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A saga da guerrilheira que sequestrou um avião para fugir da ditadura militar brasileira

Em 1970, Marília Guimarães, ao lado dos filhos, embarcou em saga caótica com destino a Cuba

Alana Sousa Publicado em 13/08/2020, às 09h00

Marília durante o episódio
Marília durante o episódio - Divulgação

Nos anos de chumbo da ditadura militar brasileira a perseguição era recorrente. Existiam grupos guerrilheiros que tentavam lutar contra as opressões e, entre eles, estava Marília Guimarães, de 22 anos, formada em letras e mãe de duas crianças — Marcelo de 3 anos e Eduardo de 2 anos —. Foi no dia um de janeiro de 1970 que ela entrou no Aeroporto Internacional de Carrasco, em Montevidéu, no Uruguai, com um objetivo: sequestrar um avião e ir para Cuba.

A ação estava sendo planejada por meses, desde que Marília havia se tornado alvo de perseguição, após os militares descobrirem que ela teria utilizado máquinas para imprimir folhetos políticos na escola onde dava aula, além de usar o local para encontros do VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).

A professora precisou ir viver com o os dois filhos na clandestinidade, dormindo em um local diferente a cada noite para não ser capturada. “Eu só pensava em Che Guevara. Pedia forças a ele para não fraquejar, para não deixar que os militares vissem a verdade nos meus olhos”, lembra Marília sobre a prisão que sofreu.

Marília na época do sequestro / Crédito: Arquivo pessoal/Divulgação

 

“A única solução era sair do país, mas eu sabia que era quase impossível; não tinha documentos, não tinha passaporte, era procurada em tudo o que é lugar e era um alvo fácil: uma mulher com duas crianças”, escreveu Marília em seu livro, lançado em 2017, Habitando o tempo. Clandestinidade, sequestro e exílio. Foi após um ano se escondendo que o VPR decidiu que era hora de tirá-la do país.

O sequestro

Nas duas semanas que antecederam o sequestro o grupo de guerrilheiros que, além de Marília, incluía Cláudio Galeno de Magalhães Linhares (primeiro marido de Dilma Rousseff), James Allen da Luz, líder da ação, Athos Magno Costa e Silva, Luiz Alberto da Silva e Isolde Sommer.

Isolde Sommer é forografada dentro do Caravelle / Crédito: Divulgação

 

Os filhos de Guimarães ficaram sob os cuidados da ex-presidente Dilma Rousseff, sobre o episódio ela lembra: “Meus filhos, que nunca tinham se separado de mim, passaram 15 dias com ela. E ela era uma mulher muito nova, que, teoricamente, nem sabia lidar com crianças. Mas ela deu a eles uma estabilidade emocional tão forte, carinho, cuidados, que eles nunca tiveram problemas. As pessoas dizem que ela tem um olhar duro, mas não é verdade. Ela é uma mulher de uma ternura absurda”.

No dia do sequestro, Marília, já junto de seus filhos, carregava brinquedos para as crianças, mamadeiras, fraldas e ainda, seis revólveres, os quais ela distribui para os outros membros de seu grupo quando eles embarcaram no avião Caravelle.

Assim que o avião decolou, o sequestro foi anunciado. “Vamos para Cuba”, disse James. O guerrilheiro leu então um manifesto político, no qual os motivos da ação eram explicados. O que o grupo não imaginava, no entanto, era que o avião não tinha capacidade para um voo longo e possuía uma turbina com defeito.

A viagem e repercussão

Partindo do Ururguai, o Caravelle precisou realizar seu primeiro pouso em Buenos Aires. A imprensa internacional foi informada do que estava acontecendo no avião, a situação começou a ser observada por toda América Latina. A segunda parada foi realizada no dia seguinte, no Chile. Na época, governado pelo líder socialista Salvador Allende, que não só permitiu que o avião reabastecesse, mas forneceu comida e jornais para os guerrilheiros.

Entretanto, a terceira parada não foi tão bem recebida. Em Lima, no Peru, o general Velasco Alvarado, queria negociar uma rendição. As autoridades peruanas ofereceram asilo para Marília e os filhos, em troca da soltura de todos os reféns. A proposta foi recusada, Marília explica que no momento que se entregasse “eles invadiriam o avião com meus companheiros lá dentro”.

A viagem foi ainda dificultada por falhas técnicas na aeronave, e somente após mais de 24h no Aeroporto Jorge Chávez, o curso do avião seguiu para o Panamá. Um coronel do exército brasileiro esperava o grupo guerrilheiro no aeroporto panamenho, ofereceu até mesmo uma arma para que o tripulante responsável pelo reabastecimento matasse um dos sequestradores do Caravelle.

Depois de mais momentos de tensão e espera, o avião seguiu para seu rumo final: Havana. Carlos Lamarca, líder do VPR, havia escrito uma carta para Fidel Castro, pedindo que ele tomasse conta de Marília. “Cheguei em Havana quase delirando”, conta a professora em seu livro. Em Cuba, ela viveu por dez anos com seus filhos, estudou medicina e só retornou ao Brasil em 1980, após ser instaurada a Lei da Anistia.


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Habitando o Tempo. Clandestinidade, Sequestro e Exílio, Marília Guimarães, 2017.

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