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Batiscafo Trieste: Jornada ao fundo do abismo

Há 59 anos, o ser humano visitava pela única vez o ponto mais profundo do planeta

Fábio Marton Publicado em 23/01/2019, às 10h00

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Na madrugada de 23 de janeiro de 1960, um navio militar chamado USS Wandank, que havia operado na II Guerra Mundial, atirava cargas de TNT sobre o Oceano Pacífico. O navio havia saído na noite anterior da base americana na ilha de Guam, a 289 km dali, e tentava achar o ponto mais fundo do planeta, calculando quanto tempo levava entre a explosão e a chegada do som. Pouco antes do amanhecer, marcaram m local com cargas de profundidade luminosas.

Às 8h10, o navio libera sua carga. Não era uma bomba, mas o batiscafo Trieste, submarino especial para grandes profundidades, e dentro vão os oceanógrafos Jacques Piccard e Don Walsh. Jacques é filho de Auguste Piccard, o inventor do aparelho, feito em 1953 na Itália e vendido à marinha americana em 1958.

Após verificarem os sistemas, às 8h15 começam a descida. Às 9h20 da manhã, o submarino atinge 1000 metros de profundidade, e a escuridão é quase total. Às 11h30, a 8200 metros, liberam um pouco do lastro para diminuir a velocidade de descida e evitar que o aparelho se choque com o fundo.

Ao meio-dia, perdem o contato com a superfície. Cinco minutos depois, a 9800 metros, uma explosão ensurdecedora chacoalha todo o batiscafo. Uma proteção plástica externa havia sido rachada pela pressão, mas a janela interna não havia sido afetada. Apesar do pavor, os cientistas decidem prosseguir. Às 12h56 o aparelho bate no fundo, levantando uma nuvem de poeira. O aparelho liga os motores e as luzes e começa a vasculhar. A conexão com a superfície é restabelecida.

Às 13h06, para sua imensa surpresa, descobrem um linguado nadando no fundo, sobrevivendo a 8 quilômetros da luz solar e uma pressão mil vezes maior que a da superfície. Mais tarde também encontram um camarão vivo. Às 13h26, liberam os lastros e começam a subida de 4 horas de volta.

O Trieste foi aposentado em 1963 e sua façanha nunca foi repetida. Os batiscafos foram substituídos em grande parte por sondas robóticas. Como ninguém pode sair de um submarino nessas profundidades, a vantagem de um tripulado para um robótico é pequena. Em 1998, o robô japonês keiko explorou de volta a Challenger Deep, e ano passado o americano Nereus também foi lá, confirmando ambos a presença de vida.

O oceanógrafo Afrânio Rubens de Mesquita, da USP, comenta os resultados: "além da revolução tecnológica, ninguém imaginava que haveria vida ambientes tão extremos, sem luz solar e fotossíntese. Se os cientistas hoje estão menos céticos em relação à vida alienígena, isso se deve a exploração marinha".

Num sentido mais prático, o batiscafo e seus sucessores robóticos possibilitaram a exploração do petróleo em grandes profundidades, inclusive na costa brasileira. Para bem e para mal: após o vazamento catastrófico de petróleo da base da British Petroleum no Golfo do México, em junho passado um robô que tentava averiguar a situação trombou no tampão provisório e piorou o vazamento.

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Pelas profundezas

Para afundar, o batiscafo usava o não muito ecologicamente correto método de soltar a gasolina na água. Como a gasolina tende naturalmente a subir, bastava abrir a saída de gasolina e a água começava a tomar o lugar dela. O peso dos lastros e da cabine então fazia com que o aparelho descesse lentamente.

Nove toneladas de bolinhas de ferro eram mantidas presas por eletroímãs, e elas eram liberadas no fundo do mar para subir. Isso é um sistema a prova de falhas: caso faltasse energia, seriam liberadas automaticamente. Lastros adicionais de água eram liberados em profundidades menores, como num submarino comum.

A cabine era esférica para distribuir de forma igual a pressão da água e resistir melhor. As paredes tinham 12 centímetros de espessura, e a janela era feita de paineis de acrílico num perfil cônico, com abertura interna bem menor que a externa. O espaço interno era de apenas 2,16 metros de diâmetro, e a temperatura no fundo era bem fria, 7 graus.

As lâmpadas eram de tipo arco voltaico, que não tem precisam de uma camada de vidro que não suportaria a pressão, mas produzem muito calor. Os cientistas tinham de ligar e desligar elas por breves períodos, porque a água começava a ferver quando ficavam muito tempo ativas.