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O escândalo de Berna: Quando jogadores brasileiros foram acusados de estuprar uma menina

Atletas do Grêmio, de Porto Alegre, foram acusados de abusar sexualmente de uma garota de 13 anos, na Suíça

José Renato Santiago Publicado em 20/10/2019, às 10h00

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Crédito: Arquivo AH

O dia 19 de julho de 1987 foi de grande alegria para os gremistas. Após um começo demolidor de jogo no estádio Olímpico — quando abriu, nos primeiros 20 minutos do primeiro tempo, 3 a 0 no placar diante do maior rival, o Internacional —, a equipe conseguiu segurar a pressão colorada, que chegou a marcar dois gols, e conquistou o tricampeonato estadual.

Muita festa e abraços entre torcedores, atletas e comissão técnica. Dentro de alguns dias, antes do começo do Campeonato Brasileiro, na verdade a Copa União, a delegação gaúcha faria uma excursão pela Europa. A primeira partida, válida pela Copa Philipps, aconteceria no dia 29 daquele mês frente à equipe portuguesa do Benfica, na cidade suíça de Berna.

Pessoas de todas as idades interagiram com os jogadores naquela oportunidade tão interessante de ver um time brasileiro em ação em terras europeias. Em campo, os gremistas, comandados pelo técnico Luiz Felipe Scolari, não decepcionaram na estreia e derrotaram os portugueses por 2 a 1.

Agora era se preparar para a próxima partida no dia 31, quando o adversário seria o time local do Neuchatel Xamax. Antes disso, no entanto, na noite de quinta-feira, dia 30, quatro agentes suíços à paisana se dirigiram até o Hotel Metropolitano e, por ordem do juiz local Jurg Blaser, prenderam quatro atletas tricolores (Cuca, Eduardo, Fernando e Henrique) sob a acusação de terem cometido estupro contra a menor, de 13 anos, Sandra Pfaffli.

Com exceção de Cuca, récem-contratado, e que nem sequer estreara, os demais atletas eram considerados grandes promessas da equipe gaúcha e, embora ainda fossem reservas, já tinham atuado com a camisa tricolor.

Segundo o depoimento da moça, ela vagava pelos corredores do hotel, acompanhada por dois amigos da mesma idade, à procura de lembranças da equipe gaúcha, até que teria sido arrastada para o quarto 204, onde estavam os atletas.

Durante cerca de 30 minutos, ela teria sido forçada a manter relações sexuais com os jogadores. Já de acordo com outros atletas da delegação gremista, a menina, que parecia ter mais de 18 anos, era muito bonita e teria entrado no quarto dos atletas e tirado sua blusa em troca de uma camisa da equipe gaúcha.

Para eles, o que aconteceu teria sido provocado por ela. Além disso, a menina, segundo eles, chegou a ser vista no hall do hotel, após o ocorrido, e não teria demonstrado qualquer abalo.

A jovem foi à delegacia para fazer as devidas acusações contra os gremistas. O resultado dos exames de corpo de delito em Sandra, contudo, não comprovou qualquer marca de violência, dando ênfase à tese de que a relação sexual foi consensual, o que derrubou a acusação de estupro.

Ainda assim, no entanto, os jogadores foram enquadrados no artigo 187 do Código Penal da Suíça, que previa uma reclusão mínima de três anos, e poderiam ter sua situação agravada caso o juiz decidisse lançar mão do artigo 191 — prisão de seis anos para aquele que cometer ato sexual ou análogo contra uma criança menor de 16 anos.

A situação de Cuca e Fernando era mais satisfatória, pois eles não foram reconhecidos pela menina e, por conta disso, poderiam ser libertados após pagamento de fiança, caso o juiz chegasse a estabeler um valor.

As acusações sobre Eduardo e Henrique eram maiores e fizeram com que eles ficassem isolados em celas individuais, sem rádio e televisão. Até mesmo a comunicação com a equipe jurídica contratada pelo Grêmio era limitada, e as informações vindas da Suíça ao Brasil não eram das melhores. O fato é que o hotel chegou a ser totalmente cercado pela polícia suíça na busca de evidências que ajudassem a explicar o que teria acontecido.

A tramitação do processo levou semanas e, enquanto os quatro atletas permaneceram presos, a equipe gaúcha seguiu em excursão até o dia 16 de agosto. Em campo, o Grêmio fez bonito e permaneceu invicto.

A delegação gaúcha voltou ao Brasil e manteve advogados na Suíça para fazer a defesa de seus atletas. Foram muitos os pedidos do, até então, embaixador brasileiro Cláudio Garcia de Souza e até mesmo do presidente da Fifa, entidade maior do futebol sediada na própria Suíça, João Havelange, em prol do relaxamento da prisão.

Tudo em vão. O Itamaraty chegou a acompanhar de perto e a solicitar às autoridades do governo suíço que reconsiderassem a decisão de mantê-los presos. O juiz Blaser, no entanto, conhecido por ser muito duro, se mostrou irredutível e manteve os atletas presos por quase 30 dias.

Foram árduas e complexas as negociações que permitiram a liberação dos atletas, que tiveram que se comprometer a voltar à Suíça caso fossem convocados para qualquer audiência que se fizesse necessária. Autorizados para retornar ao Brasil, onde poderiam responder em liberdade, dois anos depois, ao final do processo, acabaram condenados pela Justiça daquele país, mas puderam cumprir a pena em liberdade no Brasil.

O ocorrido dominou o noticiário local e acabou por azedar, de certa forma, as relações diplomáticas entre os países. Livres, os atletas voltaram aos campos e tiveram relativo sucesso no futebol. Para todos eles, o Escândalo de Berna sempre foi um assunto espinhoso e a ser evitado.


Por José Renato Santiago. Doutor e mestre pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo com pós-graduação pela ESPM. Autor de livros sobre a história do futebol, gestão do conhecimento e capital intelectual.


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