Matérias » Personagem

O segredo da Bruxa do 71: guerrilheira antifranquista

A atriz Angelines Fernández não era bruxa, mas tinha um grande segredo

Alana Sousa Publicado em 13/09/2019, às 10h00

Angelines Fernández como A Bruxa do 71 em cena do seriado Chaves
Angelines Fernández como A Bruxa do 71 em cena do seriado Chaves - Reprodução

Em toda a América Latina, a atriz Angelines Fernández ficou eternizada pelo papel de Dona Clotilde em Chaves (El Chavo del Ocho, no original). No seriado, as crianças nutriam a paranoia de que a folclórica velhinha vestida com roupas antiquadas era secretamente uma feitceira maligna – a Bruxa do 71.

Na vida real, Angelines tinha, sim, um segredo, e bem mais interessante que ter uma religião alternativa. Em 1947, aos 25 anos, a atriz dediciu emigrar de sua Espanha Natal. Era uma questão de vida ou morte: ela fazia parte dos Maquis, guerrilheiros antifascistas que combatiam a ditadura de Francisco Franco

Ela nasceu em Madrid em 9 de julho de 1922. Quando a guerra civil estourou, em 7 de julho de 1933, tinha acabado de completar 11 anos. Após a vitória dos nacionalistas contra os exércitos regulares republicanos, em 1939, anarquistas, socialistas e comunistas se uniram num movimento clandestino para continuar o combate, escondidos principalmente em florestas e regiões montanhosas, lançando ataques contra forças do governo.

O auge dos combates foi entre 1945 e 1947, quando o cerco do governo, usando de agentes infiltrados e ataques militares pesados, estrangulou a resistência.

Ao sair da Espanha, Angelines já tinha sua única filha, Paloma Fernández. “Quando trabalhava na guerrilha espanhola, minha mãe era classificada como anti-franquista, então ela precisou deixar seu país natal, considerando que sua vida era difícil. Cheguei ao México em 1947, mas nunca fui refugiada.” Paloma contou em entrevista ao portal oficial do seriado Chaves, Vecindad CH.

Em produção cinematográfica dos anos 50 / Crédito: Reprodução

 

Quando chegou ao México, não conseguiu asilo e decidiu partir para uma Cuba ainda capitalista. A vida lá também não foi fácil. Sua tem memórias do período: “Ela era de caráter forte. Para ela, não havia meias medidas, era branco ou preto. Não poderia ser cinza. Era uma mulher que tinha valores altos e às vezes as pessoas não aceitavam isso muito bem. Então diziam que ela tinha um gênio difícil”. Pouco se sabe da realidade sobre a época em que residiu em Havana, mas foi quando sua carreira de atriz começou a acontecer.

Logo retornou ao México, onde passou o resto da vida. Se tornaria uma das estrelas da Era de Ouro do cinema mexicano, nos anos 50. Não retornou à Espanha mesmo quando a ditadura franquista chegou ao fim, em 1975. Faleceu em 25 de março de 1994, vítima de um câncer no pulmão, em decorrência do cigarro. Ela tinha 71 anos de idade.