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A história de amor revelada por meio de cartas, 200 anos depois

Em 2016, especialistas decifraram correspondências e descobriram o relacionamento entre o Visconde Fitzwilliam e uma bailarina francesa

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 18/04/2021, às 08h00

Richard Fitzwilliam e correspondência escrita a ele
Richard Fitzwilliam e correspondência escrita a ele - Divulgação/Museu Fitzwilliam

Ao longo dos séculos, cartas contaram milhares de histórias de amor que não seriam conhecidas se não fossem por elas. Por meio de correspondências, inúmeros casais puderam se comunicar e manter a chama acesa mesmo quando estavam distantes um do outro. 

Ainda assim, muitas vezes é difícil identificar os autores dessas mensagens: as pessoas poderiam usar apelidos, siglas ou até mesmo nenhuma assinatura, complicando ainda mais esse processo. Quando se trata de personagens históricos, pesquisadores continuam tentando a todo custo.

Na década de 1980, um episódio similar aconteceu no Museu Fitzwilliam e, em 2016, narrado no livro The Fitzwilliam Museum: A History (2016), escrito por Lucilla Burn, diretora assistente do Museu Fitzwilliam, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. A obra conta a história da instituição para comemorar o bicentenário de sua fundação. 

Especialistas responsáveis pelo museu haviam descoberto cartas que contavam uma história de amor que durou ao menos seis anos. Tratava-se do relacionamento entre Richard, o 7º Visconde Fitzwilliam e uma bailarina francesa cujo nome era Marie Anne Bernard. No entanto, ela assinava somente como Zacharie, seu nome artístico.

O amor de Fitzwilliam

Museu Fitzwilliam / Crédito: Wikimedia Commons

 

Richard Fitzwilliam é mais conhecido na atualidade por ter fundado o museu que leva o seu nome, na Inglaterra. Quando ele morreu, fez com que sua imensa coleção de livros, obras de arte e manuscritos fossem parar nas mãos da Universidade de Cambridge, que os guardou cuidadosamente.

Como relatou a BBC News na época em que o livro foi lançado, naquele momento, em 1816, estava sendo criado o que viria a se tornar o "melhor pequeno museu da Europa". A importância de Richard permanece até a atualidade devido a esse feito que aconteceu logo com a morte do visconde.

Ainda assim, é possível dizer que sua vida guarda mais histórias interessantes — e até então desconhecidas — que o imaginado. Especialistas que trabalham no museu chegaram a essa conclusão quando descobriram, 200 anos depois de sua morte, 299 cartas endereçadas a Fitzwilliam que contavam sua relação com uma bailarina francesa.

Os pesquisadores demoraram a fazer essa ligação entre os dois porque ela havia assinado apenas com seu nome artístico, o que impossibilitou a identificação. No entanto, quando encontraram as correspondências endereçadas ao visconde nos arquivos da família Pembroke em Wiltshire, logo os associaram. Afinal, eles já haviam lido tal nome em manuscritos do museu.

"Mas até que apareceram as cartas que detalhavam o curso do caso ao longo de seis anos, não sabíamos quem era esse Zacharie”, explicou Lucilla Burn à BBC em 2016. 

Por meio das correspondências, foi possível entender como os dois se conheceram e como se deu esse relacionamento ao longo de seis anos. Atraído para Paris devido ao seu gosto pela arte, Richard passou um longo período na cidade após se formar em Cambridge. 

"Além da Ópera, do teatro e das grandes coleções de pinturas e esculturas, havia também uma cena social animada e sofisticada”, contou. Eles se encontraram pela primeira vez em um famoso e importante salão que pertencia a uma prima de Zacharie, em 1784. Ela tinha apenas 15 anos.

Carta escrita por Zacharie / Crédito: Divulgação/Museu Fitzwilliam

 

"Ela obviamente amadureceu e a profundidade de seu afeto ao longo do relacionamento é comovente traçada — mas apenas de um lado, já que não temos nenhuma carta dele para ela”, disse Burn. 

Pelas mensagens escritas pela bailarina, foi possível decifrar que o casal teve três filhos juntos, mas uma filha morreu ainda pequena. Em uma carta escrita em 1790, ela escreveu que as crianças "correm e comem o dia todo; e à noite dormem como pequenos arganazes".

Embora o começo da relação tenha sido apaixonado, isso não permaneceu por muito tempo. Segundo a pesquisadora, a jovem "regularmente o repreendia por não visitá-la com mais frequência, adiando sua viagem e por ficar tão pouco tempo". Ele chegou a enviar um "um suprimento regular e amplo de dinheiro" enquanto seguia suas viagens aristocráticas.

O fim dessa história não é certo. Mas a última carta enviada pela bailarina foi no ano de 1790 e, pelo que se sabe, sua saúde já não estava muito boa na época, o que levou Burn a sugerir que ela pode ter morrido no período ou se exilado em outra região.