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Beethoven: tragédia e êxtase

O mestre romântico refletiu em sua música uma era tempestuosa; conheça sua vida

segunda 29 outubro, 2018
O artista
O artista Foto:Wikimedia Commons

Gênio irascível; contemporâneo do Iluminismo alemão (Aufklärung) e da explosão da Tempestade e Ímpeto (Sturm und Drang), o nascimento do romantismo; entusiasta de Napoleão; vítima de uma surdez progressiva que se manifestou no auge da fama; inovador na criação de obras que desafiaram as limitações dos instrumentos musicais existentes e influenciaram o desenvolvimento de instrumentos novos. Beethoven encarna o nascimento da sensibilidade moderna na música.

Raízes

Quando Beethoven nasceu, não se podia falar ainda em nação alemã. O que havia eram centenas de pequenos reinos, principados, ducados e cidades livres que formavam o Sacro Império Romano-Germânico, cuja origem remonta a Carlos Magno no século 9. O imperador era eleito por um grupo de príncipes (que tinham considerável autonomia administrativa em seus respectivos territórios).

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Um deles era Clemens August, príncipe arcebispo do Eleitorado de Colônia. Patrono das artes, Clemens estabeleceu sua residência oficial em Bonn e esteve determinado a fazer dela uma cidade gloriosa. Em 1733, ele nomeou como cantor oficial da capela da corte um hábil tocador de instrumentos de tecla de apenas 21 anos, o primeiro Ludwig van Beethoven, avô do célebre compositor.

Beethoven, ainda criança Wikimedia Commons

O avô de Beethoven nasceu no ducado em Brabant, em Flandres. Ali, o nome de família aparecia em grafias variadas – Betho, Bethove, Bethof, Bethenhove, Bethoven... Sua origem é obscura. O maestro e escritor Jan Swafford, autor de Beethoven: Angústia e Triunfo, tem alguns palpites. Talvez esteja ligada a uma região próxima à cidade de Tongeren, conhecida como Betho.

Diferentemente do “von” alemão – que traz implícito a expressão “da casa de”, sinal de nobreza –, o “van” flamengo significa “de”, indicando apenas o lugar de procedência de alguém. Em flamengo, beet significa “beterraba” e hof, “jardim”, de modo que o nome talvez faça alusão a um clã de agricultores. Em todo caso, os Beethovens estavam longe de serem nobres, embora o “van” tenha sido responsável por alguns mal-entendidos nas décadas posteriores.

Apenas um dos três filhos do Ludwig avô alcançou a idade adulta: Johann van Beethoven. Desde cedo, Ludwig, o velho, o ensinou a tocar e a cantar. Porém, Johann não fez grandes avanços. Após a morte do pai, ele perdeu as esperanças de se tornar um homem importante na corte, dilapidou em pouco tempo a herança considerável que recebeu e resignou se em ser um professor de música e cantor do coro.

Suas ambições só foram renovadas quando reconheceu no filho, Ludwig van Beethoven, o talento que não tinha. Iniciação A iniciação musical de Ludwig neto, o futuro gênio da música clássica, começou aos 4 anos de idade. O método de ensino de Johann incluía gritos, ameaças e castigos físicos.

Iniciação

A iniciação musical de Ludwig neto, o futuro gênio da música clássica, começou aos 4 anos de idade. O método de ensino de Johann incluía gritos, ameaças e castigos físicos. Vizinhos de porta dos Beethovens relatam ter visto diversas vezes o menino de pé sobre um banco baixo demais para permitir que ele alcançasse as teclas, tocando aos prantos enquanto o pai rigoroso acompanhava o estudo. (Beethoven herdou o temperamento colérico do pai, e também costumava bater em seus alunos.) Johann parecia ter como objetivo claro fazer o filho se tornar “empregável” como músico da corte tão cedo quanto possível.

Assim que o menino aprendeu as notas do cravo (um predecessor do piano), Johann passou a ensiná-lo a tocar violino e viola clássica, a fim de que ele pudesse tocar na orquestra da corte. Johann via com maus olhos o interesse do filho em tocar criações próprias, em vez de apenas praticar a esmo obras dos mestres, o que o cliente queria ouvir. Inevitavelmente, Ludwig continuou criando, mas em segredo, como algo particular e proibido.

Quase um pecado. Eventualmente, o pai percebeu que o dom do filho era maior do que imaginava. E criou planos ainda mais ambiciosos. Ele se deu conta de que Ludwig estava na mesma categoria do fenômeno musical mais famoso em décadas, uma criança de talento prodigioso chamada Wolfgang Amadeus Mozart.

Mozart e a irmã tinham uma história paralela: haviam sido treinados desde cedo pelo pai violonista, Leopold. Aos 5, o menino já compunha; aos 6, ele, o pai e a irmã fizeram a primeira turnê pela Europa. Em 1770, ano em que Ludwig nasceu, Mozart, com 14 anos, estava no meio de outra turnê pelas principais capitais. Johann Beethoven provavelmente assitiu a um concerto.

Vislumbrando a mesma carreira para Ludwig, Johann tornou-se um astuto promotor do filho. Em 1778, ele alugou um salão em Colônia para promover uma apresentação. O anúncio no jornal dizia: “Hoje, 26 de março de 1778, no salão de concertos musicais da Sternengass, o tenor da Corte Eleitoral, BEETHOVEN, terá a honra de apresentar dois de seus
alunos: a saber, Mademoiselle Averdonc, contralto da corte, e seu filho de 6 anos”. Ludwig na verdade tinha 7; Johann apresentou-o como um ano mais novo para aumentar a fama de menino-prodígio (e lançar uma isca ao público que antes se encantara com Mozart). A falta de relatos sobre a apresentação sugere que a empreitadanão foi um sucesso estrondoso. Além disso, Johann Beethoven não era nenhum Leopold Mozart.

Outros mestres

Até meados de 1778, Johann tinha sido o primeiro e único mestre de Ludwig. Por iniciativa do pai, o jovem Beethoven passou a estudar com outros profissionais do meio musical, dando início a uma sequência de mestres que incluiria Haydn e Johann Albrechtsberger. Ávido por aprender, Beethoven procurou tirar o melhor de cada mestre a fim de suprir suas próprias deficiências.

Com o velho flamengo Gilles van den Eeden, organista da corte, Beethoven recebeu as primeiras noções de baixo contínuo, obtendo uma base de prática harmônica. O domínio da harmonia era algo fundamental tanto para compor como para improvisar. Quando Van den Eeden ficou enfermo, Beethoven passou a estudar sob a tutela do excêntrico Tobias. 

Friedrich Pfeifer, ator, pianista, oboísta e flautista. Ludwig também começou a estudar música de câmara com o violinista da corte, Franz Georg Rovantini, um homem recatado e religioso, em tudo oposto a Pfeifer. Com o frei franciscano Willibald Koch, passou a praticar o órgão. Logo, estava tocando o instrumento nas missas das seis da manhã na Igreja Menonita. Um dos freis da ordem, impressionado com o desempenho do jovem, passou a acompanhar todas as suas apresentações caseiras.

Não acostumado a fãs ou a como eles lhe poderiam ser úteis, Ludwig ficava apenas irritado com o assédio. Ainda mais de padres: as reformas educacionais progressistas do novo príncipe eleitor Max Friedrich, que extinguiram o domínio dos jesuítas no ensino e o fizeram mais secular e iluminista, haviam tornado o anticlericalismo a ideia do momento.

Em 1780, Ludwig chegara aos 10 anos e, em paralelo ao estudo tradicional da música, vinha aprendendo a compor por conta própria. Ele tinha uma compreensão instintiva do ofício. “Nunca precisei aprender a evitar os erros”, ele escreveria mais tarde. Ainda assim, seu aprendizado com Christian Neefe foi um momento crucial para o desenvolvimento de suas habilidades. Nativo de Chemnitz, na Saxônia, Neefe possuía uma formação intelectual mais sólida, conquistada no ambiente cosmopolita de Leipzig, e estava mais bem informado sobre os diferentes movimentos que agitavam a Europa na época.

Foi central para a influência de Neefe sobre Beethoven o conhecimento do professor sobre a obra de dois gigantes da composição, J.S. Bach e seu filho Carl Philipp Emanuel Bach. O tratado que ele escreveu, Ensaio sobre a Verdadeira Arte de Tocar os Instrumentos de Teclado, em que declarou que emocionar era o principal objetivo da música e, para isso, era preciso tocar com o coração e a alma, era considerado um manifesto da sensibilidade romântica.

Por meio desse professor pouco lembrado, essas paixões marcaram profundamente Beethoven. Ao mesmo tempo, Neefe promovia a nova literatura: lia Goethe, Schiller e os poetas e dramaturgos do Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto, o início do romantismo alemão). O interesse de Neefe pela maçonaria e pelos Illuminati também causou forte impressão no aluno. Genuíno seguidor da Aufklärung, Neefe colocou Beethoven em contato com tudo o que surgia de novo na Europa. As reservas em relação à Igreja e ao Estado, bem como a forte crença no poder do indivíduo, seriam constantes por toda a vida de Beethoven.

Revoluções

Não era pouca coisa estar a par de seu tempo num período tão repleto de mudanças dramáticas. Os anos 1780 testemunharam o auge do Iluminismo. Essa atmosfera teve seu clímax no fim da década com a Revolução Francesa e os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. O ano de 1781 marcou a estreia do catártico drama Os Bandoleiros, de Schiller, que encarnava o espírito turbulento do Sturm und Drang. Kant publicou Crítica da Razão Pura. Haydn publicou seus Quartetos Russos. Mozart estreou sua melhor ópera trágica, Idomeneo.

A música do século 18, patrocinada nas cortes aristocráticas, começou a dar lugar a expressões da burguesia urbana em ascensão, com suas próprias concepções de bom, belo e sublime. A década seguinte colocaria as dinastias europeias em estado de alerta. A decapitação de Luís XVI e Maria Antonieta em 1793 provocou uma onda de reacionarismo na aristocracia europeia. No mesmo ano, o imperador Francisco II baniu a maçonaria e transformou a Áustria em um estado policial violentamente repressivo. A Europa estava prestes a tomar um “novo caminho”, e a música de Beethoven estava prestes a se tornar sua guia.

Talvez a mais famosa ode “política” de Beethoven tenha sido sua Terceira Sinfonia, composta em 1803 e publicada em 1806. Com ela o compositor chegou à maturidade, unindo o espírito da Aufklärung (iluminismo) à sua música. O “Herói” invocado na peça não surge da aristocracia, mas cria a si mesmo a partir de sua origem no povo, tornando-se assim um paradigma de todo o potencial humano. É o que pode ser dito a respeito do próprio Beethoven, mas tratava-se de uma metáfora escancarada para Napoleão Bonaparte, o oficial corso que coroou a si mesmo imperador francês em 1804.

A página de rosto da sinfonia proclamava: “Sinfonia grande/intitulada Bonaparte”. Beethoven vivia em Viena na época. Dedicar uma obra a Napoleão, claro adversário do imperador austríaco, era um gesto ousado em tempos de censura e repressão. Prudentemente, o compositor rasurou o título inicial e a sinfonia ficou conhecida como Eroica. Por outro lado, ao declarar-se imperador, Napoleão talvez tenha se tornado, aos olhos de Beethoven, igual a qualquer outro monarca de sangue azul. Foi um gesto inequívoco: a Revolução Francesa acabava ali.

Se na infância a criatividade de Beethoven era podada pelo pai, interessado em fazer dele um músico virtuose de obras já clássicas, na vida adulta criar música nova era um imperativo financeiro. Uma vez publicadas, as partituras poderiam ser facilmente reproduzidas em edições piratas ou mesmo copiadas de mão em mão, anulando o interesse das editoras em pagar por publicá-las. Ineditismo era importante, e nessa época começaram a ser firmados os primeiros contratos multiterritoriais, que precisavam ser meticulosamente controlados a fim de realizar o lançamento simultâneo em vários países (garantindo vários pagamentos por uma única obra).

Saúde frágil

Desde a infância, Beethoven recorda-se de ter uma saúde frágil. Vômitos e diarreia eram uma reclamação frequente. Na maturidade, seu rosto exibia o que pareciam ser marcas de varíola, embora não existam registros de que ele tenha tido essa doença. Não se sabe o quanto dessas reclamações se devem também ao temperamento paranoico e provavelmente hipocondríaco do compositor. Nessa conta, inclui-se também a precariedade dos cuidados médicos na época, caracterizados por crendices, charlatanismo e experiências honestas mas equivocadas.

Enquanto caminhava Wikimedia Commons

Uma possibilidade é que ele tenha ingerido grandes quantidades de chumbo proveniente de utensílios de cozinha, vinho adulterado (comum então) ou águas termais dos diferentes spas aos quais se dirigia buscando tratamento para suas dores. A substância pode ter se acumulado nos ossos e vazado para o sistema digestivo, arruinando-o. Mas não se sabe de efeitos deletérios do chumbo à audição, e foi a perda da audição o grande drama da vida do compositor.

A surdez se manifestou pela primeira vez em 1797, após um dos ataques de fúria com os quais os amigos e parceiros de Beethoven já estavam acostumados. Um tenor teria o interrompido enquanto ele estava compondo. Irado, Beethoven pulou de sua mesa e caiu no chão. Quando levantou, percebeu que estava surdo. A audição voltou, mas não inteiramente.

Surdez 

A partir de então, o que ele ouvia era acompanhado de um zumbido enlouquecedor que o acompanhava dia e noite. Ele tinha 27 anos, começava a ter seu nome reconhecido como à altura do de grandes mestres. É possível imaginar seu desespero em busca de uma cura. No começo, ele tentou esconder a condição. Quando as pessoas se dirigiam a ele sem obter resposta, pensavam que ele devia estar em um de seus surtos criativos, períodos de monomania nos quais ele escreveu a maioria de suas principais obras. Porém, a perda da audição se intensificou gradualmente.

Em seus últimos anos, ele contornava a deficiência por meio de diversos expedientes. Os amigos e empregados conversavam com ele por meio de “cadernos de conversa”. Ao lê-los, temos apenas um lado do diálogo, podendo apenas especular o que Beethoven dizia. Os trechos em que há páginas arrancadas sugerem assuntos picantes ou maledicentes. Nas apresentações ao piano, o vigor com que executava suas criações complexas e diferentes de tudo o que havia sido feito até então mascarava uma eventual desafinação ou um desencontro com os demais instrumentistas.
Mas os recitais foram se tornando cada vez mais caóticos, motivo de troça na imprensa musical, e ele deixou de se apresentar publicamente.

Ao reger, em geral acompanhado de um outro maestro (que, em segredo, orientava a orquestra a prestar atenção nele, e não em Beethoven), o compositor observava atentamente o modo como os instrumentos eram manuseados, o tempo e a intensidade dos gestos dos músicos, percebendo quando algo não saía a contento. Reza a lenda que, ao fim de uma das primeiras apresentações da Nona Sinfonia, em 1824, Beethoven ainda estava postado em pé diante da orquestra, contando o tempo, perdido na música que ouvia em sua própria mente, quando uma solista gentilmente puxou sua manga para virá-lo para a plateia, de modo que pudesse receber a ovação.

Paixões

Algumas passagens pouco documentadas da vida de Beethoven se tornaram verdadeiros mistérios que intrigam pesquisadores até hoje. Talvez o principal deles seja a identidade da “Amada Imortal”, a destinatária de uma arrebatada carta de amor escrita em Praga, em 1812. Nela, um angustiado Beethoven lamenta estar separado da amada e proclama sua devoção eterna a ela.

Apesar de ter se apaixonado muitas vezes – envolveu-se com alunas (como a adolescente Therese Malfatti) e mulheres casadas abastadas (como a condessa Josephine Deym), sem nunca encontrar de fato uma companheira –, a linguagem desta carta é única entre os escritos pessoais do compositor.

Estátua do artista em Bonn Wikimedia Commons

Swafford não arrisca afirmar que solucionou o mistério da carta, mas apresenta boas razões para acreditar que ela era endereçada não à condessa Josephine nem a Antonie Brentano (segundo outros biógrafos até aqui, as “principais suspeitas”), mas à irmã mais nova de Antonie, Bettina (então, recém-casada com o poeta Achim von Arnim). Bettina, que já tivera um affair com ninguém menos que Johann Wolfgang von Goethe, voltaria para Frankfurt com a família, aparentemente cessando de vez o contato com o compositor, que guardaria consigo a carta até morrer... solteiro.

Enfim, paz

Beethoven ainda tinha planos para compor uma décima sinfonia, mas faleceu em março de 1827, após uma longa agonia causada por hepatite crônica e cirrose hepática. Seu funeral foi um dos maiores já realizados em Viena. Havia vivido e refletido em sua arte tempos interessantes. Segundo Swafford, o ponto central do movimento lento da Nona Sinfonia era evocar uma paz perdida. A Eroica evocava o herói conquistador.

A Quinta dizia respeito ao drama implícito de um indivíduo lutando contra o destino. Após a Revolução Francesa, as Guerras Napoleônicas e a violenta contrarrevolução austríaca, Beethoven parece aludir a uma contra contrarrevolução que mantenha viva a esperança da liberdade. Parte da Nona, sua última, tornou-se o hino oficial da União Europeia. Justo reconhecimento .

Luiz Pereira


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