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O dia em que Hirohito, o imperador do Japão, declarou que não era um deus

Na primeira vez em que falou ao povo, Hirohito anunciou a rendição. Na segunda, explicou que era uma pessoa comum

Mariana Ribas Publicado em 11/06/2019, às 00h00 - Atualizado às 08h00

Imperador Hirohito
Imperador Hirohito - Getty Images

Hirohito, imperador do Japão de 1926 até sua morte, em 1989, era  visto como uma divindade pelos japoneses. Sempre vestido com roupas imponentes e impecáveis, era considerado descendente da deusa do sol, Amaterasu.

Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão tinha declarado guerra aos Estados Unidos. Como o país nunca tinha perdido uma guerra, a pressão sobre a população e sobre o imperador era grande. Muitos japoneses morreram, e outros tiveram que aceitar a derrota.

Parte da população tinha medo de o imperador ordenar que todos se suicidassem em nome da pátria. Segundo aspectos culturais, era de praxe que japoneses pátrios se matassem após serem derrotados.

O imperador nunca havia se pronunciado diretamente ao povo. Quando o fez, em 15 de agosto de 1945, em uma transmissão de rádio, precisou de um intérprete, tamanha a formalidade de sua linguagem. Em seu primeiro contato verbal com o público, Hirohito declarou o fim da guerra com os Estados Unidos.

Ele dizia a todos para tolerar o intolerável e disse que ao testemunhar tamanho sofrimento de seu povo, seus órgãos vitais haviam se partido — tentando, assim, reverberar sua imagem divina e uma ligação mágica com o povo.

A imagem do imperador não o sustentava mais. Após a guerra e a ocupação norte-americana do Japão, o mundo entrou em crise e líderes de vários países começaram a ser investigados, inclusive Hirohito, que teve que mudar sua estratégia para conquistar os súditos.

Hitler se suicidou. Mussolini fugiu para a Suíça e foi morto. Enquanto isso, no Japão, o líder que causara mais estragos do que na Itália fascista foi encontrado vivo, e nem chegou a ser julgado pelos crimes que cometera. Hirohito ficou no poder até 1989, dia em que deu seu último suspiro.

A decisão de que o absolutista ficasse no poder não foi dos japoneses, e nem mesmo de sua família, que o incentivou a renunciar ao trono. Hirohito até tentou se responsabilizar pela guerra e os crimes que cometera, mas o marechal Douglas MacArthur, oficial norte-americano que ocupara o Japão pós-guerra, foi quem decidiu mantê-lo no poder.

Alguns acreditam que MacArthur havia escutado o general Bonner Fellers dizer que "a morte do imperador seria semelhante à crucificação de Cristo", achando melhor inocentá-lo. Outros dizem que Hirohito o convenceu, com seu jeito manipulador, de que havia sido obrigado a dar continuidade à guerra e fazer o que fez.

Já que os poderes do imperador haviam diminuído com a derrota, ele decidiu fazer outra transmissão de rádio no dia 1 de janeiro de 1946. Afirmou não ser um deus. Disse que sua família não tinha ligação divina e que seu sangue era exatamente como o dos outros.