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Cerveja: Um brinde secular ao presente dos deuses

Muito antes da invenção do happy hour, a cerveja já era um símbolo das relações de amizade e divertimento entre os sumérios

M.R. Terci Publicado em 20/08/2019, às 05h00

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- Crédito: Pixabay

Charlie Harper, icônico personagem interpretado por Charlie Sheen na série Two na a Half Men, sentenciou dramaticamente em um dos episódios do sitcom: “Salve o planeta. Afinal ele é o único que contém cerveja”.

A bebida alcoólica mais consumida no mundo tem uma história peculiar, digna de circular pelos anais da história. Para começar, diferente do que a maioria imagina, a cerveja não foi inventada na Alemanha.

Sua odisseia começa há cerca de 13 mil anos, quando os homens abandonaram a vida nômade de caçadores e coletores de alimentos, para se tornar agricultores. Existem evidências de que a prática da cervejaria se originou na região da Mesopotâmia, onde a cevada crescia fartamente na natureza e por essa razão, o primeiro registro de sua fabricação foi creditado aos sumérios.

Ninguém é capaz de afirmar com certeza como isso ocorreu. Supõem-se que, há 6 mil anos, para aliviar a deglutição de algum doente, eles tivessem molhado um pedaço de pão numa jarra de água. Deixada de lado, alguns dias depois, os restos do pão fermentaram em seu interior. Disso resultou um caldo grosseiro, escuro e de gosto peculiar.

Algum conselheiro ou mago sumério logo descobriu que aquela mistura era embriagadora, uma beberagem supostamente enviada pelos deuses, que em sua opinião deveria ser ministrada ao convalescente. Por óbvio, o doente logo se alegrou, cantou e todos se rejubilaram. Assim, acredita-se que tenham descoberto o processo de fermentação da suposta bebida dos deuses, por puro acaso.

De qualquer forma, em pequena escala, a receita se espalhou e os sumérios se tornaram o primeiro dos povos a possuir registros sobre a cultura da cerveja, bebida que se tornou indispensável aos banquetes mesopotâmicos. Juntamente com o sal e o azeite – muitas vezes perfumado e por isso apreciado, por certa função cosmética que dava brilho aos cabelos dos convivas –, a cerveja adquiriu comensalidade e função social em todas as refeições, conforme atesta a frase creditada ao Rei de Ur, Lugalannemudu de Abab, primeiro soberano a possuir registros escritos em tábuas de argila na Suméria: “Comemos pão, bebemos cerveja e nos untamos de óleo”.

Crédito: Pixabay

 

A cerveja se tornava, então, um símbolo das relações de amizade.

Mais tarde, devido à natureza de seus ingredientes, a cerveja passou a ser especialidade dos padeiros. A cevada era deixada de molho até germinar e, então, moída grosseiramente, moldada em bolos aos quais se adicionava a levedura. Os bolos, após parcialmente assados e desfeitos, eram colocados em jarras com água e deixados fermentar. Ainda na Suméria, 40% da produção dos cereais destinavam-se às cervejarias chamadas casas de cerveja, que passaram a ser mantidas por mulheres.

 Posteriormente, a mais antiga coleção de leis que conhecemos, o Código de Hammurabi, passou a prever uma ração diária de cerveja, cuja quantidade dependia da posição social de cada um: trabalhadores normais – dois litros; funcionários – três litros; administradores – até cinco litros de cerveja.

 Os sacerdotes, naturalmente, não ficaram de fora pois até mesmo Marduk, divindade suprema do panteão babilônico em sua luta eterna contra a serpente Tiamat, não abria mão da sua bebida e por isso se tornou o Deus dos Cervejeiros.

A cerveja produzida a este tempo era bem diferente. Muito mais escura e forte, para evitar a propagação de doenças, muitas vezes substituía até mesmo a água, que estava sujeita a todos os tipos de contaminação.

Pelo mesmo motivo, os egípcios logo aprenderam a arte de fabricar cerveja e carregaram a tradição no milênio seguinte, agregando o líquido à sua dieta diária.

A propagação definitiva da cultura da cerveja se deu com o Império Romano. Júlio César era um grande bebedor de cerveja e tratou de levá-la para todos os cantos onde ainda não era conhecida. A introdução da cerveja entre os britânicos é atribuída a ele, pois, quando chegou à Britânia, bebia-se apenas leite e licor de mel.

Através dos romanos, a cerveja também chegou à Gália, hoje França. Os gauleses denominavam a bebida de cerevisia ou cervisia em homenagem a Ceres, deusa da agricultura e da fertilidade. O nome pegou.

Na Idade Média, assim como cozer o pão ou fiar o linho, fabricar cerveja tornou-se uma atividade familiar. Mas de maneira a preservar a receita, os conventos tomaram para si a incumbência sagrada da cerveja. De qualquer forma, os monges por serem os únicos que reproduziam os manuscritos da época, puderam conservar e aperfeiçoar a técnica de fabricação da cerveja.

Passado algum tempo, a bebida foi introduzida nas tabernas e houve um aumento enorme no consumo da bebida. Dado o caráter comercial desses lugares, onde se discutiam assuntos importantes e muitos negócios concluíam-se entre um gole e outro de cerveja, os artesãos das cidades passaram a produzir cerveja em maior escala, em um arremedo de produção industrializada.

A partir do século 12, pequenas fábricas foram surgindo nas cidades europeias e com técnicas mais aperfeiçoadas e posterior invenção de instrumentos como o termômetro e toneis de metal, os cervejeiros alcançaram algo semelhante ao que bebemos hoje em dia, quando então o nobre líquido foi aprimorado.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.