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Hans Staden: Entre os selvagens canibais

O relato de Staden é o mais acurado panorama sobre a paisagem, natureza e hábitos dos nativos brasileiros, sobretudo, a mais perfeita descrição do banquete antropofágico praticado pelos povos Tupi

M.R. Terci Publicado em 07/02/2020, às 07h00 - Atualizado às 16h00

Hans Staden
Hans Staden - Divulgação

No ano de 1547, partia de Lisboa para sua primeira viagem ao Brasil, o alemão e arcabuzeiro Hans Staden, natural da Província de Hesse. Staden era apenas outro jovem procurando meios de ganhar seu sustento e com desejo de viver grandes aventuras.

Mas nas costas do recém-descoberto Brasil, o jovem aventureiro viria a descobrir o real significado da expressão pular da panela e cair no fogo. Após sobreviver a um naufrágio, Staden nadou até a praia, rumou para São Vicente e foi contratado pelos colonos portugueses como artilheiro para defender o Forte de São Filipe da Bertioga.

Nesse mister, ele foi capturado pelos índios tupinambás e mantido cativo por cerca de nove meses, sob a constante ameaça de ser morto, cozido e devorado, como viu acontecer aos outros prisioneiros.

Poupado, por sobrestarem dúvidas quanto a sua nacionalidade, o jovem chegou a lutar ao lado dos tupinambás contra os tupiniquins, aliados dos portugueses. Pouco tempo depois, o jovem viria a ser entregue a um corsário francês. De volta à Europa, em 1557, Staden copilaria a narrativa de sua captura, com xilogravuras que retratavam canibalismo, pajelanças e outros hábitos da tribo tupinambá.

O grande triunfo de Hans Staden não foi apenas sobreviver. O jovem estava predestinado a se tornar o primeiro dos viajantes cronistas. Encantado e temeroso pela própria vida, Staden conheceu renomados guerreiros, heróis que viriam a unificar as tribos na luta contra o colonizador português e registrou a coragem apaixonada com que os índios se lançavam às batalhas, admirando-se, vezes sem conta, com a intimidade daquele povo com a natureza.

Nenhum europeu havia até então pisado nos territórios que percorreu, nenhum outro homem branco sobreviveu para descrever os rituais culinários e costumes exóticos que testemunhara no seio da tribo.

Seu relato, sobre um europeu azarado, conquanto engenhoso, encalhado entre selvagens canibais, rapidamente, se tornou uma sensação em toda Europa, best-seller, por assim dizer, 162 anos antes de Daniel Defoe escrever Robinson Crusoé.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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