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Caça às bruxas: As mulheres que foram acusadas e mortas por bruxaria

Durante séculos, as mulheres foram cruelmente acusadas de práticas satânicas e pagaram com as suas vidas

Alana Sousa Publicado em 26/09/2019, às 13h00

Quadro "The Duckingstool"
Quadro "The Duckingstool" - Charles Stanley Reinhart

A Inquisição havia nascido no século 12 como forma de eliminar heresias como o catarismo e o valdismo. Mais de um século depois, passou a olhar para a bruxaria como uma forma de heresia. Em seu auge, nos séculos 16 e 17, estima-se que a Inquisição matou até 100 mil pessoas, entre mulheres, homens e crianças.

No entanto, as mulheres eram o principal alvo de possíveis adeptos a bruxaria. Os motivos são diversos, e de certa forma, contestáveis. Seja por estarem conquistando mais liberdades, ou quebrando normas sociais vigentes, elas eram vistas como uma terrível ameaça. O clérigo católico Heinrich Kramer afirmou em 1487, no seu livro, Malleus Maleficarum, que “as mulheres têm tendência natural a se tornarem bruxas”.

Abaixo, listamos cinco instigantes casos de mulheres que foram acusadas e executadas por bruxaria.

Agnes Sampson

Ilustração de Agnes / Crédito: Reprodução

 

Agnes Sampson era uma famosa curandeira que morava em Nether Keith, na Escócia. No século 16, desempenhava o papel de parteira na região onde morava. Viúva, e com filhos, rumores alegavam que Agnes, devido a sua sabedoria e experiência, possuía poderes mágicos.

Quando a caça às bruxas se instalou na Escócia, em meados de 1590, Sampson foi uma das mulheres levadas ao palácio do rei James VI, sob a acusação de bruxaria. Inicialmente, a mulher negou que tinha qualquer envolvimento com magia negra. Levaram-na para a masmorra, onde ela foi submetida a brutais sessões de tortura, durante dias.

Rasparam o cabelo de Sampson e arrancaram suas roupas em busca da marca do diabo — algo que toda bruxa recebia no momento que aceitavam a servidão —, mas sem sucesso. Os guardas reais decidiram então aumentar a tortura, com o uso do torniquete, um aparelho que apertava o pescoço da vítima.

Foi quando Agnes sucumbiu e aceitou todas as acusações do rei. Segundo o embaixador inglês, Robert Bowes, a bruxa havia confessado ter tentado lançar feitiços contra o monarca. Sampson foi condenada a morte por bruxaria, e queimada na fogueira em 28 de janeiro de 1591.

Uma lenda afirma que o fantasma de Agnes ainda está preso no Palácio de Holyrood, em Edimburgo, aparecendo nua e careca para assombrar quem passa pelo local.

Jennet Device

Jennet Device / Crédito: Reprodução

 

Jennet era uma pobre menina de nove anos que morava com a família, mãe e irmãos, na casa de sua avó, em 1612, período no qual o rei James I, da Inglaterra, popularizava a caça às bruxas no país e todos viviam aterrorizados. A avó de Jennet era quem sustentava a família, moradores pagavam para que ela curasse doenças ou ajudasse a encontrar objetos perdidos. Um trabalho comum na época, o que permitia a sobrevivência dos Device.

Um dia, ao pedir esmola, a irmã de Jennet, Alison, teria gritado uma maldição para uma pessoa que rejeitou lhe dar dinheiro, no mesmo momento o homem sofreu um grave derrame. Amedrontada, Alison afirmou ser uma bruxa e acusou também todos os membros de sua família. A acusação não foi levada a sério, mas as autoridades começaram a vigiar os supostos bruxos.

Na Sexta-Feira Santa, a mãe, Elizabeth, decidiu não ir à igreja, e sim dar uma festa em sua própria casa. Durante o evento, oficiais da Inquisição invadiram o local e levaram todos presos, com exceção de Jennet. Na prisão, a avó morreu, devido a condições desumanas que foi submetida.

Sobraram a mãe e os irmãos de Jennet para serem julgados. No dia do julgamento Jennet foi a principal testemunha, e acusou todos seus familiares de praticarem feitiços e assassinatos. O relato foi tão convincente que, não só, garantiu a morte por enforcamento de sua família, como, a partir daquele momento, validou crianças como testemunhas credíveis para acusações de bruxaria.

Joan Flowers

Joan e as filhas / Crédito: Reprodução

 

Joan Flowers e suas duas filhas, Margaret e Philippa, eram servas no Castelo de Belvior, residência de Francis Manners e família, que trabalhavam na corte de James I. As três funcionárias desempenhavam a função de curandeiras, e não era bem vistas por seus colegas.

Eventualmente, elas foram demitidas com acusação de roubo. Em seguida, os dois filhos da família do conde morreram misteriosamente. O casal e a única filha também sofreram de vômitos e convulsões, porém ninguém desconfiou de causas sobrenaturais e, por cinco anos, as mulheres da família Flowers levaram uma vida normal.

Até que, em 1618, os Rutlands prenderam Joan, Margaret e Philippa por bruxaria. No caminho da prisão, Joan foi implorando sua inocência, e afirmou que apesar de não frequentar a igreja poderia provar que não era uma bruxa.

A mulher então pediu um pedaço de pão para um dos guardas, e disse que seria como a eucaristia, tão abençoado que seria impossível para uma bruxa comer e não morrer. Para a surpresa de todos, após o primeiro pedaço, Joan engasgou e morreu. Margaret acusou a falecida mãe de bruxaria, enquanto Philippa admitiu ser culpada. Elas ainda acusaram outras mulheres de bruxaria. As irmãs foram enforcadas em 1619.

 Bridget Bishop

Execução de Bridget / Crédito: Reprodução

 

Bridget Bishop é, até hoje, uma das mais famosas mulheres acusadas de bruxaria da História. Ela foi a primeira pessoa a ser morta na infame caça às bruxas de Salem. Na época com 60 anos, tinha sido casada três vezes e optava por usar seu nome de solteira, o suficiente para que moradores da região espalhassem absurdos rumores sobre sua vida.

Bishop foi acusada de todo tipo de comportamento mágico e maléfico. Afirmavam que ela se materializava nos quartos e nas camas dos homens da aldeia, fazia maçãs voarem, atravessava portas fechadas e torturaria as meninas adolescentes, ameaçando-as de morte.

Muitas pessoas testemunharam contra Bridget, alegando que ela ou os perseguia, ou já havia os atormentado de alguma forma, algo que ela sempre negou. Um júri de mulheres ficou encarregado de revistar o corpo da acusada, em busca da marca do diabo. Um terceiro mamilo teria sido encontrado, e na revista seguinte, já não conseguiam encontrar nada de anormal em seu corpo.

Foi condenada a morte por enforcamento em 10 de junho de 1692, marcando o início de centenas de morte que viriam a acontecer na cidade de Salem.

Gwen Ferch

Enforcamento de Gwen / Crédito: Reprodução

 

Gwen Ferch nasceu em 1542, e morava no Vale de Clwyd, no País de Gales. Foi a primeira pessoa acusada e executada por bruxaria no país. Ferch foi casada três vezes, sendo que nas duas primeiras seu marido morreu de forma misteriosa, enquanto o terceiro tem seu destino incerto.

Ela ganhava o sustento fabricando roupas de linho e fazendo ocasionais trabalhos de cura. Apesar do uso de feitiços verbais não ser uma prática anormal no País de Gales, Gwen se destacou por usar um encanto conhecido por, se praticado ao contrário, causar destruição, e não a cura do doente.

Foi examinada pelo bispo William Hughes, e diferentes testemunhas a acusaram de bruxaria. Entre as afirmações estava a de que ela teria levado uma criança à loucura, e ter causado a morte de um homem doente após se encontrar com ele. Ferch foi considerada culpada e enforcada na praça da cidade de Denbigh, em 1594.