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Henry Johnson: o exército de um homem só que lutou contra dezenas de soldados alemães na Primeira Guerra Mundial

Apesar da sua incrível vitória no campo de batalha, Henry não conseguiu vencer a segregação racial

Fabio Previdelli Publicado em 19/09/2019, às 16h57

Henry Johnson
Henry Johnson - Reprodução

Embora os afro-americanos estivessem servindo nas Forças Armadas dos EUA desde a Guerra Revolucionária, eles ainda enfrentavam discriminação no meio militar. Até o presidente Harry Truman integrar as forças armadas em 1948, os soldados negros tinham que servir em unidades totalmente negras.

Apesar da segregação estar em pleno vigor na vida civil e militar quando os americanos entraram na Primeira Guerra, milhares de negros se alistaram para ajudar o país. Muitos acreditavam que assim conseguiriam provar seu valor nos campos de batalha e, por consequência, conseguiriam direitos iguais.

Apesar do entusiasmo deles, os comandantes militares tinham pouca fé em suas habilidades de combate. As unidades totalmente negras eram constantemente relegadas ao trabalho servil nas linhas de frente, como transporte de suprimento e escavações de latrina. No entanto, no final da guerra um regimento de negros ganharia fama como uma unidade de combate lendária.

O presidente Harry S. Truman e o general Dwight Eisenhowernão compartilhavam da mesma opinião sobre a integração das forças armadas / Crédito: Reprodução


Os Harlem Hellfighters

A França estava desesperadamente com poucas tropas devido ao desgaste por anos de combates brutais na guerra, sendo assim, os americanos lhe cederam o 369° Regimento de Infantaria, que foi recebido de braços abertos. O grupo logo ficou conhecido como os Harlem Hellfighters, já que muitos deles eram originários do Harlem, em Manhattan.

Apesar da falta de treinamento, as tropas foram equipadas com armas e capacetes franceses e enviadas diretamente para as linhas de frente. Um dos Hellfighters era William Henry Johnson, que na época tinha 25 anos e que trabalhava como carregador de ferroviária antes de se alistar.

Soldados do Harlem Hellfighters / Crédito: Wikimedia Commons


Um dos mais corajosos

Passava da meia-noite de 15 de maio de 1918, quando Johnson começou a ouvir alguns ruídos. Ele estava há centenas de quilômetros de Albany, Nova York — sua cidade natal — guardando uma ponte na floresta de Argonne em Champagne, na França. Ao seu lado, dormia o também soldado Needham Roberts.

Os ruídos ficavam cada vez mais constantes, até que o soldado ouviu um estridente metálico e logo suspeitou que fosse o som da cerca do perímetro sendo cortada. Ele não hesitou e começou a lançar diversas granadas a esmo, o que fez com que os alemães abrissem fogo.

Roberts foi atingido por fragmentos de uma granada. Debilitado, ele só conseguia auxiliar Johnson com a entrega de explosivos. Quando eles se acabaram, Henry começou a devolver o fogo com seu próprio rifle, mas acidentalmente o atolou ao tentar colocar um cartucho americano numa arma francesa.

Hellfighters na França / Crédito: Wikimedia Commons


Ele se recusou a desistir do combate e mesmo sem treinamento adequado, começou a bater nos alemães com a coronha de seu rifle até que ele se partisse. Apesar dos ferimentos que sofreu com projeteis, ao ver Roberts sendo levado pelos inimigos, ele partiu com seu facão em uma batalha sangrenta e dilacerante que durou cerca de uma hora. Alguns homens que visitaram o local disseram que Johnson vitimou seis inimigos e feriu outros 32.

O ato heroico impediu o sucesso dos alemães em romper a linha francesa. Johnson sofreu mais de 21 feridas durante a luta, mas como ele mesmo disse: “apenas lutei pela minha vida. Um coelho teria feito o mesmo”.

Os franceses discordaram e concederam a ele e a Roberts o Croix de Guerre — a maior honraria militar do país. Porém, o jovem negro que se tornara herói de guerra na França, não teve o mesmo reconhecimento em seu país natal. Apesar de ter sido apelidado pelo ex-presidente Theodore Roosevelt com um dos “cinco americanos mais corajosos para servir em toda a guerra”, a diferença de tratamento que recebia em relação aos brancos,  só escancarou ainda mais o grave período de segregação que os negros sofriam nos Estados Unidos.

William Henry Johnson e Needham Roberts / Crédito: Reprodução


Henry Jonhson e os Hellfighters 

Quando os Harlem Hellfighters voltaram para casa em 1919, eles tiveram que marchar em um desfile de vitória separado na Quinta Avenida, pois não tinham permissão para participar do desfile oficial ao lado dos soldados brancos.

Isso não impediu milhares de pessoas se alinharem nas ruas para animar as tropas que retornavam, em particular Henry Johnson — que ganhou o apelido de Peste Negra — que liderou a procissão em um carro com teto aberto.

Johnson voltou ao seu trabalho na ferrovia depois de receber alta, mas seus ferimentos de guerra dificultaram muito nas suas tarefas. Ele acabou falecendo em 1929, com apenas 36 anos, vítima de uma miocardite (uma inflamação do músculo cardíaco), enquanto morava em Washington.  

Henry Johnson em comemoração com os Harlem Hellfighters / Crédito: Reprodução


Reparação histórica 

Somente em 1996, Johnson foi premiado com um Coração Póstumo Roxo. Durante anos, não ficou claro o que aconteceu com seus restos mortais. Somente em 2002 historiadores da Divisão de Assuntos Militares e Navais de Nova York determinaram que Johnson estava enterrado no Cemitério Nacional de Arlington.

Com a confirmação do túmulo, no mesmo ano ele se tornou elegível e recebeu a Cruz de Serviço Distinto – a segunda maior condecoração militar que pode ser dada a um membro do exército americano.

Em 2015, o presidente Barack Obama concedeu a ele a Medalha de Honra, que foi aceita em nome de Johnson pelo sargento-major Louis Wilson, da Guarda Nacional de Nova York. Todo dia 5 de junho, Albany celebra o Dia de Henry Johnson, em referência ao dia em que ele se alistou.