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Cassandra Rios: a autora que teve 36 livros censurados durante a ditadura militar

Conhecida como a 'escritora maldita', a autora foi a primeira no país a falar sobre pautas LGBTQIA+

Victória Gearini | @victoriagearini Publicado em 03/04/2021, às 09h20

Cassandra Rios, escritora
Cassandra Rios, escritora - Divulgação / Youtube / Ao Vivo É Muito Pior Podcast

Considerada a escritora brasileira mais perseguida durante a ditadura militar, Cassandra Rios ficou conhecida popularmente como a "escritora maldita" daquela época. Em suas obras, a autora era abertamente contrária a 'moral e aos bons costumes' da sociedade patriarcal. 

Ao todo foram 36 livros censurados de 50 que já foram publicados ao longo de sua vida. No entanto chegou a vender mais de um milhão de exemplares, superando grandes nomes da literatura nacional, como Jorge Amado, Clarice Lispector e Érico Veríssimo.

A censura 

Nascida em 1932, Odete Rios criou o pseudônimo de Cassandra Rios — referência à sacerdotisa da mitologia grega que profetizou a Guerra de Troia — e publicou seu primeiro livro em 1948, aos 16 anos. Chamada de A Volúpia do Pecado, a narrativa contava uma história de amor entre duas adolescentes.

Cassandra foi à primeira escritora no país a escrever romances eróticos voltados ao universo homossexual feminino. Em entrevista à BBC, o professor da Universidade Estadual de Londrina, Rodolfo Londero, afirmou que este foi o principal motivo pelas censuras.

Odete Rios, mais conhecida pelo pseudônimo de Cassandra Rios / Crédito: Vânia Toledo

 

"Cassandra Rios incomodou os militares por várias razões. A principal delas é o conteúdo erótico de seus livros, contrário a 'moral e aos bons costumes', como se dizia na época", explicou Rodolfo Londero em entrevista à BBC.

De acordo com o site, ao longo de sua vida, ela chegou afirmar em uma entrevista que "a sociedade rotula o homossexual como cachaça de macumba, não como uísque".

A falência

Embora tenha sido duramente perseguida nesse período, ela se tornou a escritora brasileira a vender mais de um milhão de exemplares, superando Jorge Amado, Clarice Lispector e Érico Veríssimo.

"No final, a própria censura ajudou a transformá-la em um mito. Mais que um xingamento, a fama de 'escritora maldita' se transformou em um rótulo lucrativo para as editoras", contou Rodolfo Londero à BBC.

No entanto, com a perseguição, Cassandra foi à falência, em 1976 — ano que 14 de suas obras foram censuradas em um período de seis meses — pois diversos de seus livros foram retirados de livrarias. Segundo a BBC, ainda hoje em dia é impossível encontrar com facilidade todas as suas 50 obras.

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Cassandra Rios indo prestar depoimento / Crédito: Divulgação / Vermelho.org

Liz Rios, sobrinha da escritora disse em entrevista à BBC que sua tia ficou muito arrasada na época e que constantemente era interrogada no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).

"Engraçado que com o pseudônimo masculino, a tia Odete conseguia passar pela censura e vender os livros, igualmente eróticos. Isso comprova que a perseguição era contra a pessoa Cassandra, e não só contra sua literatura", afirmou Liz à BBC.

Diversos de seus livros foram confiscados e queimados. Em uma entrevista à revista Realidade, em 1970, Cassandra declarou que a promulgação do AI-5 teve impacto direto em sua vida pessoal e profissional.

"Sou uma criatura simples, comum, cheia de problemas, triste e amarga. A vida de escritora tem sido muito dura para mim", disse à mídia na época.

Rodolfo Londero disse, ainda, à BBC que questões sobre liberdade sexual eram perseguidas pelos militares. “Aos olhos da ditadura, editoras que publicavam qualquer coisa sobre a temática de sexualidade eram verdadeiras inimigas do Estado por serem promotoras da revolução sexual entre os brasileiros, sendo consideradas pelos militares ainda mais perigosas que a própria revolução socialista".

Considerada pioneira em temas ligados ao público LGBT, a escritora se assumiu lésbica abertamente ainda jovem. Cassandra Rios veio a falecer em 2002 em decorrência de um câncer, aos 69 anos, mas ainda hoje é símbolo de resistência na literatura nacional.


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