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Maomé: O profeta do islã e implacável soldado-estadista

Neste dia, em 632, morria o fundador do islamismo, uma das religiões mais influentes da História

Simon Sebag Montefiore Publicado em 08/06/2019, às 10h00

Retrato do Profeta montando Buraque, pintura do Século 18
Retrato do Profeta montando Buraque, pintura do Século 18 - Wikimedia Commons

Maomé foi o fundador da fé islâmica. Os mulçumanos acreditam que ele era o mensageiro de Deus, o último dos seus profetas, e que transmitiu a palavra de Deus a seu povo na forma do Alcorão. Para os mulçumanos, o Alcorão e o Hadith (Hádice ou Hadiz), compilação dos preceitos, feitos e ditos de Maomé, que juntos fornecem orientação completa sobre como viver uma vida boa e devota.

Embora tenha fundado o islã em um contexto de turbulentos confrontos tribais, Maomé encorajou seus seguidores a servir a Deus com decência, humanidade e piedade. Mas ele também era claramente um talentoso e implacável soldado-estadista, criando por meio da diplomacia e da guerra um Estado bem-sucedido e expansionista — bem como uma nova religião mundial.

Maomé nasceu em Meca em 570. Passou seus primeiros anos no deserto da Arábia aos cuidados de uma ama de leite beduína. Aos oito anos já tinha perdido os pais e o avô, e cresceu sob a tutela de seu tio Abu Talib. Maomé transformou-se em um jovem bonito com um caráter generoso e grande habilidade em arbitrar disputas.

Esse visionário inspirador ganhou renome como homem devoto e espiritualizado. Regularmente retirava-se para o deserto a fim de meditar e orar. Foi em um desses retiros nas cavernas das montanhas que, em 610, ele afirmou pela primeira vez ter sentido a presença do arcanjo Gabriel, que lhe apareceu com a ordem de iniciar sua revelação da palavra de Deus. Aterrorizado, Maomé relatou a experiência a sua primeira esposa, Khadija. Ela e seu primo cego e cristão, Waraqah, interpretaram a experiência de Maomé como um sinal de que ele era o profeta de Deus.

No decorrer dos anos seguintes, Maomé continuou a receber as revelações que se tornariam o Alcorão e que os mulçumanos acreditam ser a palavra direta de Deus. Logo ele começou a pregar para o povo de Meca, convertendo pequenos grupos de amigos e familiares e vários mecanos ricos e importantes. Ensinava-lhes que havia um único Deus, merecedor de sua completa submissão (o significado da palavra islã, “submissão à vontade de Deus”), e que ele, Maomé, era o verdadeiro profeta de Deus. Para muitos membros das tribos politeístas da região, essa mensagem era perturbadora, e por causa disso os partidários de Maomé foram ameaçados e perseguidos. Maomé enviou um grupo de seus seguidores para a Abissínia (atual Etiópia) em busca de refúgio.

Gravura otomana mostra o momento da revelação pelo anjo Gabriel 

 

Em 619, o ano de tristezas, Khadija e Abu Talib morreram. Foi nessa época que Maomé vivenciou a mais intensa experiência religiosa de sua vida. Ele sentiu o anjo Gabriel transportá-lo de Meca para Jerusalém, e do Monte do Templo ele subiu aos céus. Testemunhando o trono divino de Deus e encontrando profetas como Moisés e Jesus, Maomé aprendeu sobre seu próprio estado supremo entre eles. A foram de oração diária também lhe foi revelada. Essa jornada de duas partes é conhecida como Isra (Viagem Noturna) e Mi’raj (Ascensão).

Ainda perseguido em Meca, em 622, Maomé levou seus partidários para fora da cidade na Hégira, uma grande fuga para Yathrib, hoje conhecida como Medina. Lá ele foi reconhecido como juiz e árbitro, e seu número de seguidores aumentou. Maomé criou um novo Estado de tolerância sob uma constituição. Mas as tribos judaicas de Medina resistiram a sua alegação de ser o último profeta munido da revelação final.

De início Maomé determinou que as orações fossem feitas na direção de Jerusalém, nas depois mudou para Meca. No entanto, permaneciam as tensões entre Maomé e os mecanos, e de 624 e 627 houve uma série de batalhas entre os dois grupos. No primeiro embate, a batalha de Badr, 313 mulçumanos derrotaram um contingente de mil mecanos. Em 627, firmou-se uma trégua após uma grande vitória dos mulçumanos na batalha de Trincheira. Maomé era em igual medida um visionário de religiões e um estadista político-militar. Tão logo algumas tribos judaicas apoiaram os habitantes de Meca, Maomé rompeu com elas, cercou-as e, após a rendição dos judeus, levou todos a julgamento, O resultado foi a execução dos judeus homens.

O Alcorão de Maomé prometia tolerância a todos aqueles que reconhecessem a supremacia islâmica e pagassem um imposto de submissão, mas também preconizava a jihad, a guerra santa contra quem resistisse. Como um guia espiritual e líder político-militar de um Estado, ele era tanto um profeta quanto um pragmático — e seu legado contém esses dois temas.

Em 629, Maomé realizou a primeira peregrinação a Meca, uma tradição ainda seguida por centenas de milhares de mulçumanos todo ano. Em 630, quando os mecanos quebraram a trégua, Maomé marchou sobre Meca com 10 mil homens, capturando a cidade e destruindo os ídolos das tribos politeístas. No ano seguinte, já havia ampliado sua influência para a maior parte da Arábia, dessa maneira levando ao fim o que ele chamou de era da ignorância. Depois de proferir seu derradeiro sermão para 200 mil peregrinos em 632, Maomé morreu, deixando a Arábia mais forte e unida sob a bandeira do islã.

A promulgação e a interpretação da palavra de Deus segundo Maomé eram baseadas nas virtudes da humildade, magnamidade, justiça, meritocracia, nobreza, dignidade e sinceridade. O conceito de jihad interna — a luta interior para viver uma vida melhor e mais piedosa — era tão importante para ele quanto pegar em armas contra os inimigos — a jihad da guerra santa.

Ambas as ideias são poderoso componentes do islã. Maomé ampliou os direitos das mulheres — a obrigatoriedade do uso do véu só surgiu bem depois de sua morte — e dos escravos. Condenou práticas árabes como o infanticídio feminino; reformou costumes tribais em favor de uma lei divina unificadora; e censurou hierarquias e privilégios corruptos. Apesar dos excessos cometidos em seu nome por extremistas, ele continua a fornecer orientação espiritual a milhões de pessoas comuns.


Reportagem retirada do livro Titãs da História, do autor e historiador Simon Sebag Montefiore, Editora Planeta do Brasil,  (p. 104, 105 e 106)