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Especial Leonardo da Vinci: Há 500 anos morria o gênio renascentista

Na primeira parte da série de reportagens sobre da Vinci, conheça a vida e a morte do pintor, escultor, arquiteto e inventor que é um dos artistas mais celebrados da História

Carlo Cauti Publicado em 02/05/2019, às 12h00

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Getty Images

“Chi cerca trova”. É essa a misteriosa frase – “quem procura acha” – que aparece em um estandarte verde de A Batalha de Marciano, do pintor Giorgio Vasari. Um afresco na parede oriental do Salão dos Quinhentos, no Palácio Velho, em Florença, feito para homenagear a vitória militar de Cosme I.

Segundo alguns historiadores, a mensagem deixada na obra por Vasari, que também foi biógrafo e admirador de Leonardo da Vinci, refere-se a um verso da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Segundo outros, tem um sentido mais enigmático: seria uma referência à Batalha de Anghiari, obra inacabada que Leonardo começou a pintar em 1505 naquela mesma parede, mas que se perdeu ao longo dos séculos.

Recentemente, usando técnicas modernas e raios X, pesquisadores encontraram atrás da pintura de Vasari indícios de pigmentos compatíveis com as cores utilizadas por Da Vinci. Ou seja: Batalha de Anghiari poderia estar realmente ali embaixo.

Esse episódio é apenas uma amostra de como estudar e desvendar a vida de Leonardo da Vinci sempre foi uma caça ao tesouro, cheia de mistérios. O gênio toscano morreu há 500 anos, em 1519, deixando para a História obras de arte magníficas, intuições brilhantes e uma montanha caótica de notas, rabiscos e desenhos. Mas também muitos pontos obscuros.

Pintor, cientista, naturalista, engenheiro, arquiteto, mecânico, cenógrafo, anatomista, músico, escritor, empresário, entre outras tantas atividades, Leonardo era um talento universal, e foi provavelmente o mais completo polímata (indivíduo que domina várias ciências) da História. Durante sua vida, nunca houve fronteira entre arte e ciência. Ao transitar livremente entre uma e outra como ninguém jamais fez, Da Vinci encarnou plenamente o espírito da sua época, a Renascença (caracterizada pela valorização do homem e da natureza).

Foi um homem eclético, no limite da esquizofrenia. Com ele, tudo acontecia junto e misturado. Enquanto pintava uma cena religiosa por encomenda da Igreja, elaborava pontes giratórias e esquartejava cadáveres no meio da noite para estudar anatomia. Ao mesmo tempo em que projetava uma máquina voadora, reformava um castelo, organizava festas ou cozinhava para os patrões.

Esse comportamento errático, típico de quem tenta abraçar o mundo, teve um preço alto. Pouquíssimas das suas ideias saíram do papel. Mas isso não rouba de Leonardo da Vinci nenhum dos adjetivos atribuídos a ele: genial, visionário, perfeccionista, obcecado, compulsivo. A maior expressão do homem universal almejado pelo Renascimento. E, justamente por ser curioso até não poder mais, escrevia qualquer coisa que lhe passasse pela cabeça, menos o que fazia referência à sua vida particular. Autobiografia nunca foi um desafio que lhe interessasse. Por isso, conhecemos ainda pouco do homem por trás das obras.

Filho Ilegítimo

O que sabemos de fato começa com seu avô. Quem informou sobre o nascimento de Leonardo foi o pai de seu pai, de nome Antônio,0 que escreveu no dia 15 de abril de 1452, em Vinci, um pequeno vilarejo toscano perto de Florença: “Nasceu um neto meu, filho de Ser Piero (…). Seu nome foi ‘Lionardo’”. O pequeno era filho ilegítimo de Piero, um tabelião mulherengo, com uma pessoa misteriosa chamada Caterina. Dela não se sabe, ao certo, o sobrenome nem a origem. De acordo com alguns historiadores, poderia ser uma escrava do Oriente Médio ou uma camponesa órfã. O certo é que a mãe não tinha condição de criar a criança e que o pai não perdeu tempo para se casar com outra mulher.

O bebê Da Vinci, então, acabou ficando com o avô paterno em seu sítio de Anchiano até completar 5 anos, quando foi morar com o pai, em Florença. Sendo filho ilegítimo, pelas leis da época, Leonardo não podia seguir a carreira de tabelião de Piero e tampouco ter uma educação formal. Não à toa, sempre se descreveu como um omo sanza lettere (um homem iletrado). Chamou-se assim até mesmo depois de se tornar um dos artistas mais admirados de seu tempo.

“O fato de ter sido filho ilegítimo foi, no fim, uma grande sorte e permitiu que Leonardo se tornasse Leonardo. Se ele tivesse sido o primeiro filho legítimo de Piero, provavelmente o mundo não teria tido um dos maiores gênios da humanidade, mas apenas mais um tabelião florentino, já que na época esses cargos passavam de pai para filho”, explica Marco Cianchi, professor da Academia da Galeria de Florença e um dos maiores estudiosos de Leonardo da Vinci do mundo. “Sem educação formal, Leonardo não ficou travado nas categorias mentais de sua época, podendo experimentar e ousar sem preconceitos ou limites intelectuais impostos”, completa.

Se, de um lado, o pai de Da Vinci nunca o reconheceu formalmente, do outro teve o mérito de intuir os excepcionais dotes artísticos do filho, que apareceram desde cedo. Foi graças aos seus contatos em Florença que o filho entrou, em 1469, no ateliê de Andrea del Verrocchio, um dos mais renomados estúdios de arte da cidade italiana. Por lá, também foram aprendizes artistas do nível de Sandro Botticelli, Perugino e Ghirlandaio. “Os ateliês dos artistas italianos eram lugares onde se aprendia não apenas a pintar, desenhar ou esculpir. Eram verdadeiros laboratórios de artes e ciências”, conta o professor Alessandro Vezzosi, fundador do Museu Ideale Leonardo da Vinci. Segundo ele, os alunos também estudavam matemática, geometria, engenharia mecânica e até química. “Tudo o que podia ser útil para criar uma obra de arte”, diz.

Esse período, sem dúvida, foi decisivo na formação de Leonardo. Mas é importante lembrar também que ele viveu na Alta Renascença, que vai da segunda metade do século 15 até as primeiras décadas do século 16, quando a arte floresceu, a ciência avançou e a vida das pessoas, em geral, melhorou, graças ao aumento da produtividade e dos comércios. Foi naquela época, por exemplo, que o inventor gráfico Johannes Gutemberg imprimiu o primeiro livro da História; que Piero della Francesca codificou a perspectiva linear na pintura, mudando para sempre a forma de produzir arte; que Francesco de Giorgio publicou o primeiro tratado de mecânica; que Cristóvão Colombo descobriu as Américas; e que Nicolau Copérnico revolucionou a visão do Universo.

Com essa perspectiva, fica mais fácil entender como esse fermento intelectual, especialmente na Itália, influenciou a formação do jovem Leonardo.

“Ele era extremamente curioso e obcecado da vontade de saber. Lia de tudo, cercava-se de livros, documentos, desenhos, e dizia que seu método era observar a natureza e aprender com ela. Também vivia perguntando tudo para todos, especialmente sobre o funcionamento das máquinas e sobre a natureza e o mundo, anotando rigorosamente as respostas”, explica Romualdo Mazzocco, professor e autor do livro Leonardo da Vinci, il Genio Italico (sem edição no Brasil). O estudioso destaca o perfeccionismo do artista: “Era quase doentio, muito parecido com Steve Jobs nos dias de hoje”.

No ateliê de Verrocchio, Leonardo se tornou rapidamente o aprendiz predileto. E não apenas por sua inteligência, habilidade artística e manual. De acordo com escritos da época, a predileção também tinha a ver com sua beleza física. Da Vinci foi um jovem forte, alto e atraente. “Era uma pessoa bonita, proporcional, cheia de graça e de aspecto bonito”, descrevia uma crônica de Anonimo Gaddiano. Na época, em Florença, a homossexualidade era condenada em tese, mas muito praticada. E, entre as páginas dos Códigos de Leonardo, insuspeitáveis desenhos escabrosos parecem fazer referência a relações entre homens. Em 1508, por exemplo, o gênio italiano escreveu que o órgão sexual masculino “deveria ser ornado e mostrado com solenidade, como ‘ministro’ da espécie humana”.

Diante de registros assim, muitos chegaram à conclusão de que o artista era homossexual. Há quem diga, aliás, que seus dois discípulos prediletos, Gian Giacomo Caprotti (conhecido como Salaì) e Francesco Melzi, foram seus amantes. Provas sobre isso não foram encontradas até hoje, mas em 1476 foi registrada em Florença uma acusação formal de sodomia contra o jovem de 17 anos Jacopo Saltarelli – Leonardo foi processado junto com outros três alunos do ateliê de Verrocchio. A lei, nesse caso, era duríssima: castração e amputação de um pé ou de uma mão para os sodomitas. Por sorte do artista, entre os envolvidos estava Leonardo Tornabuoni, herdeiro de uma poderosa família que tinha parentesco com os senhores de Florença, os Médici. Assim, a denúncia foi considerada “anônima” e arquivada cum conditione ut retumburentur (na condição de que os fatos não ocorram novamente).

E foi justamente naquele momento que aconteceu o primeiro “apagão” na história de Leonardo da Vinci. Por quatro anos, ele parou de pintar, desenhar ou esculpir. Nos documentos da época, ele simplesmente desaparece. Desamor pela arte? Novos interesses científicos? Ou novas paixões terrenas? Mais mistérios na vida do gênio.