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Amazônia Antiga: Uma floresta culturalmente intensa

No período pré-colonial, inúmeras culturas ocupavam a floresta - e não provocavam incêndios inescrupulosos como agora

Reinaldo José Lopes e Joseane Pereira Publicado em 21/08/2019, às 15h00

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No meio da tarde desta segunda feira, São Paulo escureceu às 15h. O fenômeno foi um aviso direto na maior metrópole do Brasil sobre a urgência do desmatamento na Amazônia. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), os incêndios que se alastram pelas matas do Centro Oeste e do Norte são a maior onda de queimadas dos últimos cinco anos - que vem aumentando com a flexibilização das leis, deixando à mercê essa antiga floresta que guarda a lembrança de inúmeras culturas.

Floresta real

O paulista Antônio Pires de Campos era um sujeito esquisito: um bandeirante que sabia escrever, e até bem. Em 1723, ele pôs no papel um relato sobre suas aventuras em Mato Grosso, nas quais chegou até as cabeceiras do Rio Tapajós, incluindo uma passagem deslumbrada sobre a região que apelidara de “Reino dos Pareci”.

“É esta gente em tanta quantidade, que se não podem numerar as suas povoações ou aldeias, muitas vezes em um dia de marcha se lhe passam dez e doze aldeias (...) estes todos vivem de suas lavouras, no que são incansáveis, e as lavouras em que mais se fundam são mandiocas, algum milho e feijão, batatas, muitos ananases, e singulares em admirável ordem plantados (...) muito asseados e perfeitos em tudo que até as suas estradas fazem muito direitas e largas, e as conservam tão limpas e consertadas que se lhe não achará nem uma folha”. É um dos trechos de seu relato.

Urnas funerárias na Amazônia Central escavadas por arqueólogos do Instituto Mamirauá / Créditos: Reprodução

 

Em 27 de março deste ano, arqueólogos do Brasil e do Reino Unido publicaram dados na revista científica Nature Communications, mostrando que não: Pires de Campos não tinha experimentado ervas exóticas da Amazônia quando enxergou esse cenário de organização agrícola em plena floresta. Era tudo real.

Imagens de satélite e escavações permitiram que os pesquisadores identificassem 81 sítios arqueológicos até então desconhecidos no Alto Tapajós (ao norte da região visitada pelo bandeirante). As aldeias dessa região, provavelmente construídas alguns séculos antes do contato com os europeus, abrigavam uma população que ficaria entre 500 mil e 1 milhão de habitantes, calculam eles.

Os povoamentos, que chegavam a ocupar até 20 hectares (cada hectare corresponde à área de um campo de futebol), eram circulares, cercados por valas e diques defensivos, possivelmente completados com muralhas de troncos de madeira. Monumentos feitos com montes artificiais de terra (chamados de mounds, em inglês, pelos arqueólogos) estavam presentes em várias das aldeias, assim como estradas que ligavam um ponto a outro.

As descobertas são importantes, mas não passam de uma pecinha num quebra-cabeça que está ficando cada vez mais coerente, conforme as pesquisas arqueológicas se intensificam na Amazônia.

“O mais importante é que os nossos dados fecham um buraco no mapa”, diz Jonas Gregorio de Souza, pesquisador brasileiro da Universidade de Exeter (Reino Unido), um dos autores do novo estudo.

De fato, superaldeias que mais pareciam cidades foram identificadas na década passada a leste dos novos achados, no Alto Xingu. A oeste, no Acre, já foram achados mais de 500 geoglifos – desenhos geométricos no chão que, ao que tudo indica, são os restos de centenas de centros cerimoniais pré-cabralinos.

Geoglifos são comuns em regiões como Acre e Alto Tapajós. / Créditos: Reprodução

 

Repare que todos os complexos arqueológicos citados até agora ficam na periferia sul da região amazônica. Há achados igualmente intrigantes na calha principal do Rio Amazonas e de seus afluentes, em lugares como a Ilha de Marajó, a região de Santarém (PA) e a Amazônia Central, perto de Manaus e do célebre “encontro das águas” dos rios Negro e Solimões.

Embora a presença de amazonas de verdade  muito provavelmente seja fruto da imaginação hiperativa de frei Gaspar de Carvajal, dominicano espanhol que foi o primeiro cronista europeu a atravessar a região, em 1542, muitos outros dados relatados por ele e outros autores dos primeiros séculos são verdadeiros. Cheia de gente e de monumentos, culturalmente vibrante e economicamente dinâmica: assim era a Amazônia pré-colombiana.