Há 62 anos, Khrushchev denunciava crimes de Stalin

Em discurso de cinco horas, o premiê soviético acabou com uma era e rachou o comunismo mundial

sábado 24 fevereiro, 2018
Khrushchev denunciou crimes de Stalin
Khrushchev denunciou crimes de Stalin Foto:Wikimedia Commons

Em 25 de fevereiro de 1956, o primeiro-secretário Nikita Khrushchev surpreendeu os delegados do 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Em um discurso de cinco horas, feito a portas fechadas, Khrushchev responsabilizou Josef Stálin de ter praticado uma política sistemática de tortura e execução de seus opositores no partido, atacando a intolerância, a brutalidade e o abuso de poder do sucessor de Lênin e seu antecessor no cargo.

Isso aconteceu três anos após a morte de Stalin, em 1953, lamentada pela grande maioria dos cidadãos soviéticos, que viam o líder como um pai divino. Khrushchev chocou a população ao declarar que Stalin erstava muito mais para o outro lado.

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Segundo Khrushchev, os opositores que conseguiam escapar dos fuzilamentos eram condenados a trabalhos forçados degradantes. Muitos “comunistas honestos e inocentes” foram julgados com base em confissões obtidas sob tortura. Kruschev, que fez parte da equipe de Stálin durante décadas, também relatou a “cruel deportação de povos inteiros” do território soviético e condenou a “presunçosa imprudência” de Stalin durante a Segunda Guerra Mundial, que teria redundado na invasão da Rússia por tropas da Alemanha nazista.

O "discurso secreto" de Khrushchev , que logo foi divulgado pela imprensa ocidental e publicado integralmente no Observer. Nada mais seria igual: isso deu início à "desestalinização" da União Soviética. O país continuaria a ser uma ditadura de partido único, mas imediatamente foram libertados 81 mil presos de campos de trabalhos forçados e de milhares de presos políticos. Escolas e a imprensa resgataram a memória dos líderes e militantes executados, que antes sequer mencionados podiam ser.

Quanto ao comunismo mundial, teve um racha. Khrushchev foi acusado de traidor pelos fieis ao velho líder. As relações com a China azedaram — Mao era um amigo pessoal de Stalin. Os dois países se tornaram concorrentes na visão de como chegariam ao almejado comunismo, e nunca se reconciliaram. Foi uma verdadeira Guerra Fria entre comunistas, com a coisa chegando às vias de fato em 1975, quando o Vietnã pró-soviético invadiu o Camboja de Pol-Pot, apoiado pela China. Paradoxalmente, essa China antissoviética, que se separou por causa de Stalin, terminaria, ainda no mandato de Mao, por se aproximar do Ocidente, culminando no sistema econômico atual.

E talvez mais paradoxalmente ainda: a Rússia de hoje, um regime de viés fortemente conservador, nacionalista e religioso, parece estar em vias de apagar o legado de Khrushchev e reabilitar a imagem de Stalin. Inclusive sob ameaça de prisão. O segundo pior assassino em massa do século 20 (atrás de Mao, empatando com Hitler) pode rir por último.

Letícia Yazbek


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