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Henrietta Lacks, a descendente de escravos que revolucionou a medicina sem saber

Após morrer vítima de um câncer cervical, suas células foram estudadas e ajudaram no tratamento de inúmeras outras doenças — embora isso seja alvo de polêmicas até hoje

Fabio Previdelli Publicado em 04/07/2020, às 08h00 - Atualizado às 10h00

Foto de Henrietta Lacks
Foto de Henrietta Lacks - Wikimedia Commons

A descoberta da cura do câncer é o sonho de qualquer médico e para o Dr. George Gey isso não era diferente. O profissional estava convencido de que a chave para isso seria encontrada nas próprias células humanas e, embora ele não tenha achado uma solução para a doença, foi de lá que fez uma descoberta que revolucionaria para sempre a ciência e a medicina — mesmo que de maneira muito polêmica.

A chave para todo esse processo seria Henrietta Lacks, descendente de uma família de escravos. Em 1º de abril de 1951, ela foi levada foi levada ao Hospital John Hopkins. "Eu nunca vi nada assim, nem nunca voltei a ver", disse Howard Jones, o ginecologista que a examinou, em entrevista à BBC em 1997.

"Era algo muito diferente e especial, que se revelou um tipo de tumor. A história era simples: ela sangrava entre as menstruações, tinha dores abdominais, o que não é necessariamente um sinal de câncer", explicou. "Quando examinei o colo do útero, fiquei surpreso, porque não era um tumor normal. Era roxo e sangrava facilmente quando tocado."

Células HeLa coloridas artificialmente em laboratório / Crédito: Wikimedia Commons

 

Entretanto, o tumor não respondeu muito bem ao tratamento e Henrietta Lacks acabou morrendo de câncer cervical em outubro daquele ano, com apenas 31 anos. Sua triste morte, de maneira indireta, permitiria a vida de inúmeras outras pessoas. Mas como isso é possível?

É exatamente nesse ponto em que as polêmicas começam. Naquela época, não haviam legislações específicas para as biópsias e, assim, sem pedir autorização para os familiares, Dr. Gey retirou um pedaço do tecido de Lacks para estudo.

As células do tumor que foram retiradas do corpo de Henrietta ficaram guardadas na unidade hospitalar de câncer, tudo isso porque o médico havia descoberto que elas podiam ser cultivadas indefinidamente no laboratório.

As células eram justamente aquilo que ele tinha procurado por tantos anos e a sequência foi batizada de HeLa — em referência as duas primeiras letras do nome de Henrietta Lacks. Desde então, essas células que foram removidas vêm crescendo e se multiplicando, e são usadas para estudo em diversos laboratórios do mundo todo.

"Em poucas horas, a HeLa pode ser multiplicada prolificamente", explica o professor de Genética na Universidade de Newcastle, Reino Unido, John Burn. De fato, é justamente isso que elas fazem, já que uma leva inteira de células HeLa precisam de apenas 24 horas para se reproduzir. Com isso elas são consideradas as primeiras células humanas imortais que foram cultivadas em laboratório. O mais bizarro disso tudo é que elas já vivem há mais tempo fora do que dentro do corpo de Lacks.

Mas o que as torna tão importantes assim?

"Há muitas situações em que precisamos estudar tecidos ou patógenos no laboratório", explica Burn. "O exemplo clássico é a vacina contra a poliomielite. Para desenvolvê-la, era necessário que o vírus crescesse em células de laboratório, e, para isso, eram necessárias células humanas".

Nesse caso, a HeLa foi fundamental para esse experimento, os testes nessa linha celular permitiram que fosse desenvolvidos as vacinas que salvaram milhões de pessoas. Elas não só contribuíram com os estudos para o tratamento de inúmeras outras doenças (como a poliomielite), como também foram levadas nas primeiras missões ao espaço — sendo uma forma dos cientistas descobrirem o que acontecia com o tecido humano quando vivia em situações de gravidade zero.

Células HeLa se dividindo em cultura / Crédito: Wikimedia Commons

 

Além do mais, a HeLa foi comprada, vendida e enviada para diversos laboratórios ao redor do mundo. "Não dá para saber quantas células de Henrietta ainda circulam. Um pesquisador estima que, juntas, pesariam 50 milhões de toneladas, algo inconcebível, porque cada uma pesa quase nada", diz Rebecca Skloot, autora do livro A Vida Imortal de Henrietta Lacks.

Com elas, faturou-se bilhões de dólares em pesquisas e testes, tudo isso sem o consentimento dos familiares de Henrietta, que só souberam do uso da célula em 1973. "Um dia, um pesquisador de pós-doutorado chamou o marido de Henrietta, que não tinha terminado a escola e não sabia o que era uma célula e disse a ele: sua esposa vive em um laboratório e a utilizamos na pesquisa científica há 25 anos”, explica Skloot.

Quando seus familiares tiveram a real noção dos que os pesquisadores estavam fazendo com as células de Henrietta, procuraram um advogado em busca de seus direitos. O processo judicial já dura alguns anos e, desde então, eles esperam uma compensação financeira do Centro Médico John Hopkins — onde as células foram tiradas.


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