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Castelo de Colditz: As mirabolantes histórias de fuga durante a Segunda Guerra

Para escapar valia tudo, escalar muralhas, cavar túneis, se fantasiar de soldado alemão, se travestir de mulher e até saltar do telhado com um planador; mais que uma obrigação, fugir de Colditz era um dever

M. R. Terci Publicado em 30/01/2020, às 15h00

Castelo de Colditz
Castelo de Colditz - Getty Images

Em uma pequena cidade no distrito de Leipzig, na Saxônia, Alemanha, se encontra o Castelo de Colditz. Construído no estilo gótico em 1083, por ordem de Henrique IV, Sacro Imperador Romano-Germânico, destruído em 1430 pelos hussitas, reconstruído em 1464, incendiado acidentalmente por um padeiro em 1504. Reconstruído outra vez, a partir de 1506, e ao longo do reinado do Eleitor Augusto da Saxônia, tendo incorporado o estilo renascentista, se tornou o centro administrativo do Gabinete de Colditz. Em 1694, o castelo contava com dois grandes pátios e mais de 700 cômodos.

Em 1803, o castelo foi reestilizado ao estilo neoclássico e passou a ser usado por Frederico Augusto I da Saxônia como casa de caridade para alimentar os pobres, doentes e pessoas presas por delitos leves. Entre os anos de 1829 e 1924, o castelo tornou-se um hospital psiquiátrico para insanos incuráveis.

Ainda em 1864, um edifício hospitalar foi anexado ao projeto original e, posteriormente, quando os nazistas chegaram ao poder, em 1933, o Castelo de Colditz foi transformado em prisão para comunistas, homossexuais, judeus e outros indesejáveis.

A partir de 1939, administrado pela SS, se tornou estratégico para os nazistas. A prisão se converteu em campo de prisioneiros de guerra e, com o sob a nomenclatura de Oflag IV, entre 1941 e 1945, mais de 1500 oficiais aliados foram mantidos prisioneiros.

Em maio de 1945, com a ocupação soviética, o Castelo de Colditz foi transformado num campo prisional para não comunistas e pessoas que de alguma forma desagradavam ao regime. Mais tarde, o castelo acolheu uma casa para idosos, e, posteriormente, um hospital e, outra vez, uma clínica psiquiátrica.

Por muitos anos depois da Segunda Guerra Mundial, enquanto eram realizadas reformas nos alicerces, foram encontrados lugares ocultos e túneis, incluindo uma sala de rádio instalada pelos prisioneiros de guerra britânicos.

Sem dúvida, um lugar repleto de histórias.

"Colditz se localizava em algum lugar de lugar nenhum", explica Steffi Schubert, guia turística do castelo. Ela se especializou em visitas guiadas para turistas de língua inglesa. "Para muitos, a visita é um sonho que se torna realidade, depois de terem visto Colditz em filmes ou lido a respeito em algum livro, então eles se encontram finalmente aqui. E querem saber todos os detalhes", completa a guia.

Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, descobrir o que torna o Castelo de Colditz um dos lugares mais visitados do mundo pelos turistas ingleses.

Durante a Segunda Guerra muitos soldados e oficiais capturados em diferentes campanhas sobre a Europa foram enviados para campos de prisioneiros em território alemão, os chamados Oflags. A maior parte dos prisioneiros desses campos era composta por aviadores abatidos em território inimigo, ou oficiais capturados em campanhas ao longo da expansão do Reich no início da guerra em 1939.

Sem dúvida, o mais famoso desses campos de prisioneiros era o Oflag IV, no Castelo de Colditz. Construído sobre um maciço de pedra vulcânica, Colditz era uma das prisões mais seguras do Reich. Pudera, as forças da temível Waffen-SS, braço armado da Schutzstaffel, se encarregava de administrar o campo.

Colditz, assim, mantinha um padrão de vigilância sobre seus cativos fora do comum; uma prisão de altíssima segurança com um guarda por prisioneiro, revistas diárias, e 3 perímetros de defesa ao redor do castelo. Fugir era impensável, mas não impossível.

O Marechal de Campo Hermann Göring chamava Colditz de Prisão à prova de fugas. No entanto, apesar desta afirmação, soldados britânicos, canadenses, franceses, poloneses e belgas provaram o contrário.

Castelo de Colditz atualmente / Crédito: Getty Images

 

Prisão à prova de fugas

Para a maior parte dos prisioneiros no castelo, fugir ou auxiliar outros na fuga era mais que uma obrigação, era um dever. Ao longo de sua história, como campo de prisioneiros, foram registradas mais de 300 tentativas de fuga de Colditz. Apenas 10% delas tiveram êxito.

A intenção era, em primeiro lugar, chegar à Suíça, que era território neutro. Mas o caminho até lá era longo e muito antes disso, os prisioneiros mais inventivos deveriam planejar as mais rocambolescas fugas, uma mais desafiadora que a outra, pois, no momento em que a SS tomasse conhecimento de uma rota ou plano de fuga, ela jamais poderia ser utilizada novamente.

Furtavam chaves dos guardas, duplicavam fazendo uso de moldes de sabão, depois deixavam a original em locais de passagem de um guarda qualquer que, temendo repreensões, escondia o fato de seus superiores.

As tentativas de fuga eram castigadas com até quatro semanas de isolamento. Tempo suficiente para pensar no próximo plano. Os oficiais detidos eram geralmente bem tratados. O regulamento da Convenção de Genebra era respeitado. Os prisioneiros não precisavam trabalhar. Eles tinham um grupo de teatro, aprendiam idiomas, davam palestras e praticavam esporte.

Contudo, em Colditz, a maioria dos oficiais capturados se oferecia para desempenhar trabalhos, desde os mais comezinhos, como varrer o pátio e consertar telhados, até os administrativos, relacionados à manutenção e subsistência do próprio campo. No pátio, observavam a rotina dos guardas nas muralhas, nos telhados, as rotas de fuga mais seguras. Quando em serviço nos gabinetes, tratavam de fazer cópias de mapas e forjar documentos de identidade que muitas vezes serviram para simular transferências de prisioneiros de um campo para outro, facilitando a fuga.

Um dos departamentos do Ministério da Guerra britânico, o MI9, se especializou em contrabandear equipamentos tais como ferramentas e uniformes para dentro do Castelo de Colditz. O contrabando entrava no campo de prisioneiros como pacotes de mantimentos e correspondência de familiares dos oficiais. Até mesmo caixas da Cruz Vermelha eram utilizadas para levar suprimentos que facilitariam a fuga dos prisioneiros.

Alguns equipamentos contrabandeados e até mesmo chocolates, cigarros e bebidas foram utilizados pelos prisioneiros como moeda de troca com os guardas e muitos dos habitantes da cidade de Colditz, localizada colina abaixo. O tenente Cenek Chaloupka era encarregado de conduzir as negociações com os moradores da cidade e de conseguir informações sobre os turnos de folga dos vigias que passavam as folgas na cidade. Cenek conseguiu até mesmo uma namorada na cidade.

Os alemães, contudo, ao longo dos meses se adaptaram a esse subterfúgio e se tornaram hábeis em interceptar os contrabandos.

Castelo de Colditz antigamente / Crédito: Getty Images

 

Os prisioneiros britânicos foram os mais inventivos, pois imaginavam todo tipo de fuga possível.  Cavaram muitos túneis, destes, um que abrigava uma sala de rádio. Fantasiavam-se, colocavam bonecos de papelão em locais estratégicos na hora da contagem de prisioneiros, escondiam-se em caixas e sacos do correio, serravam as barras das grades, escalavam muros e terraços fazendo uso de cordas com lençóis.

Alguns conseguiam fugir, escalando a muralha do Castelo, simplesmente de posse da informação de troca de turnos dos guardas. Outros mais criativos, roubavam uniformes de oficiais da SS e munidos de documentos falsificados saíam pelo portão da frente.

Certo dia, um prisioneiro de nome Boulé recebeu uma peruca loira de sua esposa. Vestindo uma roupa de mulher, costurada por outros presos, Boulé tentou fugir. Foi por pouco. Boulé foi reconhecido por um guarda no portão.

Dois pilotos da RAF, Bill Goldfinch e Jack Best tiveram a mais ousada das ideias.  Os guardas eram muito dedicados em procurar túneis em construção nas áreas baixas do castelo, nos porões e muralha. Mas ninguém prestava muita atenção para o que aconteceria no teto.

Os reclusos levaram mais de um ano e meio para construir secretamente uma espécie de avião com tábuas de assoalho e roupa de cama, que eles enrijeciam com o mingau do café da manhã.

Mas o equipamento nunca chegou a ser utilizado, porque no dia 16 de abril de 1945 todos foram libertados pelos norte-americanos. O planador foi reconstruído, mais tarde, no Reino Unido, e está hoje no Museu Imperial da Guerra, em Londres. Outra réplica do objeto, construída pelos alemães, se encontra no Castelo de Colditz, justamente no lugar de onde deveria partir.

Depois de escapar do cativeiro, os prisioneiros de guerra ainda enfrentavam o desafio de negociar a passagem por território não-hostil. Os habitantes temiam a SS, e não raro entregavam no outro dia os prisioneiros que abrigavam na noite anterior. Uma das rotas para Suiça, o Singen, foi descoberta pelo tenente naval holandês Hans Larive, em 1940, em sua primeira tentativa de fuga de Colditz.

Larive foi capturado perto da fronteira com a Suíça. O oficial da Gestapo, encarregado por seu interrogatório, estava tão confiante na vitória da Alemanha, que deu informações à Larive sobre rotas muito mais seguras para fugir da Alemanha. De volta à Colditz, Larive fez com que outros prisioneiros memorizassem essa rota, e algum tempo depois, dezenas de prisioneiros de várias nacionalidades escaparam por Singen.

Entre as celebridades, o sobrinho de Winston Churchill e alguns membros da realeza britânica, que serviram na Segunda Guerra Mundial, foram mantidos em Colditz.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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