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Constantino, o Grande: A legalização do cristianismo

Neste dia, em 306, Constantino era proclamado imperador romano por suas tropas. Entenda seu papel na liberdade religiosa no Império Romano

Simon Sebag Montefiore Publicado em 25/07/2019, às 04h00

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Constantino era um poço de contradições — não era nenhum santo, e sim, um soldado brutal, ostentoso, de pescoço atarracado de touro, que assassinou seus amigos e aliados e até seus familiares mais próximos. Ele devia sua supremacia à espada. Não obstante, sua adoção do cristianismo, religião que passou a ser aceita e estimulada em Roma, foi um ato decisivo na história ocidental.

Quando Constantino nasceu, em meados ou no fim de 280, o Império Romano havia sido recentemente dividido pelo imperador Diocleciano em duas metades, uma ocidental e uma oriental. Constantino era filho de Constâncio Cloro, general que mais tarde, em 305, seria proclamado imperador do Império Romano do Ocidente. Quando criança, Constantino foi enviado para Nicomédia (a atual Izmit, na Turquia) para ser criado na corte de Diocleciano, Constantino testemunhou a feroz perseguição aos cristãos, que se intensificou depois de 303.

Em 305, iniciou-se uma complexa luta pelo controle das porções oriental e ocidental do império. Constâncio morreu em York, na Britânia, em 306; ato contínuo, Constantino impôs o princípio da hereditariedade e foi proclamado imperador por suas tropas. Soldado hábil, Constantino começou a consolidar seu poder, inicialmente centrado na Gália. Em 312, cruzou os Alpes com um exército, atacando e derrotando o imperador ocidental Magêncio na batalha da Ponte Mílvia; tornou-se assim o único imperador do Ocidente.

Após um sonho em que Deus teria aparecido para ele, Constantino fez seus soldados pintarem um monograma cristão em seus escudos. “Sob este símbolo, vencerás”, dizia o sonho. A visão de Cristo coincidia em sua crença com a divindade única do Sol Invicto. A esmagadora vitória que Constantino obteve fez de Jesus seu deus da vitória — Constantino acreditava que ele devia seu poder ao cristianismo. Mas professar o cristianismo também era um gesto político: a ideia de um império único sob um único imperador, em deus único.

Em 313, Constantino reuniu-se com o imperador do Oriente, Licínio, e os dois homens concordaram com o Édito de Milão, uma proclamação histórica que estendeu a todas as pessoas a liberdade de adorar qualquer divindade que bem escolhessem. Para os cristãos, isso significava que pela primeira vez recebiam direitos legais e tinham permissão para organizar suas formas de culto como preferissem. Além da liberdade religiosa, a aplicação do édito fez devolver os lugares de culto e as propriedades que tinham sido confiscadas sob as recentes perseguições.

Após o Édito de Milão, as relações entre Constantino e Licínio se deterioraram e, em 320, o imperador romano do Oriente voltou a perseguir os cristãos em sua porção do império. Em 324 a rivalidade havia degringolado em guerra civil.

Vitorioso, Constantino reuniu todo o Império Romano sob a bandeira do cristianismo. Nesse ponto alto de seu destino, Constantino escreveu que havia vindo como um instrumento escolhido por deus para a eliminação da impiedade, chamando a si mesmo de O Igual dos Apóstolos, e disse ao rei da Pérsia que, por meio do poder divino de Deus, viera ao mundo para trazer a paz e prosperidade a todas as terras.

As crucificações, a imoralidade sexual, a prostituição, os sacrifícios pagãos e os espetáculos de gladiadores foram todos abolidos; o domingo — o dia da divindade pagã que Constantino adorava, o deus Sol — tornou-se o sabá, o dia do descanso. Não foi uma época de tolerância: pelo contrário, a perseguição aos judeus, os assassinos de Cristo, começou imediatamente e se intensificou.

Constantino reconstruiu e reinaugurou a cidade de Bizâncio, que a partir de 330 passou a ser conhecida como Constantinopla, a Roma oriental (atual Istambul).

A igreja dos Santos Apóstolos em Bizâncio foi construída no local de um templo para Afrodite. Em Jerusalém, Constantino ordenou que fosse construída a igreja do Santo Sepulcro; em Roma, a igreja de São Pedro foi ricamente guarnecida de pratarias e acessórios. As credenciais intelectuais da Igreja foram reforçadas quando Constantino convocou o Primeiro Concílio de Niceia em 325 para lidar com os violentos debates acerca da natureza de Cristo como homem ou deus.

Constantino usou o cristianismo para unificar o Estado, mas foi tão implacável quanto prático. Em 326, mandou executar seu próprio filho e sucessor, Crispo, suspeito de conspirar para derrubar o pai. Pouco depois, sufocou a sua mulher Fausta, por suspeita de intriga e adultério, assim juntando-se a Herodes, o Grande da Judeia; o imperador Cláudio; Ivan, o Terrível; Suleiman, o Magnífico; o xá do Irã; Abas, o Grande; Pedro, o Grande da Rússia; e Henrique VIII da Inglaterra na galeria de assassinos reais de suas próprias esposas ou filhos — embora apenas Herodes e Constantino tenham matado nas duas categorias.

Constantino foi batizado em seu leito de morte — talvez instigado pela percepção de que sua posição muitas vezes requeria bárbaros atos e não cristãos.


Reportagem retirada do Livro Titãs da História, do autor Simon Sebag Montefiore, Editora Crítica.