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Haroldo II x Harald Hardrada: a intensa disputa pelo trono da Inglaterra

Em 1066, o episódio encerrou a dinastia anglo-saxônica na ilha, pôs fim à era viking e levou os normandos ao poder

Texto Douglas Portari Publicado em 20/12/2020, às 09h00

Haroldo II e Harald Hardrada em montagem
Haroldo II e Harald Hardrada em montagem - Divulgação

Em todos os reinados, as sucessões ao trono sempre foram terreno fértil para complôs e disputas declaradas. Era o momento em que velhos ressentimentos afloravam entre aqueles que se viam como legítimos herdeiros da coroa.

Pouquíssimos reis subiram ao trono como unanimidades ou sem luta. Laços de sangue nada significavam. A Inglaterra do século 11 viveu essa rotina com toques ainda mais surpreendentes.

Em 1066, um dos aspirantes ao trono não vinha sequer de uma linhagem real. Harold Godwinson era filho do conde de Wessex, a família mais poderosa da época. Ambicioso, sua proximidade com o trono se dava por um parentesco casual – sua irmã era casada com o rei Eduardo III, o Confessor – e por seu livre trânsito junto ao monarca, que não tinha herdeiros.

O outro postulante à coroa, ainda que nobre, era um forasteiro. E bárbaro. Harald Hardrada, rei norueguês, era um calejado guerreiro viking que se considerava credor de um acordo firmado entre seu sobrinho e um soberano dinamarquês que reinara na Inglaterra durante uma “dinastia escandinava” (de 1013 a 1042).

Havia ainda um terceiro concorrente, do outro lado do Canal da Mancha, que teria papel decisivo nessa disputa, o normando William (ou Guilherme, na forma latina).

Contexto histórico

O vácuo de poder que atraía tantos pretendentes ao trono inglês era resultado do atrito entre anglo-saxões, vikings e normandos (estes, descendentes dos próprios escandinavos).

Foi a partir do século 5°, com o fim do poder romano, que povos germânicos e dinamarqueses (anglos, saxões e jutos) cruzaram o mar para povoar a antiga Britânia. Seriam as forças criadoras do reino da Inglaterra e de uma dinastia própria.

Em meados do século 8°, porém, os vikings passaram a invadir a ilha para pilhar e forçar o comércio. Combates entre anglo-saxões e vikings tornaram-se frequentes. Contudo, nos séculos 9° e 10°, as incursões vikings à Europa e às Ilhas Britânicas deram origem a colônias. Tomado pelos dinamarqueses, todo o nordeste inglês ficou conhecido como Danelaw.

No fim do século 10°, os ingleses ao sul eram obrigados a pagar uma taxa para não serem atacados, o danegeld (dinheiro dos dinamarqueses). O rei que aceitou o tributo, Ethelred II, ficou conhecido como 'o Despreparado' e seria deposto em 1013 pelo rei da Dinamarca, Swein, com aprovação inglesa.

Swein morreria em 1014 e Ethelred, exilado na Normandia, retornaria apenas para ser apeado do trono pelo filho de Swein, Canuto, em 1016.

Foi a quebra da longa linha sucessória anglo-saxônica. Canuto, porém, soube se adaptar. Como quase todos os vikings à época, era cristão e casou-se com a viúva de Ethelred, Emma, uma princesa normanda.

Nos anos seguintes, graças a suas conquistas no norte, tornou-se também rei da Noruega, sendo, então, monarca de três países. Quando morreu, em 1035, levava a alcunha de “o Grande”. Seu império, porém, ruiu.

Seus dois filhos, Haroldo e Hardacanuto, o sucederam brevemente (de 1037 a 1042). Nesse período, a Dinamarca foi tomada pelo novo rei norueguês, Magnus, e a antiga linhagem anglo-saxônica reclamou o trono inglês.

Em 1042, o filho de Ethelred e Emma, Eduardo III, o Confessor, que havia passado quase toda a vida exilado na Normandia, assumiu a coroa inglesa, retomando a antiga dinastia da ilha.

Rei morre

A morte de Eduardo III, em 5 de janeiro de 1066, levou o Witan, um conselho de sábios, a proclamar Harold Godwinson soberano inglês, como Haroldo II. Além do poder que sua família havia conquistado durante o reinado de Canuto, acumulando condados sob seu domínio, era a figura mais expressiva do reino. Em 1063, junto com seu irmão Tostig, havia debelado bravamente a invasão do rei de Gales, Gruffydd.

Mas isso não impressionava seu concorrente viking. Em 1030, com apenas 15 anos, Hardrada sobrevivera à batalha de Stiklestad, na qual seu meio-irmão, o herói nórdico Santo Olaf, morreu tentando reaver seu trono.

No exílio, Hardrada lutou como soldado na Europa Oriental e foi mercenário na guarda varegue do império bizantino. Ali, sua liderança e fúria em combate lhe trariam fama e fortuna.

Em 1045, ele retornou à Noruega, onde dividiu o trono com seu sobrinho Magnus, que morreria – convenientemente – dois anos depois. Com a morte de Eduardo III,Hardrada voltou seus olhos para o trono inglês.

Ele se via como herdeiro do acordo de paz firmado décadas antes entre Hardacanuto (rei da Inglaterra entre 1040 e 1042) e Magnus, que previa, caso morressem sem filhos, que um assumiria o reino do outro.

Em setembro de 1066, Hardrada partiu com 300 embarcações e 7,5 mil homens para tomar o trono inglês. Ele contava ainda com a ajuda de Tostig, o irmão de Haroldo II. Após desembarcar no norte da Inglaterra, o rei norueguês tomou a cidade de York, que nutria simpatia pelos nórdicos. Apesar da surpresa do ataque, Haroldo II estava preparado.

Batalhas pelo trono

Sua guarda, os housecarls, era uma tropa altamente treinada. Cerca de 7 mil soldados marcharam de Londres para o norte, quase 400 quilômetros em quatro dias, e surpreenderam seus oponentes a leste de York, na Ponte Stamford.

Ali, em 25 de setembro, lutaram ao estilo viking: descargas de flechas e lanças e, então, combate corpo a corpo, com espadas, lanças e achas.

Apesar da ferocidade de Hardrada com seu machado de combate, ele e Tostig foram mortos e os invasores, destroçados (20 anos após essa batalha, os nórdicos encerrariam de vez suas invasões na Europa).

Haroldo II, no entanto, não pôde descansar. William, o duque normando que também reclamava o trono inglês, desembarcara em 28 de setembro, no sul da Inglaterra, em Pevensey, com 12 mil soldados.

Esse ataque era esperado por Haroldo. Segundo historiadores, Eduardo III prometera a coroa a seu primo William, caso morresse sem herdeiros. Por razões desconhecidas, em 1064, Haroldo teria viajado até a Normandia, onde fez o juramento de apoiar o duque na demanda pelo trono inglês. Para William, a coroação de Haroldo foi também uma traição a votos sagrados.

Fatigados por uma árdua batalha e duas longas marchas, os ingleses confrontaram William, em Hastings, a 14 de outubro de 1066. Caíram frente às táticas normandas de cavalaria. Ao final do dia, Haroldo II estava morto.

A lenda diz que foi alvejado no olho por uma flecha (o tipo de morte decretado a quem fazia falso juramento). No Natal de 1066, William – o Conquistador – tornava-se o primeiro rei da dinastia normanda da Inglaterra.

Guerreiros vikings

Os povos nórdicos do século 11 já não eram os pagãos que 200 anos antes haviam espalhado terror pela Europa. Mas histórias como a destruição do mosteiro de Lindisfarne, no nordeste da Inglaterra, em 793, quando noruegueses mataram os monges e pilharam o local, ainda ecoavam em várias regiões. A palavra escandinava que designava esses guerreiros, viking (pirata), explicava sua razão de ser.

A partir do século 8°, após constantes batalhas em suas terras de origem (Dinamarca, Noruega e Suécia), eles buscaram territórios e rotas de comércio. Seus conhecimentos de navegação e seus barcos longos de quilha profunda possibilitaram navegar em mar aberto e rios. Assim saquearam e colonizaram partes das Ilhas Britânicas e da França (onde eram chamados de normanni, homens do norte), dando origem à Normandia.

Foram também à Islândia e à Groenlândia, cruzaram o Atlântico, chegando à América. Aventuraram-se pelo Mediterrâneo e Mar Báltico.

Na Europa Oriental, tomaram Kiev, onde foram chamados de rus (daí, russo), descendo pelos rios até ter contato com o império bizantino. Com as colonizações, os vikings converteram-se ao Cristianismo e sua sanha exploradora arrefeceu. No fim do século 11, seu período de grandes invasões terminara.