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Ditadura Militar: Relembre a entrevista com Vladmir Palmeira, líder da Passeata dos Cem mil

Em 2009, a AH conversou com um dos mais relevantes militantes, que, em 1968, participou da maior manifestação contra o golpe militar

Redação Publicado em 10/12/2019, às 15h00

Vladimir Palmeira discursando em manifestação durante a ditadura militar brasileira
Vladimir Palmeira discursando em manifestação durante a ditadura militar brasileira - Wikimedia Commons

Sexta-feira, 13 de dezembro de 1968, 10 da noite: o locutor oficial da Voz do Brasil, Alberto Curi, entra no ar, em cadeia nacional de rádio e televisão, para ler as 18 páginas datilografadas que anunciavam ao país o maior endurecimento político de sua história, o Ato Institucional nº 5.

Naquela noite, Vladimir Palmeira, um dos principais líderes do movimento estudantil, estava preso numa instalação da Marinha em Niterói. Só desconfiou do golpe 17 dias depois, ao escutar no rádio a lista cadenciada dos primeiros 11 políticos cassados. "Não ouvi direito. Mas percebi pelo ritmo, pelo tom de voz, o que tinha acontecido", afirma.

Na manhã seguinte, autorizado a visitar o pai, Rui Palmeira, um dos caciques da UDN, no leito de morte, confirmou o que intuíra: o AI-5 estava em vigor. Palmeira havia sido preso durante o Congresso de Estudantes de Ibiúna, em São Paulo, dois meses antes de o ato entrar em vigor.

Foi solto, junto com outros 14 companheiros, em troca do embaixador norte-americano sequestrado, Charles E lbrick, em setembro de 1969. No exílio, viu o golpe militar no Chile, em 1973, e os treinamentos da guerrilha em Cuba. Voltou na Anistia de 1979 e ajudou a fundar o PT. Ex-deputado federal, é economista e professor.

Até hoje, aos 74 anos, discorda de historiadores, que apontam o movimento estudantil como uma das maiores catapultas do AI-5. Para ele, um dos organizadores da Passeata dos Cem Mil, realizada em 26 de junho de 1968, no centro do Rio, a maior manifestação contra a ditadura militar no Brasil não teve nada a ver com o endurecimento do regime.

Vladimir Palmeira / Crédito: Wikimedia Commons

 

  • O que mudou na sua vida após o golpe de 1964?

Militei pouco mais de um ano em um grupo revolucionário independente, sem nome, formado por pessoas que estavam dispersas porque suas organizações tinham sido muito atingidas. Mas o grupo não durou e fui fazer movimento estudantil em 1965.

  • Como os estudantes viam as propostas do presidente João Goulart, como a reforma agrária, a nacionalização de refinarias e o controle do capital estrangeiro?

Apoiávamos, mas achávamos tudo muito moderado. Jango tinha uma atitude dúbia, pois vinha fazendo concessões para a direita. Além disso, não apoiava o movimento das Ligas Camponesas [pela reforma agrária no sertão pernambucano], do Francisco Julião. Nós nos identificávamos mais com o [Leonel] Brizola e o Miguel Arraes [então governadores do Rio Grande do Sul e de Pernambuco].

Depois do discurso da Central do Brasil [em 11 de março de 1964, Jango defendeu as reformas de base, como a mudança da Constituição e as desapropriações] e daquele para os sargentos [rebelados pelo direito de se candidatarem a funções parlamentares], vi que a vaca tinha ido para o brejo, porque Jango fez um discurso violentíssimo e radicalizou sem base, sem condições de resistir. Era um radicalismo puramente verbal. Ao começar a quebrar a hierarquia das Forças Armadas [no apoio aos sargentos], terminou por fortalecer o golpe militar.

  • A divisão da esquerda favoreceu o golpe de 1964?

O golpe aconteceu por falta de estrutura. Ninguém preparou a resistência, nem o Partido Comunista. Todos confiavam no esquema militar do governo. Jango não era de esquerda, não era comunista. Era um presidente vagamente progressista.

Na hora do golpe, o tal esquema não existia e quem sobrou fomos nós. Eu fiquei na minha escola [Faculdade Nacional de Direito] esperando as armas que o Almirante Aragão [Cândido da Costa Aragão] iria mandar. Mas não chegou nada. A escola foi atacada, invadida pela polícia, fuzilaram gente na porta. O problema foi a falta de esquerda, e não a sua divisão.

  • Com qual proposta o senhor se identificava mais?

Eu era a favor da luta armada, o que me aproximava da tese da Ação Popular [um dos grupos organizados da esquerda]. Mas era independente, sem filiação a nenhuma das vertentes.

  • Como foi sua expulsão da Faculdade de Direito?

Em 1966, como presidente do centro acadêmico, liderei a luta contra o pagamento de anuidades. Fui suspenso por um ano. Voltei por uns 15 dias, em 1967, e fui suspenso por mais dois anos. Em 1968, fui preso e nunca mais segui o curso de Direito.

Passeata dos Cem Mil / Crédito: Wikimedia Commons

 

  • Qual era a expectativa na Passeata dos Cem Mil?

Pensamos que iríamos quebrar o pau, pois a agitação no Rio era semi-insurrecional naquele momento. Sabíamos que o Exército estaria na rua. Mas não foi tão extraordinário assim, porque o enterro do Edson Luís [primeiro estudante assassinado em confronto com militares, durante uma manifestação] já havia atraído muita gente: padres, freiras, mães, sindicalistas e políticos.

No Cem Mil, havia mais intelectuais e artistas e, por isso, foi ainda mais representativa. A gente não achava que ela seria permitida [o governo deu autorização oficial à marcha], mas, quando foi, sabíamos que seria grande.

  • O que mudou depois do AI-5?

Ele acabou com o movimento de massa. Mas vivíamos uma ditadura sui generis. A ditadura estava com a camisa-de-força que ela mesma criou: a Constituição de 67, deixada de presente pelo presidente Castello Branco [1900-1967] ao governo de Arthur da Costa e Silva [1902-1969, governou de 1967 a 1969]. Veio então o AI-5, pois [os militares] foram incapazes de conviver com as liberdades de manifestação, organização política e imprensa.

  • Qual foi o impacto da morte de Edson Luís?

Ajudou a isolar a ditadura, na classe média. O que mais traduzia esse momento era a faixa [na passeata do enterro] que d izia "morreu um estudante, podia ser seu filho". Despertou imensa simpatia da população pelo movimento estudantil.

  • Qual foi seu papel no Congresso de Ibiúna?

Nenhum, nem participei da organização. Cheguei e vi aquela desgraça toda. Havia uma briga interna do movimento estudantil, e eu ainda tinha de dizer que aquele congresso estava ótimo. Era uma coisa horrível: chovia, não tinha alojamento direito...

  • Houve alguma denúncia da realização do Congresso?

Ninguém sabe direito. Mas não era preciso uma denúncia. O movimento estudantil era aberto. Nos encontros clandestinos, no Rio, havia estudantes que eram da polícia, e todo mundo sabia. Só não pegavam a gente porque sabiam que poderiam provocar mais protestos na sociedade. O governo precisava tolerar a oposição até certo limite. Ou então partir para a repressão pura e simples, o que de fato aconteceu com o Ato nº 5.

  • Como foi sua prisão em Ibiúna?

Disseram que os policiais chegariam às 17h, mas eles chegaram às 8h, já atirando, imagino que para o alto. Corremos até que nos cercaram com metralhadoras. O Travassos [Luís Travassos, presidente da União Nacional dos Estudantes] e o Dirceu [José Dirceu, da União Estadual do Estudantes] foram logo reconhecidos e postos em uma perua. Eu [presidente da União Metropolitana dos Estudantes] fui de ônibus, junto com a maioria dos outros estudantes.

  • Foi agredido na prisão?

Não me torturaram. Só levei uns tapas. Nem Travassos, nem Dirceu, nem eu fomos torturados.

  • Vocês estavam presos, quando saiu o AI-5?

A Polícia Federal me levou de São Paulo para uma base da Marinha, em Niterói, no Rio de Janeiro, onde havia um mandado de prisão contra mim. Fiquei preso na enfermaria, e foi lá que escutei, no rádio, o locutor falando vários nomes, que, pelo tom da voz, pelo ritmo, deduzi ser a lista dos cassados. Foi fácil intuir que havia saído o golpe. Um ou dois dias depois, fui levado para ver meu pai, que estava morrendo, e pude saber mais.

Vladimir na Passeata dos Cem Mil / Crédito: Wikimedia Commons

 

  • O senhor estava no Chile, em 1973, no golpe chileno?

Eu dormia em um apartamento pertinho do Palácio de La Moneda. Vi o cerco do palácio, fui para casa e não saí mais, porque havia tiroteio, e nós, estrangeiros, éramos perseguidos. Eu estava ilegal e, depois de três dias escutando tiros, fui me refugiar na embaixada do México. Mas esse país não me permitiu ficar. Fui então para a Bélgica, onde vivi de 1974 a 1979 e me formei em economia.

  • Libertado com outros presos políticos, em troca do embaixador norte-americano sequestrado, Charles Elbrick, partiu para o México. O que aconteceu lá?

Houve uma divisão entre os estudantes e o pessoal da luta armada. Achei melhor não nos metermos, pois o nosso momento havia passado e eles eram, naquele momento, a expressão da luta no Brasil. Mas comecei a travar uma luta interna, pelos canais oficiais do meu grupo e sempre com respeito à decisão da maioria, para mostrar meu ponto de vista, contrário ao regime cubano. Aliás, há livros em que defendo aquela luta armada, mas sabe por quê? Por disciplina.

  • Mas, no início da entrevista, o senhor disse que era a favor da luta armada.

Claro. Porque, em 1968, a ação armada era assaltar banco, em tese para fazer dinheiro e montar guerrilha. Mas o que eu defendia é que houvesse trabalho político, movimento de massa, movimento operário e camponês. Sem isso, a luta armada ficaria isolada e seria destruída, como, de fato, foi.

  • Por que não ficou no México?

Não tinha condições de segurança. Matava-se com facilidade e éramos seguidos pela KGB, pela CIA e pela polícia brasileira. Fui para Cuba, porque garantiram que nos colocariam, depois, no país que a gente quisesse. Só que foi um custo para sair. Mas o meu grupo, o MR-8 [Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que sequestrou o embaixador americano], tornou-se hegemônico no Brasil.

Inclusive o Lamarca [Carlos Larmarca (1937-1971) desertou do Exército para se tornar guerrilheiro] entrou nele. E a turma do Marighella [Carlos Marighella (1911-1969) fundou a Ação Libertadora Nacional, que pregava a resistência armada e era articulada com o governo cubano] foi esmagada. A partir daí, os cubanos começaram a valorizar o MR-8, e pude sair de Cuba. Fui para a Argélia, onde passei seis meses clandestino, e para o Chile.

  • O convite para ir para Cuba foi de Fidel Castro?

Fidel pediu, porque tinha uma turma que já ia para Cuba: o Zé Dirceu e o pessoal ligado ao Marighella. Ele nos recebeu no aeroporto, fez um discurso e só. Não foi nada de mais.

  • Chegou a haver contato dele mais próximo com algum de vocês?

Não sei, comigo não teve. Eu já cheguei brigando. Foi antipatia à primeira vista. Comecei a discordar de todo mundo e vi a realidade daquele sistema autoritário, onde trabalhador não tem direito a nada. Meu socialismo é o socialismo dos trabalhadores, e lá era todo mundo militarizado. A educação era militarizada, um horror.

  • Como era o treinamento de guerrilha urbana em Cuba?

O treinamento militar era, como um outro brasileiro já dizia, uma fábrica de cadáveres. O cara aprendia a atirar em tese. Quando voltava para o seu país, morria. Saía [do treinamento] achando que era um guerrilheiro, e a vida é outra coisa. Era uma fábrica de cadáveres, porque a maior parte do pessoal que estava lá morreu.

  • No documentário Hércules 56, o senhor diz que se arrependeu de ter passado por Cuba.

Não me arrependi. Eu tinha de ir. Não podia ficar no México, porque, lá, corria o risco de ser assassinado. E sempre fui um cara que fez trabalho partidário. Esse é o caminho. Você tem a sua liberdade, pode debater, mas tem de abraçar a posição da maioria. Naquela época, mais ainda. Não me arrependo, era assim que a gente podia construir grupos revolucionários. Fiz o que tinha de ser feito.


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