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Os quatro milênios da Babilônia, a morada dos deuses

A partir da cidade da Babilônia, construiu-se um dos maiores impérios da Antiguidade, com grandes exércitos, aquedutos, estradas e literatura

Cláudia de Castro Lima Publicado em 15/10/2019, às 15h00

O Código de Hammu-rabi
O Código de Hammu-rabi - Museè du Louvre

Em 1987, o então ditador iraquiano Saddam Hussein visitou ruínas de um palácio que pretendia reconstruir, localizadas 80 quilômetros ao sul da capital Bagdá. Lá, perguntou ao arqueólogo Donny George, na época diretor de campo do sítio, como os especialistas sabiam quando o palácio havia sido construído. O cientista mostrou para o governante os tijolos originais. Neles estava estampado um nome, Nabucodonosor II, que se sabia haver vivido por volta de 605 a.C..

Saddam quase não falou naquele encontro. Mas ouviu muito sobre a história do local. E fez duas exigências. A primeira era que a reconstrução do palácio começasse num festival de artes que ocorreria em setembro daquele ano. A segunda, que seu nome estivesse inscrito em todos os tijolos, assim como Nabucodonosor fizera mais de 2 500 anos antes.

Ambas denunciavam a megalomania do ditador. E também o fascínio que a avançada civilização que por lá floresceu exercia não só nele, mas em toda a humanidade. A Babilônia, nome tanto de uma cidade quanto de um império, voltava, assim, a ser o centro das atenções.  

O palácio construído por Saddam Hussein / Crédito: Reprodução

 

Cidades da Mesopotâmia

Essa civilização, que surgiu na planície entre os rios Tigres e Eufrates, não foi a primeira. Antes dos babilônicos, os sumérios já haviam erigido um império na região conhecida como Mesopotâmia. Várias outras civilizações viveram sucessivamente por ali: a assíria, a hitita, a acádica. A história delas começou por volta de 4000 a.C.. "Diferentes grupos populacionais existentes na Mesopotâmia estabeleceram relações entre si.

Eram pastores do deserto, pescadores dos pântanos e agricultores das planícies", diz a historiadora Kátia Paim Pozzer, doutora em História pela Universidade de Sorbonne, em Paris, e professora da Universidade Luterana do Brasil.

"Eles formaram um núcleo de contato com os povos das áreas montanhosas distantes, em busca de matérias-primas inexistentes no sul da região, como pedra, metal e madeira. Iniciou-se, assim, um processo de diferenciação social, em que um grupo conquistou o monopólio sobre a produção de riqueza daquela sociedade."

Foi assim que surgiram os primeiros centros urbanos, como Uruk, que tinham uma instituição principal: o templo. "Os templos exerciam papel religioso, mas também econômico e administrativo", diz Kátia. Para os mesopotâmicos, as cidades eram a morada dos deuses. "Cada divindade do panteão possuía uma residência principal, sua cidade predileta." Babilônia era casa do deus Marduk, que ocupava posto máximo no panteão.

Na região, as várias cidades-estados que surgiram foram marcadas pela pulverização do poder. Disputas sobre a hegemonia política levaram a um êxodo rural. As cidades eram o lugar mais seguro. Fortes foram construídos, muros subiram ao redor delas para evitar invasões. As constantes brigas também exigiram o fortalecimento da autoridade política e militar - e, por isso, surgiram os palácios.

Período paleobabilônico

O primeiro império da Babilônia teve início em uma dessas danças das cadeiras entre as cidades-estados mesopotâmicas. Depois dos sumérios, que foram o povo mais influente na região entre 2900 e 2000 a.C., os amorritas ganharam controle de grande parte da região.

"Eles centralizaram o governo sob cidades-estados individuais e basearam sua capital na cidade da Babilônia", diz o historiador Richard Hooker, professor de Civilizações Antigas da Universidade do Estado de Washington, nos Estados Unidos. A cidade, que até então era bem modesta e submetida a outro povo, ganhou importância.

O grande nome do período paleobabilônico foi o de Hammurabi (1792-1750). Dono de grandes habilidades políticas e militares, ele não só ampliou as fronteiras da Babilônia como também elaborou um código de leis que é até hoje citado como um dos principais da história, escrito em uma estela de diorito negro. A Babilônia ocupava então o que hoje são os territórios do sul do Iraque e da Síria.

Tábua sobre a epopeia / Crédito: Reprodução

 

A justiça e a definição do direito eram tão importantes que estão bem documentados nos milhares de tabletes de argila descobertos nos sítios arqueológicos da Mesopotâmia, embora a maior parte deles seja de caráter contábil-administrativo. Muito da história dos antigos babilônicos, aliás, deve-se ao fato de eles estarem entre os primeiros povos a usar a escrita, chamada de cuneiforme, que era feita com estiletes em argila mole.

A Epopeia de Gilgamesh, uma das formas literárias mais antigas existentes no mundo, foi escrita por volta de 1300 a.C. O texto trata, ao mesmo tempo, de um personagem lendário e histórico. Gilgamesh foi o rei de Uruk no século 28 a.C. e a epopeia conta suas aventuras na busca da eternidade.

"Nele são evidenciados os princípios éticos e morais daquela sociedade e a dor e a solidão dos homens diante do sofrimento e da morte", afirma Kátia Pozzer. Os babilônicos não acreditavam em vida após a morte. Era preciso aproveitar o mundo aqui.

Os banquetes eram fartos e os convidados, extremamente bem recebidos. "Havia uma conduta apropriada para a recepção de um convidado, segundo os hábitos da época: troca de apresentações e de palavras amistosas, oferecimento de vestimentas limpas e novas, unção do corpo com óleos perfumados e, claro, bebida e comida em abundância.

No decorrer do banquete era realizado um brinde que anunciava uma espécie de duelo, que poderia ser uma disputa de oratória ou um enfrentamento armado, cujo encerramento era, em princípio, pacífico", afirma Kátia.

Depois da comida, mais diversão. Lutadores se enfrentavam, saltimbancos faziam piruetas e músicos tocavam. "Ocasionalmente, eles mantinham relações sexuais enquanto tocavam seus instrumentos", diz Kátia.

Zigurates

Outra marca do reinado de Nabucodonosor II foram os vários zigurates que ele mandou erigir. Zigurate é uma espécie de templo em forma de pirâmide com vários andares. O mais famoso de todos é um da época do rei, o Etemenanki, que serviu de inspiração para a Torre de Babel bíblica. A estrutura original havia sido construída por Hammurabi, mas foi restaurada por Nabucodonosor.

Se, para os babilônicos, a cidade era o lugar onde moravam os deuses, os zigurates eram a residência deles. Os deuses babilônicos, por sinal, foram criados à imagem e semelhança dos homens. "Eles tinham a mesma aparência, qualidades e defeitos, eram movidos a paixão e ódio como os humanos", diz Kátia Pozzer. "Toda a vida na Terra era comandada pela vontade dos residentes dos céus e dos infernos." Ishtar foi a mais célebre das deusas da Mesopotâmia.

Ilustração mostra os Jardins Suspensos da Babilônia / Crédito: Reprodução

 

Para ela, o rei construiu a porta de Ishtar, famoso portão ricamente adornado com tijolos azuis e baixos-relevos de figuras de animais e da deusa. Marduk era o padroeiro da Babilônia - a ponto de a Torre de Babel ter sido dedicada a ele.

Para ela, o rei construiu a porta de Ishtar, famoso portão ricamente adornado com tijolos azuis e baixos-relevos de figuras de animais e da deusa. Marduk era o padroeiro da Babilônia - a ponto de a Torre de Babel ter sido dedicada a ele.

A privilegiada posição da capital do império também a transformou num importante centro comercial, base de uma rota que cortava a Mesopotâmia toda e seguia até o Egito. "Embora cada cidade tivesse um dialeto levemente diferente, os moradores podiam entender facilmente uns aos outros", diz o linguista Guy Deutscher, professor do Departamento de Culturas Mesopotâmicas Antigas da Universidade de Leiden, na Holanda.

O começo do fim

A morte de Nabucodonosor em 562 a.C. desencadeou um processo de declínio de um império que jamais voltaria a se reerguer. Seu filho e sucessor Amel-Marduk reinou por apenas dois anos antes de ser assassinado por seu cunhado Neriglissar, que por sua vez morreu três anos mais tarde, e seu filho Labashi-Marduk, que era provavelmente apenas uma criança, só foi aceito como rei por algumas das cidades da Babilônia. Resultado: acabou morto em pouco mais de um mês em uma conspiração por parte da nobreza do império.

Um herói de guerra, sem sangue nobre, exigiu para si o trono. Era Nabonido, um sujeito com um filho já crescido, Bel-shar-usur (citado na Bíblia como Baltazar). Embora não tenha sido aceito logo de cara por algumas cidades do império, ele se mostrou um ótimo articulador político: tratou de mandar a filha para ser sacerdotisa do deus da lua Sin na cidade de Ur e reconstruiu um importante templo em Harran, na Síria.

Nabonido resolveu estreitar ligações com os árabes e mudou-se para o norte da península Arábica por dez anos. Deixou seu filho Bel-shar-usur como governante na Babilônia.

Na mesma época, os persas emergiam na região. Exércitos das duas potências enfrentaram-se em vários locais até que Ciro, o rei persa, conquistou a capital e capturou o rei Nabonido. Ciro libertou os descendentes dos antigos hebreus expulsos de Jerusalém por Nabucodonosor e declarou seu próprio filho, Cambisses, como rei da Babilônia.

"Porém, depois de um ano o negócio foi desfeito e os territórios da Babilônia viraram uma vasta província sob o governo persa", escreveu Paul Collins. "O centro do mundo oriental transferiu-se para Susa, a capital persa", afirma Hooker.

Por volta de 332 a.C., Alexandre, o Grande queria a Pérsia, governada pelo rei Dario. Quando Alexandre chegou à Babilônia, foi recebido como um herói - os habitantes da região não aguentavam mais as humilhações sofridas durante o domínio persa, que incluiu a destruição dos símbolos sagrados. Foi na Babilônia que Alexandre morreu, acredita-se que de virose. E com o tempo o próprio império teria o mesmo destino.


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1. Sociedades do Antigo Oriente Próximo, Ciro Flamarion Cardoso, 1995

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