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Paixão perigosa: Um retrato do amor no corredor da morte

“Eu te amo do fundo do meu coração. Não perca a esperança, acredite em Deus, porque algum dia a gente vai se encontrar. Sei de seu comportamento doentio, por isso quero que fique calmo.” – afirmava na carta uma das pretendentes do Maníaco do Parque

M.R. Terci Publicado em 03/08/2019, às 08h00

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- Crédito: Jane Evelyn Atwood

William Shakespeare escreveu: “O verdadeiro nome do amor é cativeiro.”

Não raro, a realidade histórica envereda por nuances de ficção literária. Conquanto seus desfechos sejam mais do que suspiros extasiados ou lágrimas angustiadas, a vida, muitas vezes, flerta com as nuances da produção ficcional.

Enfoquemos o amor bandido, o amor proibido, rejeitado pelas leis do social, aquele amor capaz de levar os amantes a um pacto de morte. Morrer de amor, nesse caso, é a escolha que os amantes fazem para permanecerem juntos. Romeu e Julieta, protagonistas de um amor impossível produzido pelo antagonismo irredutível de suas famílias, não tinham esperança, por isso fizeram sua escolha.

Mas que escolha teria os amantes separados por uma pena capital?

Todos os dias, no mundo todo, os presidiários mais perigosos recebem centenas de cartas de homens e mulheres que jamais conheceram. O mesmo acontece com aqueles que estão no corredor da morte.

Questionar o que faz um homem ou uma mulher largar tudo em troca do amor de alguém condenado à morte, é indagar esse morrer de amor através da perspectiva da ficção.

Um episódio bem conhecido nos Estados Unidos foi o da jornalista Evangeline Grant Redding, de Chapel Hill – Carolina do Norte, que em 1984 escreveu ao condenado James Briley. Ele havia liderado uma malfadada fuga de seis condenados à morte na Penitenciária Estadual da Virgínia, em Richmond, e ela queria escrever um livro sobre a aventura.

Cinco meses depois, casaram-se numa cela da prisão. Evangeline iniciou então uma mobilização de grande repercussão contra a pena de morte. Foi inútil. Cinco meses após o casamento, Briley foi executado na cadeira elétrica. Evangeline, contudo, milita até hoje contra a pena capital.

A alemã Dagmar Polzin tomou conhecimento da existência do americano Bobby Lee Harris por meio de um cartaz publicitário da Benetton, daqueles que a grife italiana produz com o objetivo explícito de causar choque e indignação. Harris era mostrado no corredor da morte, esperando pela execução. Ele foi condenado por um crime com requintes de crueldade.

Dagmar apaixonou-se perdidamente pela foto do assassino, abandonou seu emprego de garçonete em Hamburgo, na Alemanha e se mudou para a cidade na costa leste dos Estados Unidos onde Harris estava preso. Visitava-o uma vez por semana. Ele tinha 34 anos, ela 32, namoravam separados por um vidro espesso e nunca se tocaram. Sem chance de ser indultado, Harris aguardou permissão do diretor da prisão para se casar. No dia seguinte, recebeu a injeção letal.

Ambas as histórias estão longe de serem casos isolados. Com espantosa frequência, presos à espera da execução ou condenados a longas sentenças encontram namoradas e esposas.

No Brasil, como cediço, não há pena de morte. A abnegação com que muitos amantes encaram a morte não chega a ser concreta, mas nem o distanciamento, nem o perigo ou as condições mais desfavoráveis inibem os pretendentes mais obstinados.

No dia 14 de junho de 2000, em Santana, zona norte da capital paulista, o maior casamento coletivo na história dos presídios brasileiros foi realizado. Com a presença de um juiz e direito à certidão de casamento, 114 casais juraram fidelidade recíproca até que a morte os separe no salão nobre do pavilhão 6. O amor transforma todos em vítimas fictícias ou reais do sistema judicial.

Mas a culpa comprovada também não dissuadiu as dezenas de brasileiras que se solidarizavam e enviaram propostas de casamento a Francisco de Assis Pereira, o maníaco do parque, condenado a mais de 280 anos por homicídio triplamente qualificado, estupro, atentado violento ao pudor e ocultação de cadáver. Neste caso, o morrer de amor estava bem próximo de ser concretizado, visto que Francisco possuía uma personalidade psicótica. Em um mês de detenção, já colecionava mais de mil cartas e, em 2002, se casou com uma das rementes.

“Eu não sei o que fazer para te distrair. Mas eu tenho uma ideia: primeiro quero dizer que te desejo todas as noites. É muito bom. Te acho gostoso, meu fogoso. Você está juntinho comigo, dentro do meu coração. Depois que chego em casa, queria você de corpo e alma, te amando. Te quero de qualquer jeito. Eu te amo do fundo do meu coração. Não perca a esperança, acredite em Deus, porque algum dia a gente vai se encontrar. Sei de seu comportamento doentio, por isso quero que fique calmo” — afirmava na carta uma das pretendentes do Maníaco do Parque.

Em 2001, a cantora Simony, em meio a muita polêmica se casou com o ex-presidiário Afro X, com quem teve dois filhos. "Sempre acreditei no amor e queria constituir uma família, não importava com quem fosse. Isso é imaturidade. Sei que decepcionei muitas pessoas, mas eu me decepcionei. Eu fingia estar bem, mas não estava", lembrou a cantora, hoje, separada.

Nos anos 1980, a jornalista Marisa Raja Gabaglia envolveu-se com o cirurgião plástico Hosmany Ramos, condenado a 21 anos de prisão por assalto e tráfico de drogas.

Suzane Von Richthofen, notória por ter arquitetado o assassinato dos próprios pais, namorava uma outra interna quando ganhou o direito ao regime semiaberto e foi transferida para o Centro de Ressocialização Feminino de São José dos Campos, onde conheceu o irmão de outra detenta e começaram um relacionamento amoroso. Um tempo depois, foi revelado ainda que a incorrigível paqueradora havia seduzido um promotor público e um médico na prisão.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.