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Racismo em campo: O caso Grafite

Na década de 2000, uma onda de agressões raciais manchou a reputação da torcida, e não foi só no Brasil que aconteceu

José Renato Santiago Publicado em 17/01/2019, às 10h00

Reprodução/Giuliano Gomes

Localizada ao lado da capital argentina, Buenos Aires, a cidade de Quilmes, mais exatamente o estádio Centenário, abrigou no dia 16 de março de 2005, a partida válida pela primeira fase da Taça Libertadores da América, envolvendo a equipe local homônima e o São Paulo. Também faziam parte do grupo a equipe chilena do Universidad de Chile e a boliviana The Strongest.

Em um jogo movimentado, argentinos e brasileiros empataram por 2 a 2, sendo que os gols do São Paulo foram marcados pelos atacantes Diego Tardelli e Grafite. Este último ao final do jogo em entrevistas afirmou ter ouvido ofensas racistas proferidas não apenas por torcedores, mas também por atletas adversários em campo. O lamentável episódio chegou a tomar as páginas dos jornais brasileiros. Ao tomarem conhecimento do ocorrido, dirigentes do Quilmes encaminharam uma carta aos são-paulinos pedindo desculpas por tudo. Ao que parecia tudo acabaria por ali e o jogo de volta, em São Paulo, aconteceria dentro da normalidade. Ledo engano.

Quase um mês depois, em 14 de abril, as equipes voltaram a se enfrentar, dessa vez no estádio do Morumbi, na capital paulistana. A equipe brasileira já vencia por 1 a 0, quando aos 44 minutos do primeiro tempo, após sofrer uma forte entrada do zagueiro Arana, Grafite empurrou de forma agressiva, quase um tapa, o rosto de outro defensor argentino, Desábato. Chamado pelo auxiliar, que observara o lance de perto, o árbitro da partida expulsou Arana e Grafite. Ao sair de campo, após ser cercado por jornalistas, o atacante brasileiro afirmou que fora ofendido pelos argentinos, mas preferiu não entrar em maiores detalhes sobre o ocorrido. Após a repetição das imagens da televisão, no entanto, foi possível notar que a agressão do brasileiro aconteceu após ele ter sido ofendido com palavras racistas dirigidas por Desábato. O segundo tempo transcorreu com certa normalidade, sem que ninguém pudesse suspeitar o que viria a acontecer em breve. Assim que o árbitro uruguaio Martín Vazquez encerrou a partida, vencida pelo São Paulo, por 3 a 1, o delegado Osvaldo Nico Gonçalvez, então superintendente do GARRA, Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos, adentrou ao campo e se dirigiu à Desábato para informar que ele seria conduzido ao 34º Distrito Policial. Diante a perplexidade de todos, sobretudo dos jogadores argentinos, Desábato chegou a resistir, mas acabou sendo conduzido, acompanhado pelo técnico Gustavo Alfaro, para a delegacia. Lá chegando foi informado sobre o que estaria sendo acusado.

Naquele dia, Desábato chegou a ser algemado e denunciado por injúria qualificada. Levado para a delegacia, Grafite deu um depoimento que durou cerca de 4 horas e meia. Foi no 34º Distrito Policial, localizado nas cercania do estádio do Morumbi, que o argentino passou a sua primeira noite preso. No dia seguinte, uma quinta-feira, ele foi transferido para o 13º DP no bairro da Casa Verde, zona norte da capital paulista. Enfim na sexta-feira, após os dirigentes do Quilmes pagarem fiança de R$ 10 mil, Desábato foi liberado, e ao lado de parte da delegação do Quilmes embarcou de volta para Buenos Aires. O caso tomou grandes proporções em meio a um período de frequentes casos similares ao redor do mundo. De volta à capital argentina, em entrevista concedida ao programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, o zagueiro negou ter sido racista e que apenas respondera as provocações que Grafite havia feito anteriormente. Segundo ele o brasileiro afirmara que ‘mostraria uma banana’ caso fizesse um gol. Ainda assim, ele se mostrou surpreso que uma discussão em campo extrapolasse para fora dele e que, em um primeiro momento, ao ver o delegado brasieliro no gramado, por não entender muito bem a língua portuguesa, pensou que tinha sido chamado apenas para fazer exame antidoping. Quando viu que estava levado para a delegacia é que notou a gravidade do caso.

Diante palavras de apoio de muitos companheiros bem como de críticas de outros, o fato é que o episódio marcou definitivamente a carreira do atleta argentino. A imprensa brasileira, por exemplo, ao longo dos anos, não poupou a situação e sempre fez questão de citar o caso, quando Desábato ou o Quilmes enfrentava alguma equipe brasileira e, até mesmo, quando algum atleta parente do argentino era contatado para ser contratado por algum clube de nosso futebol. As perguntas sempre foram as mesmas, sobre ele ser, ou não, racista. É fato também que, embora já tenha se passado mais de 10 anos, pouco coisa de forma efetiva tenha sido feito em prol do fim do racismo no futebol mundial. O uso de palavras pejorativas de conotação preconceituosa parecem ser integrantes perpétuo desse esporte, cada vez mais profissional, no entanto, ainda muito ‘raso’ quanto aos desdobramentos potenciais provocados pelas atitudes de seus atletas junto aos seus consumidores, participantes e admiradores.

Desábato, que tinha 26 anos quando o episódio aconteceu, atuou pelo Quilmes até 2006. De lá saiu para defender o Argentinos Juniors e, posteriormente, em 2007 partiu para o Estudiantes de La Plata, equipe onde começara sua carreira e que defendeu até abandonar os campos em 25 de junho de 2018 aos 39 anos. Atuou pela seleção argentina em cinco oportunidades, sendo duas delas justamente frente a seleção brasileira nas partidas válidas pelo Superclássico das Américas em 2012. Já Grafite que tinha seis meses para prestar uma queixa crime contra Desábato, acabou retirando a queixa em outubro de 2005. Sendo assim o caso foi encerrado. Ele foi uma figura importante na campanha do São Paulo naquele ano quando a equipe brasileira conquistou seu terceiro título da Taça Libertadores, ao bater o Atlético Paranaense na final por 4 a 0 disputada no Morumbi em 14 de junho, e, posteriormente, a terceira conquista mundial, ao vencer a equipe inglesa do Liverpool por 1 a 0 em partida realizada no estádio de Yokohama no Japão. O atacante atuou pelo tricolor paulista até janeiro de 2006, ano em que foi convocado para disputar a Copa do Mundo que aconteceu na Alemanha. Assim como Desábato, encerrou a carreira em 2018, também aos 39 anos de idade.