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Há exatos 50 anos, Charles Elbrick era sequestrado pelo grupo revolucionário MR-8

Os militantes de extrema-esquerda colocaram a libertação de companheiros de luta como preço para a soltura do embaixador Charles Elbrick

André Nogueira Publicado em 04/09/2019, às 10h30

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Reprodução

Os anos de Regime Militar foram marcados pelo caos social. Enquanto muitos dizem que na época perpetuavam a paz e a segurança, a sociedade passava por um cenário de repressão política e guerra, em que o governo protagonizava embates com grupos revolucionários, armados, radicais e violentos, que tinham como objetivo a derrubada do presidente.

Um dos casos mais famosos de ataque dos revolucionários foi o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, em 4 de setembro de 1969 no Rio de Janeiro. Elbrick era um diplomata responsável pela embaixada do Brasil entre 1969 e 1970.

Os sequestradores

Desde a assinatura do AI-5 pelo ditador Costa e Silva, muitos grupos de esquerda optaram pela luta armada como forma de resistência ao Estado de Exceção que imperava no Brasil. Um desses grupos era o Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), originalmente conhecido como Dissidência do Rio de Janeiro, que começou a atuar na resistência desde o Golpe de 1964.

Verde, amarelo e vermelho: a bandeira do MR-8 / Crédito: Reprodução

 

O nome mais recente desse grupo armado é uma referência ao assassinato do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara, que foi morto na Bolívia em uma ação conjunta para derrubar o famoso líder revolucionário nesta data.

O motivo

O Brasil vivia um cenário ditatorial: a polícia na rua atirava em manifestantes, a imprensa e os meios de comunicação eram censurados pelo Estado e as lutas sociais eram brutalmente reprimidas em nome dos grupos econômicos que apoiavam o governo. 

O caso do sequestro partiu de dois revolucionários: Cid Benjamin e Franklin Martins. O plano era simples: como preço da libertação do estadunidense, o governo deveria realizar a leitura, em rede nacional, de uma carta-manifesto do MR-8, em que denunciavam os crimes da ditadura e defendiam um projeto econômico igualitário. Ao mesmo tempo, exigiu-se a libertação de 15 aliados da luta armada, que passavam pela tortura nas prisões políticas.

15 militantes libertos pela ação do MR-8 / Crédito: Domínio Público

 

Estamos na Semana da Independência. O povo e a ditadura comemoram de maneiras diferentes. A ditadura promove festas, paradas e desfiles, solta fogos de artifício e prega cartazes. Com isso ela não quer comemorar coisa nenhuma; quer jogar areia nos olhos dos explorados, instalando uma falsa alegria com o objetivo de esconder a vida de miséria, exploração e repressão que vivemos. Pode-se tapar o sol com a peneira? Pode-se esconder do povo a sua miséria, quando ele a sente na carne? Na Semana da Independência, há duas comemorações: a da elite e a do povo, a dos que promovem paradas e a dos que raptam o embaixador, símbolo da exploração”, afirmava o manifesto.

Polícia Militar em investigação / Crédito: Reprodução

 

Para tanto, o MR-8 teve um momento de preparação para o sequestro. Inicialmente, Elbrick foi monitorado por agentes do grupo, esses relataram que o embaixador possuía uma rotina rigorosa pelo bairro do Botafogo, no Rio. Além disso, o MR-8 se associou a outros grupos revolucionários, principalmente à Aliança Libertadora Nacional, que enviou Joaquim Câmara Ferreira e Virgílio Gomes da Silva para colaborarem com a ação.

O fatídico dia

No dia 4, o grupo revolucionário abordou o Cadillac da embaixada na rua Marques, no Botafogo, cobrindo o rosto do motorista, encaminhando o embaixador para outro carro e largando o motorista vendado no carro, junto ao manifesto.

As exigências, já esclarecidas, estavam explicitadas no próprio documento, que exigia a libertação e o encaminhamento daqueles 15 companheiros de militância, presos após o AI-5, em aviões que fossem para a Argélia, a China ou o México. Foi o país americano que aceitou o exílio daqueles revolucionários (o que á era, minimamente, tradicional da diplomacia mexicana).

O Cadillac sequestrado / Crédito: Reprodução

 

O grupo deu 48h para o cumprimento das exigências. Após análise dura, o governo decidiu acatar os pedidos dos revolucionários, temendo que uma ação policial botasse em risco a vida de Elbrick. Após a partida dos exilados para o México, o embaixador foi deixado próximo a uma multidão nos arredores do Maracanã.

O governo empreendeu um grande processo de investigação do crime, que resultou na prisão de diversos revolucionários do MR-8.