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A verdadeira posição do islamismo em relação a cruel prática de apedrejamentos

Atualmente, muitos acreditam que todo muçulmano defende a morte mediante os adúlteros por linchamento coletivo, mas a realidade é bem distante dessa visão reducionista

André Nogueira Publicado em 08/03/2020, às 10h00

Imagem meramente ilustrativa de mulheres islâmicas
Imagem meramente ilustrativa de mulheres islâmicas - Getty Images

Atualmente, muitas pessoas associam a prática do apedrejamento coletivo com o mundo árabe e acaba fazendo duas correlações errôneas: a de que todos eles acontecem entre muçulmanos e que todo muçulmano endossa esse tipo de ação.

Nada mais longe da realidade: o islamismo, de maneira semelhante ao cristianismo, defende práticas que fogem da violência e do ódio, todavia, uma parcela ligada ao poder corrompe essa lógica com exclusivismos.

A questão principal sobre o tema é o fato de que muitos desconhecem as leis islâmicas e são enganados pelo preconceito. A pena de morte por apedrejamento para praticantes do adultério público (ou seja, com testemunhas e de conhecimento social) não consta no Corão, e tampouco é destinado apenas para as mulheres.

O estatuto penal historicamente desenvolvido partiu de reflexões políticas que extrapolam a questão religiosa, e foi estabelecida como punição capital cujo responsável deve ser um agente da Justiça, não o povo. Isso evitaria tentativas de vingança, e fomentaria uma suposta limpeza da honra do condenado, não sendo obrigatória a sentença.

Em 2015, um vídeo do Talibã foi usado contra a população muçulmana de muitos lugares do mundo / Crédito: Divulgação/YouTube

 

Uma prova de que essa não é uma pratica inerente ao Islã é o fato de que, dos mais de cinquenta países muçulmanos no mundo, apenas sete ainda possuem essa pena retrógrada. E, na maioria deles, existem lutas no interior da comunidade muçulmana que pedem o fim da prática, que realmente vem perdendo espaço progressivamente. A maioria do clero islâmico mundial repudia o apedrejamento hoje em dia.

A maioria das práticas da pena ocorre entre grupos fundamentalistas ou em governos ditatoriais em práticas clandestinas, e ambos são repudiados por boa parte dos islâmicos. Mesmo em países como o Afeganistão, que é uma República Muçulmana e é atrelado a prática constantemente em vídeos disseminados pela internet, o apedrejamento é um crime passível de pena, segundo a legislação nacional.

Portanto, os que cometem esses atos, muitas vezes, são radicais e criminosos que decidem fazer justiça com as próprias mãos, e crimes hediondos existem em todos os lugares do mundo, em suas formas (no Brasil, por exemplo, o linchamento tem um papel de destaque). Quando o Corão ou a Bíblia legitimam tal prática, é resultado do ímpeto daquele que lê, e culpar a religião isoladamente é um recurso pueril.

Apedrejamento de São Estevão, cena que tmbém é usada de forma genérica / Crédito: Getty Images

 

Talibã, Al-Qaeda, Boko Haram e ISIS são uma minoria no Islã, e sua maioria nasceu do fomento de movimento antigovernamentais e radicais por parte de potências europeias em intervenção no Oriente Médio, África e Ásia. Relacionar diretamente a prática à religião é um reducionismo perigoso e potencialmente ofensivo, que não se atenta a grande parte, fundamentalmente popular e honesta, que forma a comunidade islâmica.


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