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Curdos: A luta pela terra

Batalhas, genocídios, grupos terroristas e uma luta constante pela independência são parte da história desta etnia sem pátria que, com até 45 milhões de pessoas, é maior que muitos países

Natalia Yudenitsch Publicado em 23/07/2019, às 10h00

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Reprodução

Em 1919, pouco antes do nascimento oficial do Estado Iraquiano (ainda sob controle britânico), os curdos estavam a um passo de ter sua nação independente. O xeque Mahmoud Barzanji, então líder dos curdos, autoproclamou-se rei do Estado Independente Curdo, reclamando a Suleimânia (uma cidade do Curdistão, no Iraque) e áreas adjacentes. Não deu certo.

Menos de um ano depois, o Exército britânico depôs Barzanji. Naquele mesmo 1920, então, foi assinado na França o Tratado de Sèvres. O texto delimitava as fronteiras do Curdistão e prometia a tão esperada autonomia aos curdos. Promessa não cumprida: a independência nunca foi colocada em prática.

Para complicar, em 1923, um novo acordo foi assinado na Suíça entre participantes da Primeira Guerra Mundial (1914-1919) e da Guerra da Independência da Turquia (1919 - 1922). O documento não só dividia o Curdistão entre Turquia, Iraque e Síria como também desobrigava o governo turco a garantir a sonhada autonomia curda. Outro passo atrás.

Em 1925, após a repressão a uma revolta curda, a Liga das Nações decidiu que o mandato britânico na região deveria se estender por mais 25 anos. “Os ingleses ficaram menos de cinco anos. Quando, em 1930, o Iraque conseguiu sua independência dos britânicos, os curdos se rebelaram novamente”, diz Juan Cole, professor da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

As rebeliões aconteceram em várias partes do Curdistão. A ocorrida na Turquia, na região do Monte Ararat, foi apoiada pelas forças britânicas no Iraque, onde, em paralelo, diversos focos rebeldes explodiram. Muitas dessas revoltas foram encabeçadas pelo líder nacionalista curdo Mustafá Barzani. Mas nenhuma resultou num país independente. E eles continuam lutando por isso até hoje.

Guerrilheiras Curdas / Crédito: Reprodução

 

No mesmo lugar nenhum

Para entender a obstinação desse povo — a maior etnia sem pátria da atualidade — em
ter o Curdistão reconhecido, é preciso voltar a suas raízes. Os curdos sempre habitaram a região que ocupam hoje. São uma etnia nativa das áreas montanhosas ao norte do Iraque e ao sul da Turquia.

“As terras que eles querem ver reconhecidas como suas sempre estiveram em suas mãos”, explica Anna Olson, professora americana da Universidade de Washington. “Essa região, com cerca de 500 mil km², que atualmente configura o Curdistão, fica em sua maior parte na Turquia, ocupando ainda partes de Iraque, Irã, Síria, Armênia e Azerbaijão. Como a área não é reconhecida como independente, os curdos, que podem chegar a 45 milhões, vivem hoje espalhados por essas seis nações, sem um núcleo oficial.” Em sua maioria, são muçulmanos sunitas, e a língua oficial é o curdo.

A história desse povo começou há cerca de 8 mil anos, praticamente no mesmo lugar, onde ficava a antiga Mesopotâmia. Sempre habitando as regiões montanhosas e acostumados ao frio intenso da altitude, os curdos da Antiguidade se dividiam em clãs com nomes como gutis, kurti e mushku e viviam em cidades-estado.

Com o passar dos séculos, outros povos indo-europeus, como os medas (cujo império, há 2,6 mil anos, englobava boa parte do que hoje é o Curdistão), cíntios, partos, mitanis, cassitas, hititas e gutis, entre outros, fixaram-se na região. “Os curdos são, portanto, o produto da miscigenação de todos os povos invasores ou migrantes daquele lugar, incluindo assírios, acádios, armênios, persas, gregos, romanos, bizantinos, árabes, mongóis e turcos”, diz Olson.

Da Antiguidade ao século 20, a mistura de cultura e a falta de unidade e de um país levaram os curdos a intermináveis batalhas, guerras civis e levantes. Após as revoltas na época da independência do Iraque, na década de 1930, eles tentariam criar seu Estado próprio ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Quando terminou o conflito, as terras curdas no Azerbaijão foram ocupadas por forças soviéticas. Em 1946, os curdos criaram um Estado independente na cidade de Mahabad, conhecido como República de Mahabad. Menos de um ano depois, porém, quando os soviéticos partiram, a república viu seu fim com a reanexação da região pelo Irã. Também não foi dessa vez.

Extermínio em massa

Durante os primeiros anos do regime imposto pelo partido Baath, que assumiu o poder no Iraque em 1968, os curdos viveram em relativa paz. O cenário mudou radicalmente a
partir de 1971, quando começaram a entrar em vigor as medidas de uma campanha anticurda, oficializada em 1986 sob o nome de Anfal, no governo de Saddam Hussein, e que só terminou em 1989.

O objetivo era eliminar as aspirações de criar uma nação independente ou mesmo de se organizar como uma etnia de cultura e linguagem próprias. As formas de repressão começavam com a expulsão dos curdos que viviam próximo às fronteiras iraquianas com as da Turquia e do Irã. A prisão com base em acusações de atividades oposicionistas complementava o processo.

Os curdos sofreram todo tipo de violência no período — de alvos de armas químicas a destruição de cidades e vilas. Em 1987, cerca de 600 curdos presos foram mortos pelos iraquianos com o tálio, um metal pesado utilizado em veneno para ratos. Já em 1989, mais 2 mil curdos foram envenenados da mesma maneira em Mardim e, no ano seguinte, outros 400 morreram na cidade de Diyarbakir.

Refugiados curdos / Crédito: Reprodução

 

A repressão aos curdos não foi restrita apenas ao Iraque. Até 1991, eles estavam proibidos de falar o curdo na Turquia. Ali, atualmen-te, são vetados programas de rádio ou TV no idioma, assim como o aprendizado da língua nas escolas. Na Síria, muitos não conseguem tirar passaporte, votar, registrar seus filhos com nomes curdos, comprar
terras ou se casar com sírios. No Irã é parecido. Entre 15 e 19 de março de 1988, durante a campanha Anfal e em meio à guerra entre Irã e Iraque, os curdos sofreram um dos piores ataques.

Em represália às forças iranianas, que haviam fornecido suporte militar aos rebeldes curdos, o Iraque lançou um ataque de armas químicas à cidade curda de Halabja (a cerca de 240 km de Bagdá), na época com cerca de 80 mil habitantes. Liderado por Ali Hassan al-Majid, mais conhecido como Ali Químico, integrante do governo de Saddam Hussein, o ataque usou o gás sarin (que ataca o sistema nervoso) e o gás mostarda (que abre feridas quando em contato com a pele). Não há registros precisos sobre as baixas, estimadas em 10 mil.

Quase lá

Já nos anos 1990, enquanto levantes promovidos por guerrilheiros rebeldes da PKK levavam a Turquia a um estado de guerra civil, os curdos ganharam a proteção dos Estados Unidos no Iraque. Sob o comando de George Bush, o pai, os EUA e as forças aliadas que lutaram contra o Iraque na Guerra do Golfo, em 1990 e 1991, apoiaram uma série de rebeliões e revoltas curdas. Isso estabeleceu uma área segura para a etnia no Iraque com um governo próprio. A questão curda, porém, só ganhou destaque no mundo em 2003, com a invasão do Iraque pelos EUA governados por George W. Bush, o filho.

Apesar da oposição ferrenha da Turquia, que negou apoio à independência curda, a delegação da etnia no Comitê Constitucional conseguiu que as províncias curdas se reunissem numa região autônoma, com suas próprias Forças Armadas, taxas e leis, tornando o curdo a língua nacional, juntamente com o árabe. Os turcos chegaram a negar caminho para os americanos e seus aliados até o norte do Iraque.

Tinham medo de que, com Saddam Hussein deposto, os curdos proclamassem um Estado independente. Hoje, apoiando o programa criado pelos EUA no Iraque, há até 200 mil peshmergas (aqueles que enfrentam a morte), combatentes que atuam principalmente contra o Daesh – o Estado Islâmico – com suporte ocidental, protegendo suas terras e buscando uma possível solução de fora.

Não que a situação tenha deixado de ser problemática. Os EUA temem que o Iraque se torne uma terra instável, com uma eterna luta entre vários grupos étnicos. E por isso evitam um apoio explícito ao que continua sendo a meta maior dos curdos: ter sua própria pátria.