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Neste dia, em 1945, a impiedosa bomba Little Boy devastava Hiroshima

Há 76 anos, carregando um explosivo inédito, o avião Enola Gay decolava logo nas primeiras horas do dia com um único objetivo

Redação Publicado em 06/08/2020, às 00h00 - Atualizado às 00h00

Registro das explosões em Hiroshima e Nagasaki, respectivamente
Registro das explosões em Hiroshima e Nagasaki, respectivamente - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Aquele domingo de verão foi marcado por sol, calor e nada para fazer. Era um dia tranquilo na base aérea de Tinian, uma das ilhas Marianas, no Pacífico. Durante sua folga, os soldados norte-americanos do 509º Grupo Misto tiravam um cochilo, batiam papo e se divertiam. O major Tom Ferebee, de 26 anos, passou o dia todo com a luva e a bola de beisebol. Ex-jogador do Boston Red Sox, não via a hora de voltar para casa.

Enquanto os outros se divertiam, o sargento Bob Caron limpava sua máquina fotográfica. Muitos jogaram pôquer. No fim da tarde, contudo, a tão sonhada moleza foi interrompida com a convocação para uma reunião.

De repente, o ex-capitão da Marinha William Parsons irrompeu na frente do seu batalhão para dar uma notícia. No dia seguinte, 6 de agosto de 1945, aquele grupo de jovens lançaria sobre Hiroshima, no Japão, uma das arma mais terríveis da história.

A bomba que vocês vão jogar é uma coisa nova nas guerras. É a mais poderosa arma já produzida. Vai destruir uma área de cinco quilômetros quadrados."

Até aí, a missão para a qual os soldados do 509º estavam se preparando havia um ano era desconhecida mesmo para eles. Envolvera milhares de pessoas, entre cientistas e militares, três anos de trabalho e dois bilhões de dólares.

Tudo isso para construir uma bomba inédita, tecnologicamente revolucionária e com o poder de 12 mil toneladas de dinamite. Mas por que os americanos precisavam de uma arma tão poderosa?

A fatídica missão

Em maio de 1945 a guerra na Europa havia terminado. Hitler estava morto, e Berlim, em ruínas, fora ocupada pelo Exército Vermelho. Os aliados já discutiam o mundo pós-guerra e dividiam os territórios libertados pelos nazistas. Só que, enquanto a Europa era fatiada, o Japão resistia com firmeza.

No dia 25 de julho, em seu gabinete improvisado no cruzador USS Augusta, no meio do Atlântico, o ex-presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, tomou sua decisão e ordenou o ataque nuclear ao Japão. Tinha na mão uma lista de cidades-alvo, feita pelo ex-secretário de Guerra, Henry Stimson: Hiroshima, Kyoto, Kokura, Niigata e Nagasaki.

Segundo a biografia oficial de Truman, da jornalista Nancy Lewis, o presidente excluiu uma, Kyoto, que fora capital imperial do Japão, e insistiu na escolha de um alvo militar. Hiroshima, com 40 mil soldados e 220 civis, tornou-se, assim, o alvo prioritário. No navio, o presidente escreveu em seu diário: "A arma finalmente será usada contra o Japão. Parece a coisa mais terrível já descoberta".

Restava escolher o homem certo para a missão. Paul Tibbets, um ex-comandante nascido em Quincy, era o favorito. Apesar de seus 30 anos de idade, já acumulava grande experiência em combate. Sua ficha, todavia, ficou três meses nas mãos do FBI, quando sua vida pessoal, desde os parentes até as opiniões partidárias, foi vasculhada.

Afinal, Tibbets teria sob seu comando a mais mortal arma de guerra jamais construída. Nada poderia dar errado. E se desse, o comandante da missão deveria estar preparado. Tibbets receberia cápsulas de cianureto para toda a equipe. Se alguém se negasse a tomá-las, ele deveria executá-lo. Isso, porém, ainda era segredo naquele domingo de sol.

Paul Tibbets ao lado do Enola Gay /Crédito: Wikimedia Commons

 

O dia da missão

O tempo também estava claro e calorento a 2700 quilômetros dali, em Hiroshima. Mesmo sendo domingo, o trabalho não parava: a cidade era um dos poucos centros industriais do Japão que não tinham sido atacados pelos bombardeios dos B-29, que incendiavam quarteirões inteiros.

"Todos sabiam que seríamos os próximos", lembra Takashi Morita, ex-policial militar japonês que sobreviveu ao ataque e residiu em São Paulo. Ao som dos rotineiros alarmes antiaéreos das últimas semanas, os moradores gastaram o dia levando móveis para casas de parentes longe do centro ou improvisando abrigos. Grupos de meninas estudantes (os meninos com mais de 12 anos estavam no Exército) desmontavam as casas de madeira para minimizar os incêndios quando a cidade fosse bombardeada.

Em Tinian, onde o sol se punha magnífico nas águas azuis do Pacífico, os soldados inteiravam-se da missão. Partiriam em três aviões: o primeiro, apelidado de Straight Flush, examinaria o clima em Hiroshima e daria sinal verde para o ataque. O segundo lançaria a bomba e o terceiro avaliaria e registraria os resultados.

O avião da bomba foi batizado pelo capitão Tibbets com o nome de sua mãe, Enola Gay, provocando a ira de Robert Lewis, que geralmente pilotava aquele B-29, mas que foi apenas co-piloto da missão. "Perguntei a ele que diabos estava fazendo. Era o meu avião e eu é que deveria escolher o nome", diria Lewis ao historiador britânico Gordon Thomas, autor de 'Enola Gay: Mission to Hiroshima' (ou 'Enola Gay: Missão Hiroshima').

Fotografia do Enola Gay estacionado em uma pista de pouso / Crédito: Domínio Público

 

Lewis e Tibbets não se falaram mais até a hora do voo. Às duas da manhã, a bomba de cinco toneladas, apelidada de Little Boy (garotinho), foi colocada no avião. "Com quase sete mil galões de combustível, a bomba e 12 homens a bordo, o bombardeiro estava perigosamente pesado", afirma Malcolm McConnell, autor de 'A Última Missão'.

Um acidente na decolagem, coisa comum, poderia fazê-la explodir ali na base. O jeito era levar a bomba desarmada e montar o dispositivo de disparo a bordo, trabalho que ficou a cargo do capitão Parsons. Às 2h45 do dia 6 de agosto, o Enola Gay decolou de Tinian rumo aos livros de história.

O avião levaria cinco horas e meia para chegar ao destino, mas durante toda a madrugada soaram alarmes antiaéreos em Hiroshima. O ex-fotógrafo Yoshito Matsushige passou a noite revelando as fotos que tirara no dia anterior para o jornal local, o Chigoku Shimbun. De manhã, às 7h30, ele ouviu mais um alarme antiaéreo. "Pela janela, vi o avião americano. Ele me pareceu enorme", diz Matsushige.

Era o Straight Flush verificando o clima na cidade. Se houvesse nuvens e pouca visibilidade, o alvo mudaria para Kokura ou para Nagasaki. Mas a manhã era de sol. "As nuvens cobrem menos de 3/10 em todas as altitudes. Aviso: alvo primário", foi a informação que chegou ao Enola Gay.

Réplica da bomba Little Boy / Crédito: Domínio Público

 

Se permitiu que os aviões americanos avistassem seu alvo, o céu claro sobre Hiroshima também possibilitou que seus habitantes percebessem a aproximação de seus algozes. Perto das oito horas, o médico Masakazu Fujii resolveu ler o jornal no terraço de seu consultório, de onde viu o grupo de meninas retornando ao trabalho do dia anterior.

No avião, o ex-major Thomas Ferebee ajustou os aparelhos e mirou para que a bomba atingisse uma ponte que cortava um dos sete rios da cidade. A jovem Ayako, de 20 anos, que depois se tornaria esposa do ex-militar Takashi, olhava para o relógio do seu: 8h15. Nesse momento a bomba foi lançada, livre do peso, o B-29 deu um salto para cima.

A bomba estava a caminho. Em segundos, um clarão silencioso foi visto na cidade. Do avião, o ex-sargento Bob Caron fotografou o enorme cogumelo. Espantado com o impacto da explosão, o co-piloto Lewis escreveu em seu diário: "Meu Deus, o que fizemos?" Essa é uma das versões mais conhecidas.

Segundo o historiador Gordon Thomas, porém, essa frase veio depois que o coronel Tibbets pediu que ele reescrevesse algo mais educado. A frase verdadeira teria sido algo como "Caramba, que filha-da-puta!".


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