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Eddie Rothman: Uma história de territorialidade e violência

Conhecido pelo apelido de Fast Eddie, em North Shore, Rothman é o patriarca do localismo, um fenômeno que ocorre em qualquer lugar, mas que se manifesta de forma particularmente agressiva no surfe havaiano

M.R. Terci Publicado em 09/01/2020, às 09h00

Eddie Rothman
Eddie Rothman - Youtube

Para muitas pessoas, o nome Da Hui representa apenas uma famosa grife havaiana que aportou nas praias brasileiras comercializando roupas, artigos e acessórios de moda surfe. Sem dúvida, uma das marcas de moda esportiva mais famosas do mundo, um lucrativo negócio sob o comando de seu criador, o norte-americano Eddie Rothman. O logotipo estilizado da marca havaiana evoca sentimentos de liberdade, espiritualidade e proteção à natureza.

Contudo, também arrasta consigo máculas nada afeitas a esses sentimentos.

Um longo histórico de crimes, contravenções e violência xenofóbica dividem a opinião pública até hoje. Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, conhecer o grupo dos Black Trunks de Eddie Rothman.

Ele já declarou guerra aos australianos, sul-africanos, alemães, franceses e até mesmo brasileiros. Conhecido pelo apelido de Fast Eddie, em North Shore, Rothman é o patriarca do localismo, um fenômeno que se manifesta de forma particularmente agressiva no surfe havaiano.

Já foi processado por tráfico de cocaína, extorsão, roubo, sequestro, agressão e nas palavras da promotoria de justiça “o responsável por manter North Shore num estado feudal durante anos”.

Passou algum tempo preso, mas alguns espancamentos depois, seus acusadores não encontraram mais testemunhas dispostas a depor e logo Rothman foi inocentado por falta de provas. As vítimas, na grande maioria dos casos, abandonaram o Havaí e nunca mais regressaram.

“Eu tentei ser um cristão. Cheguei até mesmo a me corresponder com a madre Teresa de Calcutá, abriguei duas ou três freiras da ordem dela aqui. Mas religião é uma estupidez. Mais pessoas morreram em nome do cristianismo do que por qualquer outro motivo” – menciona Rothman sobre a época em que se correspondia com a líder das Missionárias da Caridade.

Ironicamente, Fast Eddie não nasceu no Havaí. É um haole, nasceu na Filadélfia e morou até os 13 anos de idade na Califórnia, quando foi expulso de casa. Em 1962, viajou para o Havaí onde foi acolhido e criado por uma família local. Em 1976, junto dos amigos Bryan Amona, Terry Ahui e Clyde Aikau, Eddie fundou o Hui O He’e Nalu – Clube dos Deslizadores de Ondas. Algum tempo depois, o grupo ficaria conhecido apenas como Black Trunks ou Da Hui, nome que mais tarde, sob o comando de Eddie, encabeçaria o lucrativo negócio de moda esportiva.

Assim como outros surfistas locais, Eddie é apreciador e praticante de artes marciais e, através da marca Da Hui, patrocina vários lutadores, incluindo o brasileiro Anderson Silva.

Há quem diga que Eddie manda e desmanda em North Shore com mão pesada, mas que tudo o que ele e os Da Hui fazem é para preservar a natureza e a harmonia do ambiente em que vivem.

Argumentar em favor dos Da Hui é sem dúvida levantar a bola de que o North Shore da Ilha de Oahu é ainda o paraíso dos surfistas. Se o Havaí é o berço do surfe, o Oahu de Eddie Rothman é sua capital. Natureza intocada, paisagens de perder o fôlego, tradições culturais, ondas perfeitas, fauna preservadíssima e um dos arco-íris mais lindos do planeta – em qualquer momento do dia no arquipélago, é comum a combinação de chuva e sol, formando belos arco-íris, um mosaico de cores decomposto do prisma de luz natural, como uma pintura.

Surfe no Havaí / Crédito: Divulgação

 

Os polinésios desbravaram as ilhas do Pacífico, da Nova Guiné ao Taiti, passando por Taiwan, Fiji, Samoa e Tonga até chegar ao Havaí. Eles dominavam técnicas de orientação pelas estrelas e sinais da natureza e tinham uma cultura mística, com uma série de rituais. Os Maori, tribo que colonizou o Havaí, deixaram resquícios e lendas que ainda são lembradas.

Na religião dos polinésios acreditava-se que certas pessoas tinham mana, poder sobrenatural também encontrado em pedras e árvores. A tatuagem, outro costume no Pacífico, muitas vezes servia para definir a tribo, a vida, a história e o lugar de uma pessoa na hierarquia. Com a chegada de missionários americanos conservadores, parte da cultura antiga havaiana se perdeu. O surfe, por exemplo, era visto como um ritual pagão e ficou mais de 100 anos esquecido, até ser resgatado por Duke Paoa Kahanamoku, em 1924.

Hoje com 71 anos, Fast Eddie comenta que nos anos 1970 e 1980, as pessoas que vinham de outros lugares para visitar a ilha e eventualmente pegar ondas, não demostravam respeito suficiente pelos surfistas locais. “O Da Hui foi criado porque os surfistas de fora estavam desrespeitando os havaianos, gritando com as pessoas na hora de pegar ondas, jogando lixo em qualquer lugar. Os locais saíam do trabalho, iam dar uma surfada e tinham que ficar brigando pelas ondas com uns estrangeiros arrogantes. Eles riam dos locais, a gente dava porrada, e eles paravam de rir, viam que a coisa era séria. Primeiro foram os prós, depois os pregos”.

Primeiro vieram os surfistas australianos e os sul-africanos em 1974. Dois anos depois, após constantes ameaças de morte e diversas brigas, foram banidos da ilha. Nos anos 1980, os surfistas brasileiros Almir Salazar e Picuruta entraram em confronto com os Da Hui e tiveram que recorrer ao consulado dos Estados Unidos no Brasil, porque nem a polícia estava disposta a escolta-los para fora da ilha. Fast Eddie colocou a cabeça dos dois irmãos brasileiros a prêmio e foi mais além, teria oferecido 100 dólares por qualquer brasileiro agredido.

Nosso campeão brasileiro de surfe, Picuruta, ficou 4 anos sem pisar na ilha. Anos mais tarde, seria patrocinado pela marca Da Hui. “Todo mundo me vem falar desse incidente, mas a verdade é que eu não me lembro.” – diz Eddie – “Deve ter acontecido com outra pessoa. Eu recordo de outra briga com brasileiros, eram quatro de nós contra 20 deles, eles chamaram para a porrada e nós não fugimos.”

Constantemente, vídeos dos surfistas locais espancando estrangeiros, nas praias de North Shore, viralizam na internet. Franceses e alemães são o saco de pancadas preferido dos Da Hui.

“Meu problema é com os pregos que não sabem se comportar no mar, que tentam pegar ondas que não estão preparados para surfar. Eles têm que ir para outro lugar.”

Presente em dezenove dos Estados norte-americanos e doze países, a Da Hui é muito bem-sucedida no quesito vender um estilo de vida; nesse caso, um lifestyle casca-grossa.

Fast Eddie diz que a violência faz parte da natureza humana. “É uma questão de sobrevivência das espécies. Um peixe come o outro, um gorila briga com um macaco, árabes e judeus se matam sem saber o motivo. As pessoas vêm aqui me perguntar o que eu acho das brigas com os australianos, com os brasileiros. Isso não tem a mínima importância. Veja o que está acontecendo no Japão... Por que inventaram as usinas nucleares se nós temos a energia do sol, dos ventos? O mundo está acabando e nós estamos preocupados com o pequeno mundo do surfe. As ondas continuam aqui e um dia vão acabar engolindo a terra. O oceano sabe cuidar de si mesmo.”


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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Por Uma Geografia das Territorialidades e das Temporalidades, Marcos Aurelio Saquet (2014)

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Políticas culturais: conjunturas e territorialidades, Itaú Cultural (e-book)

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