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O crime do Castelinho da Rua Apa: Nunca esclarecido, o caso ainda intriga e assusta paulistanos

Na década de 30, a curiosa construção no centro da cidade foi palco de um crime cercado de mistério. Até hoje, carrega a fama de mal-assombrada

Vinícius Buono Publicado em 20/08/2019, às 17h00

Castelinho da Rua Apa
Castelinho da Rua Apa - Crédito: Reprodução

Quando se fala em castelo mal-assombrado, muita gente pensa nas construções feudais européias retratadas ou idealizadas em livros e filmes, como o castelo do Conde Drácula, na Romênia. Porém, existe um desses no Brasil. Ou quase isso.

Em uma das esquinas da famosa Avenida São João, por muitos anos alguma coisa acontece no coração de quem passa pelo majestoso edifício que ali se ergue: o Castelinho da Rua Apa. 

Recebeu esse nome graças ao seu estilo arquitetônico, derivado do francês — apesar de não ser propriamente um castelo. E dizem ser mal-assombrado graças a um infame episódio, nunca devidamente esclarecido, onde uma mãe e seus dois filhos foram encontrados mortos a tiros em 1937.

Os habitantes da peculiar residência eram uma família importante e influente na cidade à época. Donos do Broadway, um cinema na própria Avenida São João, a matriarca Maria Cândida Guimarães dos Reis tinha 73 anos e era uma socialite fervorosamente dedicada à religião desde que perdera o marido, o médico Virgílio César dos Reis, pouco tempo antes do ocorrido que chocou a São Paulo da década de 30.

Os dois filhos da abastada família também eram conhecidos pela alta sociedade paulistana. Álvaro, com 45 anos, era advogado, exímio patinador e epicuro por natureza. Gostava de festas, mulheres e viagens, chegou a ser recordista mundial nos patins. O irmão Armando, 43, também se enveredou pelos caminhos do direito, mas, em questão de personalidade, era o contraponto estoico para o estilo mais hedonista do irmão.

Essa divergência entre os dois, segundo consta, foi o gatilho para o famoso crime. Após a morte do pai e uma viagem à Europa, Álvaro queria fechar o cinema para instalar um ringue de patinação. Armando, responsável pelas finanças da família, negava, alegando que isso não seria uma garantia de retorno como era o Broadway. 

A gota d’água veio em maio de 1937. Os dois irmãos teriam discutido, os ânimos se exaltaram e eles apontaram armas um para o outro. A mãe veio apartar, e esse foi o estopim.

De acordo com a versão oficial, Álvaro foi o culpado: baleou fatalmente a mãe e o irmão e, caindo em si, suicidou-se com dois tiros no peito, método pertinente a quem deixa a vida para entrar pra história. Porém, algumas provas e circunstâncias levam muitos a acreditar que não foi bem assim, inclusive Leda Kiehl, sobrinha-neta de Maria Cândida e autora do livro O Crime do Castelinho: Mitos e Verdades, de 2015.

Leda teria escrito o livro porque houve uma contestação enorme — corroborada, inclusive, pelo laudo do IML — sobre a versão oficial da polícia. A pistola de Álvaro foi encontrada na cena e, para os policiais, foi o fator incriminante. Porém, o método de seu suicídio já era incomum o suficiente e, além disso, os legistas encontraram vestígios de pólvora na mão de Armando, e, para eles, o mais novo dos irmãos tinha sido o autor.

Há, ainda, outra hipótese: segundo os médicos, a mãe teria sido assassinada com quatro tiros, e não três como constava no laudo policial. Duas das balas seriam de uma arma de calibre diferente da pistola de Álvaro, o que indicaria a presença de uma quarta pessoa e tornaria o crime uma chacina encomendada.

A polícia descobriu, também, papéis assinados pelo filho mais velho que demonstravam que sua situação financeira era mais delicada do que parecia às vistas, mas seus credores nunca foram encontrados e poderiam estar por trás de tudo.

O Castelinho da Rua Apa passou por um imbróglio judicial e, abandonado, acabou passando para as mãos do Estado. A deterioração só contribuiu para as lendas, e pessoas dizem ouvir passos, choros e lamúrias dos espíritos dos mortos no lugar.

Hoje, o Castelinho é administrado pela ONG Clube das Mães do Brasil, e foi restaurado no período de 2015 a 2017. Mesmo assim, a lenda permanece. As pessoas ainda dizem ouvir sons estranhos vindos do lugar, e alguma coisa continua acontecendo no coração de quem cruza a Rua Apa com a São João.