Matérias » Personagem

Hanoi Jane: Em plena guerra, Jane Fonda fez uma visita amigável ao Vietnã comunista

Em episódio que assombra a atriz ainda hoje, ela chegou a fazer um pronunciamento na rádio de propaganda de guerra adversária

Thiago Lincolins Publicado em 22/04/2019, às 05h00 - Atualizado às 06h00

None
- Reprodução

Começando sua carreira na Broadway em 1960 e transformada em sex symbol com o erotismo de Barbarella, Jane Fonda rapidamente revolucionou sua fama.

Em 1972, após recusar o papel de protagonista de O Bebê de Rosemary por não achá-lo sério o suficiente, ela havia recebido seu primeiro Oscar como uma prostituta no neo-noir Klute - O Passado Condena.

E também estabelecido sua posição como uma das faces mais conhecidas no movimento contra a Guerra do Vietnã.

Então ela foi longe demais.

Guerra não declarada

Em julho de 1972, após capitanear protestos na Universidade de Maryland, ela foi convidada a visitar o Vietnã do Norte.

Isto é, o país comunista contra o qual os EUA estavam em jamais declarada guerra. Em tese, estavam só intervindo em favor de seu aliado, o Vietnã do Sul, ajudando-o a combater seus guerrilheiros comunistas - os vietcongues, Exército Nacional de Liberação do Vietnã, braço então não assumido do Exército do Vietnã do Norte. Que ativistas como Fonda defendiam então ser uma força independente, um movimento comunista do próprio sul.

A não declarada guerra era real. Fonda foi convidada a visitar um sistema de diques que havia sido bombardeado pelos EUA. Após olhar o desastre de perto, chegou a conclusão de que as forças americanas estavam bombardeando injustamente terras agrícolas e áreas que estavam distante dos alvos militares.

A atriz também foi fotografada sentada em cima de uma arma antiaérea usada para atacar os aviões americanos. Assim:

Uma das várias fotos na bateria norte-vietnamita / Reprodução

Hanoi Jane

E a parte mais polêmica: fez anúncios na rádio Voz do Vietnã. Implorava para que os pilotos dos EUA parassem com os ataques. "Solicitei-lhes que considerassem o que estavam fazendo. Eu não acho que eles sabem", disse Fonda em uma coletiva de imprensa quando voltou para os EUA. "As pessoas que estão falando contra a guerra são os patriotas."

A Voz do Vietnã era o instrumento de propaganda do Vietnã do Norte. Fazia transmissões em vietnamita falando das atrocidades dos americanos e do Exército do Sul. Também transmitia mensagens em inglês, contestando os motivos da guerra e desencorajando os soldados americanos a lutar.

Jane Fonda em Hanoi / Getty Images

A narradora vietnamita, Trinh Thi Ngo, ganhou o apelido entre os soldados de Hanoi Hannah. Assim, Fonda se tornaria a "Hanoi Jane".

Nunca esquecido

Diante das polêmicas, a Veterans of Foreign Wars, organização dos veteranos, aprovou uma resolução pedindo que a atriz fosse processada como traidora da nação. Em 1973, a legislatura do estado de Maryland realizou uma audiência para exigir que Fonda e o seus filmes fossem excluídos do estado. "Eu não gostaria de matá-la, mas não me importaria se você cortasse a sua língua", disse William Burkhead, um democrata do Condado de Anne Arundel.

Surgiu o rumor de que a atriz havia vazado as mensagens deixadas com ela pelos prisioneiros americanos para seus algozes. Lenda.

Atriz também visitou uma creche em Hanoi / Getty Images

E o ressentimento nunca morreu. Em 2015, durante uma visita da atriz à Frederick, em Maryland, 50 pessoas protestaram na frente do Weinber Center for the Arts. Eles carregavam placas que diziam "Perdoar? Talvez. Esquecer? Nunca."

Sem arrependimentos

Na época, a atriz não abaixou a cabeça. Continuou questionando as contas do governo dos EUA e dos prisioneiros de guerra norte-americanos que lhe contaram sobre os terríveis momentos de tortura que viviam no Vietnã. Algo que não pesava nada em favor dos comunistas, mas dava mais motivos para terminar a guerra.

A polêmica não iria longe. Os americanos saíram de campo em agosto de 1973, deixando seus aliados serem conquistados pelo Vietnã do Norte em 1975. A atriz ganharia em 1978 outro Oscar, por Amargo Regresso, onde interpretou a esposa de um veterano paralisado na Guerra do Vietnã.

A atriz durante uma coletiva de imprensa dada em 1972 / Reprodução

O lado ativista de Fonda nunca morreu. Em janeiro de 2017, a atriz se juntou a outros grandes nomes do cinema e da música para participar da Women’s March ("Marcha das Mulheres"), movimento contra o sexismo e contra a eleição do presidente americano Donald Trump.

Fonda não se considera uma traidora pela visita de 1972. Ela continua a acreditar que o governo dos EUA estava totalmente errado ao intervir no Vietnã. Mas lamenta a percepção criada pela aventura. "Isso me machuca. Será levado para o meu túmulo que cometi um enorme e enganoso erro, que fez muita gente pensar que eu estava contra os soldados", disse ela durante uma aparição na cidade de Maryland em 2015.