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Herança dos colonos, cavalos representam uma dor de cabeça para a Austrália

Entenda a delicada situação, que pode exigir o abate de centenas de cavalos selvagens

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 07/11/2021, às 10h00

Fotografia de um brumby, isto é, que é o apelido dado para cavalos selvagens que ocupam o território australiano
Fotografia de um brumby, isto é, que é o apelido dado para cavalos selvagens que ocupam o território australiano - Divulgação/ Pixabay/ PaquitaFadden

Os cavalos não são uma espécie natural da Austrália, todavia, foram introduzidos no território por colonos europeus no passado, e acabaram se multiplicando ao longo dos anos.

Atualmente, o país possui uma população equina de cerca de 25 mil, segundo divulgado por uma pesquisa realizada pelo Parque Nacional dos Alpes Australianos em 2019.  E este é um enorme problema que tem enlouquecido a comunidade científica australiana há anos. 

Isso porque o território do país possui um ecossistema único, que acaba sendo desequilibrado pela presença dos corcéis, que são considerados uma espécie invasora. 

Para piorar a situação, a maior parte dessa população equina está concentrada na região dos Alpes australianos — e, infelizmente, esse habitat é também o lar de uma série de répteis, peixes e mamíferos ameaçados de extinção.

Para essas espécies, competir pelos recursos do ambiente com esses animais de largo porte oferece uma desvantagem que pode inclusive se mostrar comprometedora à sua sobrevivência.  

Outro detalhe importante é que a vegetação alpina possui um caráter mais delicado, dessa forma não sendo adaptada para acomodar corcéis, que acabam danificando-a com seus cascos.

"Essas áreas são frágeis demais para ter grandes herbívoros pisando nelas", explicou Don Driscoll, um ecologista, em entrevista à revista científica Nature. 

Fotografia mostrando brumbies, isto é, cavalos selvagens que habitam a Austrália / Crédito: Wikimedia Commons/ Grahamec

 

Entre manter e abater

Recentemente, as autoridades da Austrália decidiram fazer algo a respeito da questão: um novo plano prevê que por volta de 10 mil cavalos serão ou realojados ou abatidos.

Um dos focos principais da mudança é o Parque Nacional Kosciuszko, que, sozinho, concentra 14 mil indivíduos da espécie, e pretende manter apenas cerca de 3 mil depois que for aplicado o plano. 

Infelizmente remover essa quantidade de corcéis da área não é o suficiente para resolver o problema de uma vez por todas. Esse foi o argumento trazido à luz por uma carta aberta divulgada pela comunidade científica no último dia 29 de outubro de 2021. O documento foi assinado por 69 pesquisadores. 

"Agora pedimos às autoridades que ouçam a ciência, as últimas evidências e recomendações sobre a melhor forma de proteger o parque dos danos significativos causados ​​por cavalos selvagens. Fazer o contrário seria mostrar um desprezo pelos ameaçados ecossistemas nativos australianos e espécies em extinção iminente e sob a ameaça de cavalos selvagens", afirmou John Shine, presidente da Academia Australiana de Ciência. 

Um grande bloqueio é uma lei aprovada no estado de Nova Gales do Sul (onde fica o parque) em 2018. Esse texto considerou os cavalos selvagens — ou "brumbies", que é o apelido dado aos corcéis que cavalgam livres pelo território — como um "patrimônio cultural" do local, ainda que sejam uma espécie estrangeira e as evidências mostrem que causa danos ao ecossistema da Austrália. 

Fotografia mostrando brumbies / Crédito: Wikimedia Commons/ Cgoodwin

 

Na carta aberta dos cientistas, uma das solicitações é que esse artigo seja revogado, uma vez que, segundo apontado por eles, viola princípios de gestão de áreas protegidas previstos em leis anteriores. 

Também segundo repercutido pela LiveScience, um levantamento publicado na revista Biological Conservation no último mês de setembro revelou que 71% da população australiana é a favor de sacrificar animais com o objetivo de salvar espécies que estão em risco de extinção, de forma que é possível concluir que os australianos estão majoritariamente em acordo com os cientistas em relação à solução para a questão. 

Resta, no entanto, que os políticos de Nova Gales do Sul cedam aos apelos dos especialistas e assumam uma postura mais firme de proteção da fauna e flora nativas do país.