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Jango, Vargas e Brizola eram marxistas? Entenda a diferença entre o trabalhismo e o comunismo, segundo Leonel Brizola

Entendendo, a partir dos projetos econômicos, a distinção entre o PCB e o PTB, é possível compreender que não havia ameaça comunista em 1964

André Nogueira Publicado em 23/09/2019, às 11h10

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Nos dias atuais, os brasileiros ainda confundem o trabalhismo, que é uma das vertentes mais importantes da política, tendo como desenvolvedores Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, com o comunismo, associado a nomes como Luís Carlos Prestes e Carlos Marighella. 

Por esse motivo, é importante compreender as profundas diferenças entre o projeto social e econômico do trabalhismo com o objetivo revolucionário comunista. Essa distinção já foi plenamente estabelecida em texto desde 1958.

O trabalhismo está diretamente ligado ao legado de Vargas, padrinho do casamento de Brizola com Neuza Goulart / Crédito: Reprodução

 

Isso porque em 1958, Leonel Brizola, jovem político do PTB, concorreu ao governo do estado do Rio Grande do Sul e lançou um manifesto em que repudiava o apoio dos comunistas e definia a distinção entre as correntes de pensamento político.

Brizola determinou aspectos das correntes que são diametralmente opostas. O comunismo, por exemplo, é uma doutrina essencialmente internacionalista, pois o critério da classe é transcendente às fronteiras nacionais. Ao contrário do trabalhismo, que é fortemente nacionalista. O mesmo pode-se dizer em relação à base das ideias: o comunismo é materialista, baseado em Marx. Segundo Brizola, o trabalhismo “se inspira na doutrina social cristã”.

A pauta comunista principal é a abolição da propriedade privada e a coletivização planificada da economia, o que não coincide com a posição dos trabalhistas em relação ao estatuto da propriedade: ela é defensível dentro de um fim social e uma proposição consonante às demandas do povo. Por isso, o projeto de Reforma Agrária da Bandeira Unificadora (Jango) era baseada na propriedade individual.

Assim, em seu manifesto, Brizola declarou: “o comunismo escraviza o homem ao Estado e prescreve o regime de garantia do trabalho, o trabalhismo é a dignificação do trabalho e não tolera a exploração do homem pelo Estado nem do homem pelo homem”.

O governo trabalhista de Brizola foi um dos mais progressistas e vitoriosos sa época / Crédito: Reprodução

 

Brizola defendia um projeto socioeconômico para o país que fosse, acima de tudo, nacionalista e, portanto, acima da intriga EUA-URSS. Ele permitia que fosse banalmente associado ao comunismo: “contra nós, Sr. Presidente, que defendemos os interesses nacionais, chamando-nos de comunistas, procurando excluir-nos da vida pública, quando nos chamam de comunistas. Eu tenho vontade, Senhor Presidente, de dizer o que penso dessa gente, o que eu penso que é o comunismo para essa canalha. Mas, esses, sim, são termos antirregimentais, não poderei pronunciá-los aqui”, afirmou em discurso na Câmara dos Deputados em 1963.

Em 1961: “Ontem à noite, o senhor ministro da Guerra, marechal Odílio Denys soldado no fim da sua carreira, [...] declarou que não concorda com a posse do senhor João Goulart porque, numa argumentação pueril e inaceitável, isso significa uma opção entre o comunismo ou não. Isso é pueril meus conterrâneos! Isto é pueril meus patrícios! Não nos encontramos nesse dilema. Que vão essas ou aquelas doutrinas para onde quiserem. Não nos encontramos entre uma submissão à União Soviética ou aos Estados Unidos [...].”

Brizola, assim como seus associados, não era adepto ao anticomunismo da direita conservadora. Sabendo dialogar com grupos diferentes, o governador (e depois deputado) soube articular com o grupo diversas vezes, seja durante o auge da crise do governo Goulart, ou mesmo após seu retorno do exílio, durante as articulações da Frente Democrática e na criação do PDT.

O governo Jango teve como força defensiva forte o nacionalismo de Brizola / Crédito: Reprodução

 

Ao mesmo tempo, ele via na melhoria econômica nacional uma forma de combate ao comunismo: “A grande diferença entre nós e os que nos acusam está em que eles querem combater o comunismo com a polícia, com a violência, com a ilegalidade, com o desrespeito à Constituição e, portanto, com o terrorismo e com a mentira", declarou Brizola num discurso proferido em 20 de outubro de 1961, durante uma conferência no Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.

"Querem a implantação do atestado ideológico e querem, principalmente, através destas campanhas odientas, envolver e inutilizar todos os que apontam seus privilégios e querem um Brasil novo e livre. E nós entendemos que a melhor maneira de combater o comunismo está em resolver os problemas que nos afligem”, finalizou.