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Justiça se fez presente: Há 76 anos, começava o Julgamento de Nuremberg

Após longos anos, finalmente a justiça se fez presente, e tantos representantes cruéis do nazismo, fascismo e do genocídio pagaram, nem que por pouco tempo, pelos crimes que cometeram contra a humanidade

Felipe Riveiro Publicado em 20/11/2021, às 00h00

Alguns dos homens que foram julgados
Alguns dos homens que foram julgados - Wikimedia Commons, Work of the United States Government, National Archives and Records Administration

Há 76 anos, exatamente no dia 20 de novembro de 1945, iniciou-se o que ficou marcado na História como O Julgamento de Nuremberg. Na época, um feito inédito, atualmente é compreendido como um marco no Direito Internacional com o estabelecimento de uma Corte Internacional permanente.

No ano seguinte, sob comando da Organização das Nações Unidas (ONU), a Corte Internacional de Justiça (que ficou mais conhecida como Tribunal de Haia, recebendo esse nome por se localizar nessa cidade holandesa) passou a ter o direito de julgar, além de indivíduos, também Estados, por genocídio e crimes contra a humanidade.

Os efeitos do Tribunal de Nuremberg se fizeram sentir até em 2002, a partir da criação do Tribunal Penal Internacional, uma corte internacional que julga crimes ligados ao aparelho estatal e seus governantes, seja em ambiente de guerra ou de exceção.

Os preparativos para o julgamento começaram logo após o fim da Segunda Guerra Mundial e focou nos nazistas ligados ao governo de Hitler, especialmente os membros do escritório do führer ou aqueles envolvidos nas mortes em campos de concentração ou de extermínio.

Os países responsáveis pela inquirição aos alemães vencidos foram os Estados Unidos, a União Soviética, a Grã-Bretanha e a França, as potências que formaram o grupo dos Aliados e que levaram à derrota os países do Eixo que, além da Alemanha, era formado, principalmente, pela Itália (berço do fascismo) e pelo Japão.

A escolha da cidade de Nuremberg, que fica no sudeste da Alemanha, foi uma decisão estratégica, pois foi nesse local que aconteceram os grandes comícios nazistas (registrados no documentário Triunfo da vontade, uma mostra assustadora do crescente poderio do Partido Nazista) e que foram treinados os membros da Juventude Hitlerista.

Assim, o palco antes de ostentação dos ideais nazistas passou a ser ressignificado, representando, também, o lugar onde eles foram julgados, presos e (alguns) mortos na tentativa de solapar o sistema criado por Hitler que assombrou o mundo durante aproximadamente 10 anos.

A história do nazismo foi marcada pela atuação de homens que, no decorrer das décadas de 1930 e 1940, formaram o núcleo de poder do Partido. Era um sistema de governo bastante ligado à trajetória de seus membros, que ascenderam dentro do governo alemão conforme as atrocidades, culminando na implantação dos campos de extermínio contra judeus, eslavos, ciganos, homossexuais e oponentes políticos, ganhando contornos cada vez mais macabros.

Desde a história de soldados que treinavam seus tiros usando pessoas como alvo até a mulher do oficial nazista que usava abajures feitos com pele humana, o mundo conheceu gradativamente os horrores impostos àqueles que o regime nazista considerava inimigos, especialmente os judeus. E muitas dessas ações de extermínio e maldade foram conhecidas no decorrer do Julgamento de Nuremberg, que durou aproximadamente um ano até seus vereditos finais.

Entender a trajetória de vida e profissional dessas pessoas é peça fundamental para analisarmos como a Alemanha pôde se envolver com um regime tão brutal, envolto em histórias de mortes e extermínios nunca vistas na História da humanidade.

Vinte e quatro nazistas foram indiciados pelo Tribunal de Nuremberg. Desses, dois não foram a julgamento, um por motivo de doença e outro porque se suicidou. Dos demais, doze foram condenados à morte, três, à prisão perpétua, quatro receberam pena entre 10 e 20 anos de prisão e três acabaram absolvidos.

Muitas polêmicas envolveram o Julgamento de Nuremberg, especialmente, sobre a forma como os réus foram tratados — uns, contra a escolha arbitrária dos defensores, que foram impostos pela Corte; outros, pela liberdade que se deu aos criminosos para relatarem, a maior parte com muita frieza, os crimes que cometeram.

A vida desses homens (e de outros ligados ao regime nazista, boa parte julgados por outras cortes que seguiram a de Nuremberg), desde a adesão ao nazismo até sua morte, estão presentes no livro Personagens do Terceiro Reich, do historiador Rodrigo Trespach, publicado pela Editora 106.

Detalhes de bastidores e o desencadeamento das suas trajetórias dentro do Partido Nazista, sua aproximação (ou não) com Hitler, são apresentadas pelo autor em forma de minibiografias que permitem termos uma noção de como um grupo de pessoas convenceu todo um país a apoiar um projeto de expansão que levou à morte de milhares de seres humanos.


*Felipe Riveiro é historiador, especializado em Filosofia Contemporânea pela Universidade Porto União/R.S.