmond Tutu, que considerou o africâner “a língua do opressor”.

O descontentamento com a mudança foi se acumulando nos corações dos estudantes de inúmeras partes do país. No entanto, Soweto foi o palco onde esses ressentimentos explodiram. Um bairro pobre na periferia de Johannesburgo, lá vivia uma população negra insatisfeita com o então ensino.

O levante

No dia 30 de abril de 1976, os estudantes da Orlando West Junior School, que ficava no bairro de Soweto, iniciaram uma greve. Recusando a presença na escola, iniciava-se uma rebelião que marcaria a história: outros alunos seguiram o exemplo, em uma manifestação que tomou toda a região.

Dias depois, em 16 de junho daquele ano, o Comitê de Ação que ficou conhecido como Conselho Representativo dos Estudantes de Soweto organizou o protesto. Ele começou naquele dia, mas terminou apenas em 18 de junho de 1976.

Como relatou o jornal O Globo, o início da manifestação foi marcado por uma passeata em que se cantava pacificamente. Com destino a um estádio da região, os alunos estavam sendo acompanhados pela polícia que os observava de perto.

A maioria dos que participou da revolta tinha entre 10 e 20 anos. No entanto, isso não impediu os oficiais de agirem de forma brutal e extremamente violenta. Uma bomba de gás lacrimogêneo foi o estopim para a hostilidade que se instalaria nos momentos — e dias — seguintes. 

As estimativas de quantas pessoas estavam presentes no levante variam a depender da fonte, mas é provável que entre 10 e 20 mil estudantes tenham participado do evento que ficaria conhecido como Levante de Soweto. Destes, inúmeros morreram ao longo dos protestos. A BBC Brasil escreve que cerca de 500 foram mortos pela polícia.

Uma fotografia tirada naquele dia correu o mundo, chamando a atenção de outros países para o que estava acontecendo na África do Sul. A imagem do corpo do estudante de 13 anos Hector Pieterson sendo carregado colaborou para a visibilidade da manifestação, uma morte causada pela tentativa de fugir da chuva de balas que ia em direção aos alunos negros.

Muito além da foto, o próprio levante se tornou o símbolo do começo do fim do regime do apartheid. O repórter do O Globo descreveu o episódio, na época, como o que “provocou a maior onda de violência no país desde o massacre de Sharpeville, em 1960”. Expunha-se, assim, a opressão sofrida pelo povo negro do país, que se revoltou não somente naquele dia, mas até o fim da política de governo em toda a África do Sul.


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