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Bandido da Luz Vermelha: Inimigo público nº 1

João Acácio Pereira da Costa, cuja figura violenta ficou eternizada como o Bandido da Luz Vermelha, invadiu e roubou pelo menos 150 mansões da elite paulistana, entre os anos de 1966 e 1967

M.R. Terci Publicado em 02/08/2019, às 07h00

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Quando a capital paulista chegou à década de 1960, a nossa Nova York tupiniquim já contava com mais de três milhões de habitantes. Nesse período iniciou-se o processo de perda da qualidade ambiental e dos padrões urbanos, até então razoavelmente mantidos. A corrida imobiliária para o centro novo, do outro lado do Vale do Anhangabaú, relegou o centro velho a lenta deterioração. A Avenida Paulista e a Avenida Faria Lima surgiam como novos centros urbanos e a instalação do polo industrial automobilístico na região do ABC expandiu o uso do automóvel em São Paulo.

O caráter cosmopolita da quinta maior cidade do mundo, selva de concreto, atrairia, então, um típico selvagem do século 20, um personagem sanguinário, abusivo, bárbaro e arbitrário que, com sua labiríntica sagacidade e talento para fugir à captura, viria a desmoralizar toda a polícia de São Paulo, causando grandes embaraços para o Secretário de Segurança Pública da época.

João Acácio Pereira da Costa, cuja violenta figura ficou eternizada como o Bandido da Luz Vermelha – alcunhado assim em razão de usar uma lanterna com facho de luz vermelha para intimidar suas vítimas – causou pânico na capital paulista na década de 1960 e teve sua trajetória passada a limpo pelo Jornal Notícias Populares, semanário este que contribuiu, inclusive, com a captura do celerado, em agosto de 1967, ao publicar seu retrato falado. 

Após sua prisão, o jornal publicou, entre outubro de 1967 e janeiro de 1968, uma série com 57 capítulos sobre as origens do criminoso. Essa série e o fato de que a metrópole paulista já era uma cidade bastante desigual, com uma diferença socioeconômica muito grande, seriam os grandes responsáveis por polarizar a opinião pública brasileira em relação ao criminoso.

Seus crimes dividiam a convicção de grande parcela da população que o repudiava e temia e, outra parte que o considerava “mais um brasileiro atoa na maré da última etapa do capitalismo”. Os locutores radiofônicos o cobririam de adjetivos: monstro mascarado, zorro dos pobres, misterioso tarado, criminal maconheiro.

Parecemo-nos um exercício de imaginação classificar João Acácio dentro das concepções subentendidas quanto aos criminosos de renome. Sua sagacidade para escapar à captura ao longo de 5 anos de intensa atividade o destacou e imprimiu rótulo de figura lendária dentro da história brasileira.

Nascido em 1942, na cidade de São Francisco do Sul – Santa Catarina, João Acácio foi criado por um tio, em Joinville, após a morte precoce de seus pais. Em 1967, em seu julgamento, Acácio relataria uma infância repleta de maus-tratos cometidos pelo tutor, sendo ele e o irmão submetidos a trabalhos forçados e submetidos a tortura física e psicológica.

Após fugir da casa do tio, passou a viver nas ruas de Joinville, onde praticava pequenos furtos em lojas de alimentos e de roupas para saciar sua vaidade. Mais tarde, já manjado na cidade, em vez de prisão, receberia conselhos de policiais e tentaria se reabilitar trabalhando em duas tinturarias. Na primeira, um beijo na filha do patrão, flagrado pelo pai, o deixaria sem emprego; na segunda, foi demitido após ser visto usando o terno de um cliente num cinema local.

Com a polícia de Joinville menos tolerante e novamente em seu encalço, mudou-se para Curitiba e de lá, no início dos anos 1960, fixou-se na Baixada Santista, em São Paulo. Começou a arquitetar roubos às residências de luxo, viajando, comumente, à capital. Neste período, Acácio fez do crime a sua profissão, tornando-se um dos bandidos mais temidos de São Paulo, devido à forma impetuosa como agia diante de suas vítimas.

Luz Vermelha promoveria intensa perturbação pública da lei e da ordem, com dezenas de assaltos, acusações de estupros e homicídios, viria a ser considerado o inimigo público número 1 da capital paulista e, após incessante investigação da polícia, foi preso em 7 de agosto de 1967.

O criminoso que gastara boa parte do dinheiro dos roubos com mulheres e boates da Baixada Santista, agora não passava de um número no sistema prisional brasileiro, condenado em 88 processos, sendo 77 roubos, quatro homicídios e sete tentativas, sua pena foi dosada em 351 anos de detenção. Como a legislação brasileira não permite que alguém fique preso por mais de 30 anos, Luz Vermelha seria solto em 26 de agosto de 1997, após um embate liminar entre o prisioneiro e o Ministério Público.

Após uma passagem rápida pela casa do irmão em Curitiba, o que resultou em desavenças, partiu para Joinville e procurou pelo tio, o mesmo que ele acusou de maus-tratos. Novos conflitos o colocaram na rua para trilhar caminhos que o colocariam em rota de colisão com a fatalidade.

Naquela semana, a pedido do Ministério Público de Santa Catarina, o diretor do Hospital Regional de Joinville havia assinado o atestado de insanidade do ex-presidiário, assim, Luz Vermelha seria conduzido para um hospital em Florianópolis em poucos dias. Estava morando de favor na casa de um pescador de Joinville, quando foi confrontado por assédios cometidos contra mãe e também contra a esposa do anfitrião. Em 7 de janeiro de 1998, menos de 5 meses depois de ganhar as ruas, João Acácio foi morto, aos 55 anos de idade, pelo pescador Nelson Pisingher com um tiro na cabeça.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.