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Comunismo no Brasil: Verde, amarelo e vermelho

A história do comunismo brasileiro confunde-se com a trajetória do partido PCB e com a vida de sua figura mais emblemática: Luís Carlos Prestes

Juliana Araújo Publicado em 23/06/2019, às 09h00

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- Reprodução

Enquanto os operários de Petrogrado e Moscou se mobilizavam para a grande revolução comunista, do outro lado do mundo os trabalhadores paulistanos também se agitavam. Eles já não aguentavam a exploração a que eram submetidos diariamente, em fábrica que lhes garantiam não mais que um precário sustento.

Nas indústrias fabris de bairros como Mooca, Brás, Lapa e Barra Funda, a jornada de trabalho variava de 10 a 12 horas e o salário não passava de 100 mil réis – o consumo básico de uma família, composta por homem, mulher e dois filhos, chegava a 207 mil réis. A situação era de tal modo desalentadora que todos eles resolveram cruzar os braços. Corria o mês de julho de 1917. E a cidade de São Paulo simplesmente parou, na primeira grande greve da história do Brasil.

Com a repressão policial que veio em seguida, o sapateiro José Martinez acabou sendo morto. Mas a paralisação ganhou fôlego ao invés de esmorecer, alastrando-se rapidamente para o interior do Estado e para o Rio de Janeiro. Ao cortejo fúnebre de Martinez, compareceram cerca de 10 mil manifestantes. Muitos deles nem falavam português – eram imigrantes europeus, sobretudo anarquistas espanhóis e italianos, que haviam trazido na bagagem a experiência da organização sindical.

Para o cientista político Antonio Carlos Mazzeo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a greve geral de 1917 – assim como outras manifestações operárias ocorridas por aqui nas primeiras décadas do século 20 – nada mais foi que uma simples e natural evolução dos fatos. “Era a ebulição revolucionária da Europa chegando à América Latina”, diz Mazzeo. Daí para a organização partidária, foi um pulo em termos históricos. Apenas cinco anos mais tarde, em 1922, seria fundado o Partido Comunista - Seção Brasileira da Internacional Comunista (PCB).

A era Prestes

Aquele ano parecia fadado a ser um dos mais importantes na história recente do Brasil. Além da fundação do PCB, ele marcou o início de uma revolução cultural e das chamadas revoltas tenentistas. Enquanto artistas como Di Cavalcanti e Oswald de Andrade protagonizavam a Semana de Arte Moderna em São Paulo, jovens oficiais do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, rebelavam-se para tentar impedir a posse do mineiro Arthur Bernardes na presidência da República.

Prestes após o levante falho / Crédito: Reprodução

 

Do movimento tenentista nasceria, em 1925, a lendária Coluna Prestes. E, com ela, ganharia notoriedade o cidadão que lhe emprestava o nome: Luís Carlos Prestes. Gaúcho, natural de Porto Alegre, ele ganharia o apelido de Cavaleiro da Esperança durante sua marcha pelo interior do Brasil. Ainda não sabia, mas iria se transformar na figura mais emblemática do comunismo brasileiro.

Em 1931, Prestes embarcou para uma temporada na URSS. Lá, estudaria o marxismo-leninismo e trabalharia como engenheiro. Àquela altura, não pertencia a nenhum partido. Mas os soviéticos enxergavam muito bem sua vocação para líder revolucionário. Depois de forte pressão exercida por Moscou, o PCB acabou aceitando-o em seus quadros. E no ano seguinte, 1935, ele foi despachado de volta ao Brasil, com a tarefa de dar início a uma revolução. Em novembro, liderou Intentona Comunista. Mas o levante armado, que deveria derrubar Getúlio Vargas, acabou esmagado. Prestes foi parar na cadeia, de onde só saiu nove anos mais tarde.

Anistiado após o fim do Estado Novo, o líder da Intentona elegeu-se senador. E deu seqüência à combativa militância – inclusive como secretário-geral do PCB – até que seus direitos individuais foram cassados pelo golpe militar de 1964. Prestes fugiu para a sempre acolhedora URSS. Em 1979, nova anistia e novo retorno ao Brasil. Mas dessa vez ele já não tinha a missão de desencadear um movimento revolucionário.

No fim do mesmo ano, deixou o cargo de secretrário-geral do partido. E desligou-se definitivamente do PCB em 1982. Luís Carlos Prestes morreu em 1990, aos 92 anos, sem a ilusão de que, um dia, seu país conheceria uma revolução comunista. Justo ele, o Cavaleiro da Esperança.

L. C. Prestes / Crédito: Arquivos AH

 

Ventos de mudança

Com o fim da ditadura militar e a transição para um regime democrático, em 1985, bons ventos sopraram na direção dos comunistas brasileiros. Mas com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o desmoronamento da URSS, em 1991, eles se descobriram novamente no olho de um furacão. “Os PCs definharam no mundo todo”, afirma o ex-senador Roberto Freire, do Partido Popular Socialista (PPS). Na época, Freire era um dos dirigentes do PCB. Em 1992, propôs uma “atualização” do partido – na verdade, uma manobra para evitar que as urnas, eleição após eleição, empurrassem a sigla cada vez mais para fora do cenário político.

Rechaçada por um grupo minoritário, mas composto por gente muito importante – como o arquiteto e comunista histórico Oscar Niemeyer –, a proposta acabou dando origem a mais um racha. Ainda em 1992, Roberto Freire fundaria o PPS, enquanto seus opositores criariam a Conferência Nacional de Reorganização do PCB e adotariam as seguintes palavras de ordem: “Fomos, somos e seremos comunistas”.


Saiba Mais

Corações Vermelhos, de Antonio Carlos Mazzeo (2003) 

O Ano Vermelho - A Revolução Russa e seus Reflexos no Brasil, de L. A. Moniz Bandeira (2005)