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Novas doutrinas militares: há 104 anos, acabava a Batalha do Somme

Apesar da tragédia humanitária e da limitada vitória das forças aliadas, a batalha inspirou concepções de combate que duram até nossos dias

Redação Publicado em 18/11/2020, às 00h00

Homenagem aos soldados que lutaram durante a Batalha do Somme
Homenagem aos soldados que lutaram durante a Batalha do Somme - Getty Images

"O mais gigantesco, tenaz, sombrio, fútil e sangrento combate jamais lutado na história das guerras." Dessa forma, o então primeiro-ministro britânico, David Lloyd George, definiu a Batalha do Somme, logo após seu encerramento.

Estátua de David Lloyd /Crédito - Getty Images

 

O assombroso custo em vidas perturbaria os ingleses por algum tempo. Afinal, mesmo tendo construído no passado um império “onde o sol jamais se punha”, suas forças militares haviam sido até então compostas fundamentalmente por profissionais e não por soldados-cidadãos, como ocorria naquela guerra.

Esses soldados e cidadãos foram arrasados no primeiro dia da batalha, o que levou a consciência da guerra para o interior das ilhas britânicas de maneira totalmente inusitada e dramática. E essa foi apenas uma das consequências da batalha.

Entre o diabo e o mar

Na linha de frente, o moral entre os ingleses caiu tanto que alguns abandonaram suas trincheiras e desertaram para o lado alemão. “Nós estávamos entre o diabo e o mar. Se você fosse adiante, provavelmente levaria um tiro. Se recuasse, seria enviado para a corte marcial e levaria um tiro. Então, que diabos alguém poderia fazer? Aquilo era o inferno, era impossível, totalmente impossível”, relembraria tempos depois o veterano W. Hay, do Batalhão Real Escocês.

O ano de 1916 fora também traumático para os franceses, com a perda de milhares de homens em Verdun e no Somme, o que elevava o número de mortes na guerra a mais de um milhão. As consequências não se fizeram demorar.

Em abril do ano seguinte, a partir da batalha de Aisne, um verdadeiro colapso começou a se disseminar no coração do Exército francês, com deserções e motins, que culminaram com cenas tragicômicas de soldados marchando para a linha de frente imitando ovelhas.

No campo militar, o Somme também teve suas consequências. Se estrategicamente a ofensiva não mudou o curso da guerra, propiciou a adoção de novas táticas e concepções, com reflexos que chegariam até os nossos dias.

Novas táticas

Às vésperas da batalha, alemães e franceses ensaiavam a adoção do conceito de ações executadas majoritariamente por pelotões, grupos com três ou quatro dezenas de homens, normalmente comandados por um tenente, em substituição aos ataques frontais desferidos por companhias, formadas por mais de uma centena de soldados.

Mas o conceito dominante ainda era o da quantidade na ofensiva, em detrimento da qualidade, o que aumentava o número de baixas e diminuía a mobilidade no ataque. Já na Segunda Guerra Mundial, o eixo das ações ofensivas da infantaria seria confiado plenamente aos pelotões.

Isso sem falar na crescente importância que o tanque ganharia, substituindo a cavalaria, que havia se mostrado praticamente inútil na Batalha do Somme.

O tanque Mark I /Crédito - Wikimedia Commons

 

Nos céus, os alemães tirariam as principais conclusões sobre o que ocorrera no Somme e buscariam uma resposta engenhosa. Como o domínio dos ares lhes fora negado pela superioridade numérica e técnica dos aviões aliados, eles partiram para o desenvolvimento de novas aeronaves, como o Albatross D, e de uma revolucionária doutrina: as esquadrilhas de caça. Até a batalha do Somme, era comum os aviões ganharem os ares sozinhos ou em pequenos grupos de patrulha ou reconhecimento.

Ao criar os Jagdstaffeln, ou simplesmente esquadrilhas Jastas, uma técnica adotada plenamente em nossos dias acabava de nascer. A ideia baseava-se no tripé esquadrilha, interceptação e tática.

Esquadrilha porque os aviões não levantariam mais voo sozinhos e sim em grupos. Interceptação porque os caçadores só deixariam o solo caso fosse avistada uma aeronave inimiga.

E, finalmente, tática porque a ação era baseada em treinamento e doutrinas que visavam garantir supremacia durante o combate. Mesmo inferiorizados em números, os alemães levariam vantagem na maioria dos combates aéreos até o final da guerra.

Rastros da batalha de Bazentin Ridge /Crédito - Wikimedia Commons

 

Não se pode negar que a grande ofensiva anglo-francesa planejada para o Somme converteu-se em um fútil, sombrio e sangrento combate, como bem definiu Lloyd George.

Mas é curioso observar que, a partir de uma longa e aparentemente inútil batalha, surgiriam doutrinas que mudariam a forma de se guerrear nas décadas seguintes.


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