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O lado B de Gandhi: Misoginia e racismo

O maior indiano de todos os tempos também influenciou negativamente a Índia Moderna, com sua retórica racista e misógina, apoio ao sistema de castas e veneração da pobreza

Redação Publicado em 08/09/2019, às 04h00

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- Reprodução

Depois de jantar leite de cabra, legumes cozidos e três laranjas, foi até o jardim de sua casa, como fazia todos os dias, para a oração da noite. Saiu do pequeno quarto onde vivia com apenas um colchão e uma almofada, uma pequena mesa, uma roda para tecer na qual trabalhava todos os dias, um relógio antigo, uma colher e uma tigela, e subiu as escadas.

Era 30 de janeiro de 1948, quatro dias depois do primeiro aniversário da independência da Índia do Império Britânico. O assassínio de Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma, a grande alma, gerou uma enorme comoção em todo o mundo. No ponto exato onde Gandhi foi morto ergueu-se um obelisco e, todos os anos, no dia 30 de janeiro é relembrado esse trágico episódio.

Ao longo do caminho, sempre havia uma pequena multidão esperando sua bênção. Cumprimentou todos com as mãos juntas, sinal hindu para reconhecer a presença do divino nos seres humanos. Sabia que sua vida estava em perigo: alguns dias antes uma bomba tinha sido atirada contra sua casa. Mas recusou qualquer proteção: “Se eu tiver que morrer, o farei com o sorriso nos lábios, sem raiva. Deus terá que estar no meu coração e nos meus lábios”, dizia.

Então aconteceu. Nathuram Godse, um hindu extremista, atravessou a multidão, chegou até o pequeno homem de 89 anos e disparou três tiros em rápida sucessão. Gandhi caiu no chão murmurando “Ram, Ram” – “Deus, Deus”.

Um homem santo

Setenta anos depois, Gandhi continua sendo um ponto de referência fundamental para os indianos, que o consideram como o Pai da Nação e o veneram como um santo. Ele é lembrado por ter conquistado a independência da Índia através da satiagraha, a filosofia da luta não violenta, com a qual derrotou as forças do mais poderoso império do mundo e obteve a liberdade para seu povo.

Fora da Índia, ele é celebrado como “o porta-voz da consciência de toda a humanidade”. Segundo Albert Einstein: “As gerações que virão não acreditarão que um homem como este, em carne e osso, caminhou sobre essa terra”. Nas décadas seguintes ao seu assassinato, a imagem de Gandhi foi depurada dos aspectos controversos para que ele se tornasse o maior símbolo indiano. Os políticos que vieram depois dele tinham todo o interesse em desfrutar sua imagem para unificar o país.

Jovem Gandhi / Crédito: Reprodução

 

 

Todavia, essa visão pura e glorificada de Gandhi é cada vez mais contestada por historiadores e acadêmicos, que salientam como o Mahatma também era um ser humano e, portanto, como todos nós, tinha seus defeitos e cometia seus pecados. Muitos dos quais influenciaram os desdobramentos da Índia moderna. Entre eles, sua retórica racista, misógina, favorável ao sistema de castas e a veneração da pobreza, que teve consequências nefastas na evolução da economia indiana.

Em prol das castas

Essa revisão histórica da personagem de Gandhi é muito polêmica. Tanto que AH tentou conversar com muitos professores e historiadores indianos especializados em Gandhi, mas pouquíssimos aceitaram falar sobre os aspectos negativos de quem consideram o maior indiano de todos os tempos. Mas nem todos. Segundo a escritora e ativista indiana Arundhati Roy, “a doutrina da não violência de Gandhi camuflou a ideia da aceitação de uma das formas mais brutais de hierarquia social: a casta”.

Em um texto de 1935, The Ideal Banghi, Gandhi escreveu que “a tarefa de um brâmane é lidar com a limpeza da alma, enquanto os intocáveis deveriam se ocupar dos corpos da sociedade”. Ou seja, limpar excrementos e cuidar de cadáveres. “O maior equívoco que existe é que Gandhi lutou contra o sistema de castas. Isso não é verdade. Ele sempre disse que era o ponto mais genial de toda a civilização hindu”, afirma Roy.

De fato, ainda hoje grande parte da Índia continua perpetuando essa arcaica classificação social, na qual os membros das castas mais altas gozam de todas as vantagens, enquanto os últimos, chamados de intocáveis, os dalit, podem perecer nas ruas porque uma visão conservadora da doutrina hindu prevê que ninguém cuide deles – pois não se pode tocá-los.

A defesa de Gandhi no que se refere às castas não é um ponto fechado. O professor Ramachandra Guha, historiador e autor do livro India After Gandhi (A Índia Depois de
Ghandi, sem tradução), diz que “a filosofia social de Gandhi era focada em abolir as castas. É claro que sob alguns aspectos ele ainda era filho do seu tempo, tendo nascido na Índia do século 19. Também tinha que enfrentar uma sociedade onde as castas eram muito enraizadas. Mas a superação das castas está ocorrendo aos poucos também graças à sua mensagem de igualdade. Essa crítica feita nos dias de hoje tem um viés ideológico distorcido e pouco científico”.

Crédito: Reprodução

 

Um degrau acima

Mas as críticas à filosofia do Mahatma não se limitam à questão dos intocáveis. Segundo várias fontes, Gandhi era racista. Em um episódio que se tornou famoso graças ao filme Gandhi, de Richard Attenborough, durante sua permanência como advogado na África do Sul, entre 1893 e 1914, Gandhi foi forçado a descer de um trem por causa de um inglês que não queria viajar junto com um homem de cor no mesmo vagão da primeira classe.

Esse parece ter sido seu primeiro encontro com a arrogância colonial, de acordo com sua autobiografia. E foi devido a esse episódio que ele decidiu “erradicar a doença do preconceito racial”. Foi nessa época que surgiu sua imagem de líder indiano, em defesa dos direitos da minoria indiana na África do Sul. E somente ela.

Ele defendia que indianos estavam no mesmo degrau dos brancos – mas os negros, um abaixo. Naquela época ele chegou a declarar que “os negros sul-africanos mal eram seres humanos”, e os chamava de kaffir – do árabe para infiel, como os árabes chamavam os negros que escravizavam.

Depois de ser preso em 1908, se queixou que os indianos eram encarcerados junto com os prisioneiros negros, e não com os brancos. No livro The South African Gandhi (O Gandhi Sul-Africano, sem tradução), de autoria de dois professores universitários sul-africanos de origem indiana, Ashwin Desai e Goolam H. Vahed, foram reunidas frases pronunciadas por Gandhi em que os negros são chamados de “selvagens, primitivos e dedicados a uma vida preguiçosa e nua”.

Nessa época, ele admirava abertamente o Império Britânico e não era tão adepto à doutrina da não violência. Na Guerra dos Bôeres (1899-1902) Gandhi se alistou voluntariamente junto aos britânicos. “Aqueles que conseguem cuidar de si próprios no front de batalha vivem em saúde e felicidade”, escreveu na época. Em 1906, novamente lutou ao lado dos ingleses durante a repressão aos nativos zulus.

Patriarca puritano

Nesse mesmo período, Gandhi teria começado a mostrar uma forte misoginia. Certa vez, duas seguidoras suas foram molestadas na sua frente. Em resposta, Gandhi as forçou a cortar os cabelos para evitar que atraíssem novamente a atenção de homens. Gandhi acreditava que as mulheres perdiam a humanidade quando eram estupradas.

Era convencido de que os homens não podiam controlar seus impulsos mais baixos, mas que as responsáveis por esses impulsos eram as mulheres, que, por sua vez, eram completamente subjugadas de seus próprios desejos. Para o Mahatma, a menstruação era “a manifestação da sujeição da alma feminina à sua sexualidade”.

Gandhi e Kasturba / Crédito: Reprodução

 

Gandhi abordou diretamente a questão da libido decidindo votar castidade (sem antes
consultar sua esposa, Kasturba) e dizia que a falta de controle de impulsos carnais levava a problemas físicos, incluindo a constipação. Ele acreditava que o sexo era ruim para a saúde de um indivíduo e que a liberdade sexual levaria os indianos ao fracasso como povo. Gandhi também travou uma guerra contra os contraceptivos, que considerava um sinal de promiscuidade, rotulando as mulheres indianas que os usavam de prostitutas.

Impôs a uma nação inteira o que Martinho Lutero tinha chamado no século 16 de inferno do celibato. Mas ele também usava mulheres – incluindo menores de idade, como sua neta – para testar seu autocontrole sexual. Dormindo nu ao lado delas, também nuas, para demonstrar que não sentia qualquer excitação.

Kasturba também se tornou a vítima mais frequente de sua misoginia. “Eu não suporto
olhar o rosto dela. Sua expressão é parecida com a de uma vaca dócil, e, como muitas vezes acontece com as vacas, me dá a sensação de que, de alguma forma estúpida, está tentando me dizer alguma coisa”, declarou Gandhi certa vez.

Essa frase é hoje considerada pelos defensores do Mahatma como mal interpretada, pois, no hinduísmo, as vacas são sagradas, portanto comparar sua esposa com um bovino significava cumprimentá-la. Mas, quando Kasturba adoeceu por uma pneumonia, Gandhi negou-lhe a penicilina, apesar das indicações claras dos médicos.

Ele insistiu que o novo medicamento era uma substância “alienígena” para o corpo da esposa. Kasturba acabou morrendo em 1944. Menos de um ano depois, Gandhi tomou quinina para se curar da malária. E sobreviveu. Naquele caso, o remédio não tinha nada de alienígena.

As consequências para a Índia

Quando Gandhi mudou-se para a Índia, cessaram as declarações racistas. Sua posição antissexo permaneceu a mesma – inclusive os rituais esquisitíssimos nos quais dormia nu com jovenzinhas. Gandhi contribuiu para que a Índia permanecesse uma das nações mais sexualmente reprimidas na Terra e, em geral, um lugar terrível para nascer mulher, no qual filmes podem mostrar moças com camisetas brancas molhadas, mas um beijo entre um casal é um tabu insuperável – e também um dos países do mundo onde ocorre o maior número de estupros.

Essa é a opinião do escritor indiano Khushwant Singh, que diz que “nove décimos da violência e da infelicidade no país derivam da repressão sexual”. Naturalmente, a expressão não se limitava a heterossexuais. Na década de 1930, Gandhi e Jawaharlal Nehru, seu discípulo e futuro primeiro primeiro-ministro da Índia, levaram adiante campanhas para a remoção de todos os vestígios de tradição homoerótica dos templos hindus como parte de uma iniciativa de limpeza sexual.

Economista primitivo

Outro ponto polêmico de Gandhi é seu legado na Constituição e na economia da Índia moderna. “Ele acreditava em um sistema rural baseado em pequenas propriedades agrícolas autossustentáveis, nos moldes daquela onde tinha vivido na África do Sul, perto de Durban, chamada Fazenda Phoenix”, explica o professor Guha. Esse foi o modelo que depois replicou na Índia com os chamados ashram.

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Foi aqui que Gandhi estabeleceu os princípios de sua vida ideal: vegetarianismo, exaltação da frugalidade, cuidados ingênuos contra as doenças, educação dos filhos em casa, extrema tolerância em todos os aspectos da vida. Por exemplo, para ele uma refeição completa era considerada “um crime contra Deus e contra os homens”.

A outra comuna agrícola de Gandhi foi a Fazenda Tolstoy, feita com o arquiteto judeu alemão Hermann Kallenbach. Quando moraram juntos – na mesma época em que Gandhi se declarou celibatário – o Mahatma parecia mais feliz do que nunca, curtindo com o amigo piqueniques e passeios de bicicleta. Segundo o jornalista e escritor Joseph Lelyveld, vencedor do Prêmio Pulitzer e ex-correspondente da Índia pelo The New York Times, era mais que amizade.

Seu livro Great Soul foi proibido na província de Gujarat, onde Gandhi nasceu. Outro legado discutível de Gandhi foi sua veneração da pobreza. Ou melhor, a “pobreza voluntária” (aparigraha). Para Gandhi, é possível alcançar justiça e igualdade na sociedade se renunciar voluntariamente ao que não é indispensável.

“A civilização, no sentido real do termo, não consiste na multiplicação, mas na redução deliberada e voluntária das necessidades. Somente isso leva à verdadeira felicidade e contentamento, e aumenta a capacidade de serviço”, escreveu Gandhi em uma de suas cartas de 29 de agosto de 1930. Ele acreditava em um tipo de socialismo em que os recursos seriam distribuídos naturalmente se as classes mais ricas renunciassem a consumir ou possuir bens.

O que deixaria mais disponibilidade para as classes mais pobres. Gandhi era também um fervoroso apoiador de uma economia fechada – como meio de “libertação” da importação de tecidos produzidos na Grã-Bretanha – e baseada no pequeno artesanato.

Ele passava horas por dia fiando em sua pequena roda, que se tornou um símbolo  popular e até parte da bandeira da Índia independente. Ainda hoje, as especificações legais sobre a bandeira oficial exigem que ela seja confeccionada com um tipo especial de pano artesanal como o feito por Gandhi.

“Deus proibiu que a Índia tenha uma industrialização como a do Ocidente”, disse certa vez. Essa utopia primitivista, baseada em pobreza voluntária, fechamento ao comércio e métodos ancestrais de produção, era a chamada economia gandhiana. Isso gerou um fervor que desencadeou rebeliões violentas, e multidões irritadas começaram a destruir qualquer produto importado.

O patriota indiano, poeta e prêmio Nobel Rabindranath Tagore definiu essa campanha como equivocada e destinada à falência. Mas os políticos que seguiram Gandhi não tiveram a coragem de contrariar os ensinos do Mahatma, que foram eternizados nas leis. A roca acabou abandonada pelos salões do telemarketing, mas a Índia continua a ser pobre e com uma economia fechada e improdutiva, com sérios problemas estruturais.

“Meu querido amigo”

Gandhi também manteve relações políticas com a Alemanha nazista e com a Itália fascista. Ele chegou a escrever cartas para Adolf Hitler começando com “Meu querido
amigo Adolf” (e dizer a seguir que não tinha inimigos). Em 1931, se encontrou com Benito Mussolini em Roma, onde expressou a sua admiração pelo ditador italiano e foi convidado de honra no desfile da Juventude Fascista.

Isso tudo não era somente em função antibritânica, como forma de pressão para obter a independência da Índia. Gandhi também louvava as reformas políticas e econômicas levadas adiante por Mussolini e Hitler. “Certamente o encontro com Mussolini e a relação com Hitler foram erros, mas, como todos os políticos, Gandhi também cometeu erros”, diz o professor Guha.

A História, como Arundhati Roy afirma, foi incrivelmente benevolente com Gandhi, considerando seus preconceitos como meras imperfeições. Os lados escuros de Gandhi parecem persistir na sociedade indiana de hoje – o colorismo, o culto à brancura das castas superiores, as castas, o desprezo comum pelo corpo feminino, o desinteresse com as condições dos dalit, a mentalidade antieconômica, o apego excessivo às tradições.

Mas, afinal, vale falar do homem quando alguém é um ícone, um mito? Um símbolo que inspirou gerações na luta por direitos? Muito foi escrito sobre esse mito. Mas isto foi a respeito do homem. Como escreveu George Orwell, em seu ensaio de 1949 Reflexões sobre Gandhi, “os santos sempre devem ser julgados culpados até serem provados inocentes”.