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Anthony Ray Hinton: Enviado injustamente ao corredor da morte por 30 anos

Condenado por dois crimes que não cometeu, ele encontrou na Literatura uma forma de suportar a solidão

Victória Gearini Publicado em 22/02/2020, às 13h00 - Atualizado às 17h40

Anthony Ray Hinton
Anthony Ray Hinton - Getty Images

Em 1985, os gerentes de fast food John Davidson e Thomas Wayne Vason, foram assassinados, em dias diferentes, durante um assalto. Uma terceira vítima conseguiu sobreviver e identificou Anthony Ray Hinton como um dos autores do crime.

Na época,  Anthony Ray Hinton trabalhava em um supermercado local e morava com sua mãe, Buhlar Hinton, na zona rural do Alabama. A polícia utilizou este fato para contra argumentar que Anthony residia cerca de meia hora de Birmingham — local onde ocorreram os assassinatos. No entanto, aos 29 anos, Anthony foi indiciado por homicídio, sendo identificado como autor do crime pela vítima sobrevivente que, por meio de uma foto, afirmou severamente se tratar da mesma pessoa.

Após a prisão, seu advogado — fornecido pela defensoria pública — não lhe aconselhou corretamente, além de ter cometido racismo diversas vezes. Segundo a autobiografia de Anthony, O Sol ainda brilha (2019), o advogado teria falado: “Todos vocês, negros, sempre dizem que não fazem nada. Vocês negros sempre se defendendo".

Anthony Ray Hinton / Crédito: Wikimedia Commons

 

Devido a baixa verba disponível para avaliar o caso, o advogado contratou apenas um especialista em balística, mas as provas foram contestadas e destruídas pelo promotor, que alegou haver limitações físicas e inexperiência do profissional contratado. Mesmo o chefe de Anthony alegando que o funcionário estava trabalhando durante a execução do crime, a promotoria persistiu na acusação.

Como se as coisas não pudessem piorar, a polícia encontrou uma arma em sua casa, que era de posse de sua mãe. Perícias foram feitas e confirmaram — falsamente — que as balas encontradas na cena do crime eram compatíveis com a arma. No entanto, não levaram em conta impressões digitais ou testemunhos oculares. 

Enviado ao corredor da morte, Anthony ficou três décadas sem contato com o mundo exterior, apenas sendo mantido em confinamento na solitária. Buhlar Hinton nunca abandonou o filho e acreditava fielmente em sua inocência, assim como, Lester Bailey, seu melhor amigo, que o visitava mensalmente. Infelizmente, Buhlar faleceu em 2002.

Para se distrair e não pensar nos longos dias solitários, Anthony organizou um clube do livro e recebeu a autorização do diretor do presídio para marcar os encontros na Biblioteca de Direito da Prisão. Os autores preferidos entre os presos eram James Baldwin e Harper Lee, mas logo todos seus colegas foram mortos nas cadeiras elétricas, sendo Anthony o último sobrevivente. 

Estréia de True Justice: Bryan Stevenson Fight For Equality, na cidade de Nova York, nos EUA / Crédito: Getty Images

 

Os apelos iniciais foram tratados pelo seu defensor público, que perdeu todas as ações. Pouco tempo depois de ser enviado para o corredor da morte, a EJI (Equal Justice Initiative) — uma organização sem fins lucrativos — assumiu seu caso por 16 anos. Durante o processo, a EJI apresentou evidências de três especialistas diferentes, que confirmavam que as balas da cena do crime não eram compatíveis com a arma de sua mãe.

Diversas outras provas foram apresentadas para inocentar o rapaz, no entanto, todas as evidências foram recusadas pelo Tribunal Estadual do Alabama. Até que em 2014, o Tribunal aceitou um novo julgamento, que finalmente o declarou inocente. No entanto, o juiz recusou o pedido de indenização, avaliada em US$ 1,5 milhão.

Desde então, Anthony se dedicou à escrita e na luta contra as injustiças do sistema judicial dos Estados Unidos. Sua obra O Sol ainda brilha foi publicada em 2019, no Brasil, pela Editora Vestígio.


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