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Angela Davis: abolicionista, anticapitalista, feminista e militante negra

Um dos maiores símbolos da resistência ao segregacionismo, Angela nasceu em um violento local onde supremacistas realizavam atentados contra pessoas pobres

André Nogueira Publicado em 27/02/2020, às 12h00

Angela Davis
Angela Davis - Getty Images

“Nós representamos as poderosas forças de mudança que estão determinadas a impedir que as moribundas culturas do racismo e do patriarcado heterossexual se ergam novamente”. Essa foi a fala de uma das mais famosas filósofas marxistas dos EUA, a militante do movimento feminista negro Angela Davis, durante a Woman’s March de 2017. Participante do Partido Comunista e dos Panteras Negras, essa é uma das mais centrais figuras dos movimentos dos direitos civis nos anos 1970.

Davis faz parte de uma camada social extremamente explorada da sociedade americana, pois é nascida pobre e negra, e ingressou em movimentos relevantes ligados ao abolicionismo, ao comunismo, ao feminismo, à educação básica e à libertação negra. Iniciando sua militância nos fatídicos anos 1960, Angela tem como objetivo, até hoje, um mundo mais justo e igualitário.

Ela, que é atualmente o maior símbolo da luta pela igualdade racial e de gênero, nasceu em Birmingham, Alabama, em 1944. Na época, os EUA ainda eram regidos pelo sistema de segregação racial. O bairro onde ela cresceu era marcado por atentados contra casas de famílias negras e igrejas, realizados com explosivos por parte de fundamentalistas brancos, como os membros da Ku Klux Klan.

Angela Davis era comunista / Crédito: Getty Images

 

Diante dessa experiência rotineira, Angela iniciou, ainda adolescente, um grupo de estudos inter-raciais, que logo foi implodido pela polícia local. Apenas quando passou a estudar filosofia, mudando-se para o estado de Massachussetts, ela pôde iniciar a militância intelectual — pela qual é conhecida. Na Universidade de Brandeis, estudou com Herbert Marcuse, com quem aprimorou seus ideais de esquerda numa época de macarthismo e Guerra Fria.

Porém, o grande momento de conversão de Davis à militância foi a explosão criminosa de uma igreja no bairro onde nasceu, onde quatro amigas de sua infância foram mortas. Esse caso deflagrou completamente para ela as raízes escravistas, coloniais e violentas do país onde nascera, levando-a a radicalizar suas posições. E como uma das principais divulgadoras desses traços horrendos da sociedade estadunidense, Angela Davis passou a ser perseguida por forças políticas reacionárias e defensoras do segregacionismo.

Um dos principais casos de perseguição foi a perda do título de professora da Universidade da Califórnia em 1969, por sua relação com os comunistas. Angela, mesmo que adepta à não-violência, era integrada fortemente à luta pela normalização do estatuto da cidadania das pessoas negras, o que a levou para dentro dos Panteras Negras, grupo radical do marxismo-negro dos EUA, altamente perseguido pela KKK.

Angela se encontrou com Erich Honecker (presidente da Alemanha Oriental) em 1972, ano em que saiu da prisão / Crédito: Wikimedia Commons

 

Angela é, ainda hoje, um dos maiores nomes do abolicionismo penal, corrente que defende a reforma do sistema prisional, acabando com as cadeias e o aprisionamento injusto da juventude negra.

Por essas relações, foi ainda incluída, em 1970, na lista de Mais Procurados do FBI, sendo presa por um processo sem provas e altamente calunioso, em que a acusavam de participar de um atentado ocorrido num tribunal na Califórnia. Ela passou a ser tratada como terrorista pelo governo.

Enquanto ela estava na prisão, muitos núcleos da sociedade civil se mobilizaram nas ruas pela sua liberdade, o que se uniu a uma série de artistas que passaram a se manifestar em seu favor. A ativista só seria inocentada em 1972, fortalecendo ainda mais suas posições abolicionistas e anticapitalistas.

Davis em 2010 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Depois que saiu da prisão, Angela se dedicou ao ensino e à pesquisa de história, gênero e estudos étnicos, participando de grupos em universidades pelo mundo inteiro. Nunca deixando de militar e se posicionar politicamente, ela foi porta-voz de importantes pautas que transcendiam o programa dos Panteras, como a oposição à Guerra do Vietnã, a denúncia da Guerra ao Terror de Bush e a causa LGBT, além das clássicas questões do fim da pena de morte, combate ao racismo e oposição ao sistema carcerário.


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