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Há 1 ano, o Museu Nacional era devastado por um incêndio. O que sobreviveu após a tragédia?

Conheça os números e alguns itens recuperados dos escombros e o projeto de reconstituição de impressões de itens em 3D pela instituição

André Nogueira Publicado em 02/09/2019, às 12h00

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- Crédito: Wikimedia Commons

Após um ano do desastroso incêndio no Museu Nacional, resultado de uma política negligente de proteção ao patrimônio público, ainda é difícil estimar o quanto foi perdido para as chamas.

A Direção do Museu, ainda desolada, estima que cerca de 46% da maior coleção pública do Brasil, em catálogo, sobrevive e passa por processos de identificação e conservação, sendo que 35% ainda estava sendo resgatada no mês passado.

Desse número, apenas 19% das coleções do museu não foram atingidas pelo incêndio. A maior parte sobreviveu por estar exposta no Horto Botânico, fora do Palácio da Boa Vista, quando ocorreu a tragédia.

Desde o ocorrido em setembro de 2018, a direção do museu, de Alexandre Kellner, e a reitoria da UFRJ, de Denise Pires, receberam alguns milhões para a recuperação do acervo, remoção dos escombros e reforma do prédio.

Cerâmica brasileira sendo analisada após recuperação / Crédito: Divulgação

 

Atualmente, pesquisadores estão recriando parte do acervo do MN através de impressão 3D em tamanha real. Itens como a Luzia e o Bendegó foram escaneados e sua reprodução é estudada pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT), com uma equipe de pós-graduandos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O projeto já existia desde o incêndio, mas ainda faz parte dos compromissos da UFRJ com a recuperação de um patrimônio inestimável que sofreu com a falta de atenção do Setor Público.

Em ironia positiva do destino, foram encontrados exoesqueletos inteiros desse inseto, chamado esperança / Crédito: Divulgação

 

“Para começar a fazer inventário, o que a gente tem escaneado, o que a gente tem microtipado, foi importante ter acesso a este espaço”, diz Pedro Luiz Von Seehausen, arqueólogo que fazia pesquisas no Museu Nacional desde 2012. Em parceira com a PUC-RJ, a criação do acervo de arquivos-molde para a impressora 3D vem aumentando.

“Quando você chega aqui, você olha as peças já impressas, você dá uma sensação boa, você fica se sentindo, é um consolo”, diz Pedro; “É o que a gente pode mostrar hoje, resgatando essa memória, para mostrar para as futuras gerações. Minha filha, por exemplo, nunca viu. Agora ela pode ver como era o rosto e o crânio da Luzia”, acrescenta Jorge Lopes, pesquisador do INT.

Reconstituição do crânio de Luzia / Crédito: Divulgação

 

Segundo a vice-coordenadora do núcleo de resgate do acervo, Luciana Carvalho, ainda é difícil dimensionar a proporção dos resgates ocorridos no Museu Nacional. No entanto, diversos itens já foram recuperados, como uma indumentária de guerra de um samurai, lâminas de machado da Nova Zelândia, estatuetas egípcias e outros itens. Porém, nesse primeiro ano de buscas, é possível afirmar que sobreviveram muitos mais itens do que se esperava após o incêndio em 2018.

Ushabtis egípcios encontrados / Crédito: Divulgação

 

Isso porque mais itens foram encontrados no decorrer desse ano de esforços da equipe: cerâmicas (incluindo da coleção de Dom Pedro II), minérios, animais taxidermizados, bonecas Karajá e fósseis como o do Maxacalissauro, um dos mais populares entre os jovens que visitavam o museu, e a Luzia, elemento mais famoso do MN.

Alguns dos fragmentos encontrados da Luzia / Crédito: Divulgação

 

Todavia, o fóssil mais antigo das Américas sofreu alterações decorrentes do calor do fogo, tendo sobrevivido 80% da ossada. Da coleção de invertebrados, que se esperava ter sido inteira consumida pelo incêndio, 12 mil pequenos itens sobreviveram.

Um dos patrimônios mais imprtantes prejudicados pelo fogo: o Palácio da Boa Vista, parcialmente destruído / Crédito: Divulgação

 

Um das principais perdas do museu foi o arquivo em papel, que possuía documentos importantes de nossa história política e um acervo da memória do museu: os arquivos foram inteiros queimados. O Museu Nacional está, até hoje, em busca de arquivos que foram replicados em pesquisas anteriores ao incêndio.

Salão onde muitos itens enocntrados são colocados / Crédito: Divulgação

 

A coleção menos afetada, por motivos óbvios, foi a de meteoritos. Seu maior exemplo é o Bendegó, maior pedra espacial encontrada no Brasil, que fica na entrada do Museu e não sofreu grandes alterações, por ser resistente a altas temperaturas.