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Tim Lopes: Torturado, esquartejado e carbonizado pelo tribunal do tráfico

Neste dia, completa-se 17 anos do assassinato do jornalista por traficantes do Rio de Janeiro

Valentina Nunes Publicado em 02/06/2019, às 05h00

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- Reprodução

Para o amigo Marceu Vieira, a grande homenagem a Tim Lopes é fazer o melhor jornalismo. Para a irmã Tânia Lopes é no aspecto social que está o legado deixado pelo jornalista. Ela costuma dizer que a maior homenagem é dar dignidade para os humildes e pobres, porque era por eles que Tim Lopes viveu, até ser sequestrado, torturado e morto por criminosos liderados pelo traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco.

Produtor e repórter da TV Globo, Tim investigava denúncias de moradores sobre tráfico de drogas e exploração sexual de adolescentes durante bailes funk realizados nos fins de semana em uma das comunidades da Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão, bairro da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro. O crime teve repercussão internacional pela crueldade dos assassinos e por representar uma tentativa de cerceamento da liberdade de imprensa.

Arcanjo Antonio Lopes do Nascimento estava com 52 anos, trinta deles dedicado ao jornalismo, em 2 de junho de 2002, quando foi descoberto gravando imagens do livre comércio de drogas e da prostituição infantil imposta pelos traficantes a meninas da Vila Cruzeiro.

Levado pelo bando de Elias Maluco a local ermo, ele foi torturado até a morte, teve o corpo esquartejado e encharcado de gasolina antes de ser carbonizado numa fogueira, dentro de pneus de carro, método conhecido como micro-ondas pelos moradores da favela da Grota. Só no dia 5 de julho o exame de DNA confirmou que a ossada encontrada em cemitério clandestino localizado no alto do morro era mesmo do jornalista.

Elias Maluco / Crédito: Reprodução

 

Os restos mortais foram enterrados no dia 7 de julho, no cemitério Jardim da Saudade. Entre 41 fragmentos de ossos no cemitério clandestino da Grota, técnicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificaram DNA de outras três pessoas, todas vítimas do tribunal do tráfico. A polícia prendeu sete acusados, levados a julgamento em 2005.

Elias Maluco, apontado como chefe do grupo, foi condenado a 28 anos e seis meses de prisão. Elizeu Felício de Souza, Reinaldo Amaral de Jesus, Fernando Sátiro da Silva, Cláudio Orlando do Nascimento e Claudino dos Santos Coelho foram sentenciados a 23 anos e seis meses de detenção. Angelo Ferreira da Silva recebeu a menor pena, de quinze anos.

Gaúcho de Pelotas, Tim era formado em jornalismo pela Faculdade de Hélio Alonso. Antes de trabalhar como produtor na TV Globo, atuou em jornais impressos, com passagens pelas redações de O Globo, O dia, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, e na revista Placar, especializada em futebol.

Em 2001, recebeu o Prêmio Esso de Telejornalismo e o Prêmio Líbero Badaró, com a série “Feira das drogas” sobre tráfico nas favelas da Grota, da Rocinha e da Mangueira e em ruas da Zona Sul do Rio.


Reportagem retirada do livro 365 dias que mudaram o Brasil, da autora Valentina Nunes (p. 324, 325)