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Henrique V de Inglaterra: conheça o monarca que virou tema de novo filme da Netflix

A maioria do que conhecemos deste curioso monarca está infestado de lendas e visões anacrônicas. Saiba mais sobre a verdadeira trajetória do príncipe Hal

André Nogueira Publicado em 04/11/2019, às 11h43

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- Wikimedia Commons

Ao longo de séculos, Henrique V da Inglaterra passou por várias representações artísticas, passando por Shakespeare até se tornar protagonista de um novo filme da Netflix, protagonizado por Timothée Chalamet. Como consequência, passamos a conhecer a vida e a morte do monarca em suas diversas facetas mitológicas e lendárias. Porém, antes disso, o rei que venceu os franceses na Batalha de Agincourt foi uma figura histórica real, com biografia e uma vida verdadeiras.

O PRÍNCIPE

Pouco se sabe sobre os primeiros anos do monarca, a ponto de ser uma dúvida até mesmo o ano em que nasceu (provavelmente na década de 1380). Henrique IV de Inglaterra era duque de Derby e, com sua esposa Maria de Bohun, tiveram o filho Henrique em um castelo no País de Gales.

Quando o Henrique pai, que se tornaria Henrique IV, participou da rebelião derrotada contra o rei Ricardo II, o monarca da Inglaterra fez o jovem Henrique como refém. Durante esse episódio, Henrique se aproximou de Ricardo, que o tratou muito bem: o levou em sua expedição à Irlanda e o tornou cavaleiro.

Durante esse tempo, Henry Bolingbroke retornou à Inglaterra e começou a angariar apoio popular até que, em 1399, ele assumiu o trono do reino alegando direito por descendência, referindo-se a Henrique III. Para tanto, conseguiu a deposição formal de Ricardo II no Parlamento.

Representação de Henrique V em moeda de prata / Crédito: Wikimedia Commons

 

PRÍNCIPE DE GALES

Com a ascensão do pai, Henrique se tornou Príncipe de Gales e passou a estudar no Queen’s College de Oxford, tendo como tutor seu tio Henry Beaufort, um bispo católico. Lá, aprendeu as mais diversas áreas pelas quais tinha interesse, como artes, línguas e escrita.

Por mais que Henrique V tenha passado pra história como um jovem rebelde e contraventor – muitas vezes acusado até de insano – os historiadores tendem a concordar, mesmo que debatendo, que Henrique teve um papel relevante no governo do pai, não esperando por sua morte para amadurecer como sugeriu Shakespeare. Sua relação com o pai era conturbada não por sua indiferença, mas por seu posicionamento político marcado.

Além disso, o príncipe Hal passou boa parte de sua juventude guerreando em batalhas de campo, sendo o contrário do pacifista inconsequente que fizeram de sua imagem. Sua primeira guerra ocorreu em 1403, aos 16 anos, contra o rebelde Henry Percy. Demonstrando grande aptidão com as armas, o príncipe liderou a vitória de seu pai.

Nessa batalha, Henrique ganhou uma marca que o acompanhou para o resto da vida: quase morreu com uma flechada na cabeça, que entrou por debaixo de seu olho sem o matar. Depois de se recuperar, voltou a proteger a coroa de revoltas e rebeliões pelo Reino Unido. Assim se manteve até a morte do pai, em 1413.

Kenneth Branagh em representação do rei em filme de 1989 / Crédito: The Samuel Goldwyn Company

 

Com o óbito de Henrique IV, o príncipe de 26 anos foi coroado Rei da Inglaterra. Assim como o pai, seu governo começou conturbado e repleto de inconfidências por parte de antigos amigos que rejeitavam a legitimidade daqueles que derrubaram o rei Ricardo II.

Diferentemente do pai, que buscou a diplomacia e a paz na consolidação de seu governo, Henrique V optou pelo caminho da guerra. Esmagando rebeliões com firmeza, seu reinado foi marcado pela falta de misericórdia contra os derrotados. Ao mesmo tempo, campanhas culturais foram comuns enquanto ele esteve no poder.

Por exemplo, foi com Henrique V que o inglês formal foi introduzido oficialmente nos procedimentos governamentais. O uso da língua vernácula passou a ser incentivado.

Na época, a Inglaterra e a França estavam envolvidas em diversos conflitos de caráter cultural, econômico e político, incluindo uma série de batalhas que se agruparam, posteriormente, como a Guerra dos Cem Anos. Durante o reinado de Henrique V, a intriga entre a casa Plantagenet – inglesa – e a Valois – francesa – foi acirrada e o monarca optou por renovar as campanhas militares empreendidas contra a França.

Entre as exigências formais de Henrique contra a França, destacaram-se: a retomada das terras perdidas de Aquitânia, Normandia, Touraine e Maine, o pagamento de uma insustentável quantia de 2 milhões de coroas e a concessão de Catarina, filha do rei Carlos VI, como sua esposa.

Então, em 1415, a Inglaterra atacou a França. Rapidamente, começa a acumular vitórias, se destacando como brilhante articulador militar. Em agosto daquele ano, sitiou Harfleur e tomou a cidade. Então, a defesa francesa barrou o exército de Henrique na altura do Rio Somme, interceptando o progresso inglês em Agincourt.

Batalha de Agincourt em manuscrito século 15 / Crédito: Domínio Público

 

Na ocasião, Henrique fez um importante discurso que motivou suas tropas – que foi, apesar de completamente diferente do que foi propagado por Shakespeare, de mesma intensidade que a versão literária, segundo o historiador Dan Jones.

Quando a disputa em território francês, que foi a famosa Batalha de Agincourt, teve início, a França superava com larga vantagem o número de guerreiros da Inglaterra. Porém, devido à destreza de Henrique como general e à experiência das tropas com disparos de arco a longo alcance, foi possível uma vitória inglesa. Outro fator que auxílio foi o clima do dia: devido às chuvas, o lamaçal do campo de batalha afogou diversos franceses, que tinham armaduras extremamente pesadas.

Com a vitória contra os franceses, Henrique V passou a chamar as atenções de seus vizinhos. O Sacro Império Romano passou a conciliar com a Inglaterra, agraciando o monarca com uma visita em 1416, ocasião em que o rei da Inglaterra participou do esforço que acabou com o cisma papal da época.

A partir de 1417, a Inglaterra de Henrique passou a empreender mais campanhas militares e cercos pelo reino da França. Suas novas vitórias obrigaram Carlos VI a ceder e concordar com os termos do monarca. Daí nasceu o Tratado de Troyes, de 1420, que declarava Henrique V herdeiro do trono francês e oficializava o casamento entre ele e Catarina de Valois.

Casamento de Henrique V com Catarina de Valois / Crédito: Wikimedia Commons

 

O casal nada apaixonado chegou à Inglaterra em 1421, concebendo um púnico filho, que se tornou herdeiro do trono: mais um Henrique na família.

Em seus últimos anos, o monarca retornou algumas vezes à França, tanto para criar bases na nação que supostamente herdaria, quanto para comandar novas conquistas. Em outubro de 1421, liderou um cerco em Meaux, que acabou durando sete meses. Em meio a essa batalha, no inverno, Henrique V adoeceu.

Devido a desinterias causadas pela enfermidade, o Rei da Inglaterra morreu em 31 de agosto de 1422. Tinha, na época, pouco menos de 36 anos. Seu filho foi rapidamente proclamado Henrique VI, mesmo com nove meses de idade, e teve um reinado marcado por crises, doenças e insurgências. O herdeiro perdeu diversos territórios franceses conquistados pelo pai.


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2. The Wars of the Roses: The Fall of the Plantagenets and the Rise of the Tudors, de Dan Jones- https://amzn.to/33fpNcT

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