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Epidemia ou terrorismo? O mal misterioso que atingiu a população da Palestina, nos anos 80

Há 37 anos, começavam os primeiros casos da epidemia de desmaios. Na qual 943 pessoas acabaram hospitalizadas e as tensões políticas chegaram à estratosfera, com acusações de envenenamento pelos israelenses

Thiago Lincolins Publicado em 21/03/2020, às 10h00

Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Divulgação

Os primeiros sintomas ocorreram no dia 21 de março de 1983, numa escola da cidade de Arrabah, na Cisjordânia. Uma menina, tossindo, ficou subitamente sem ar. Logo em seguida desmaiou, ao chão.

A coisa era contagiosa: pouco depois, eram outras seis estudantes a cair após perder o fôlego. As vítimas seguintes sofreram de vômito e visão embaçada.  Dali em diante o pânico já havia tomado conta de outras salas de aula — 32 meninas foram afetadas no primeiro dia.  

Havia algo de suspeito. Ao acordarem, as vítimas relataram que um estranho cheiro havia tomado conta da escola — semelhante a de um ovo podre. Os médicos que cuidaram das adolescentes também reclamaram do odor.

Mas a síndrome também atingia aos judeus. Soldados mulheres da Forças de Defesa de Israel foram convocadas para ajudar. Durante o trajeto para o hospital, acompanhando as adolescentes, também desmaiaram e reclamavam de novos sintomas: dor de cabeça e dores no estômago.

A situação ficaria cada vez pior. Em 26 de março, numa escola de ensino fundamental da cidade de Jenin, 57 meninas foram atingidas. No dia 29 de março, na cidade de Tuljarem, foram 37 adolescentes. Do dia 30 a diante, um número castrastrófico de vítimas tomava conta da Cisjordânia.

Com 310 casos contabilizados e 943 pessoas hospitalizadas, as aulas foram suspensas por 20 dias. E, como os médicos não encontravam uma resposta inicial, o episódio aumentaria as tensões entre palestinos e israelenses.

O cheiro de ovo podre levantou a ideia entre os palestinos de que os judeus estavam usando gases para evenenar as meninas. 

Investigações

Os líderes palestinos acusaram israelenses abertamente de utilizar gás venenoso nas escolas da Cisjordânia para expulsar os árabes do local ou esterilizar as adolescentes. Logo virou um escândalo internacional, com vários dos próprios israelenses acreditando na atitude vil de seu governo.

As autoridades israelenses rebateram que eram as facções palestinas — a principal, a Organização para Liberação da Palestina (OLP) de Arafat — a utilizar o gás ou produtos químicos para causar pânico entre a população.

O Dr. Baruch Modan, do Ministério da Saúde, convocou uma investigação, mas não achou nada. Depois veio a Cruz Vermelha, que também não encontrou nada, mas não quis divulgar seu relatório final. 

Ao fim, foi a vez do Tio Sam. Testes realizados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, dos EUA, não acharam qualquer químico foi encontrado nas escolas onde ocorreram os episódios. A sugestão que os médicos deram era que o surto teria sido desencadeado principalmente por estresse e ansiedade.

Assim afirma o relatório:

“Os dados coletados nas investigações indicam que a epidemia na Cisjordânia foi desencadeada por fatores psicológicos ou, mais provavelmente, pelo odor de baixas concentrações sub-tóxicas de gás de sulfeto de hidrogênio, que escapou de uma latrina em uma escola da cidade de Arrabah

A propagação subsequente do surto foi mediada por fatores psicológicos, em um contexto de ansiedade e estresse e pode ter sido facilitada por relatórios de jornais e rádios que descrevem os sintomas em detalhes e sugeriram fortemente que um gás tóxico era a causa. A epidemia foi provavelmente encerrada pela suspensão das aulas nas escolas da Cisjordânia”

Isto é: teria sido um episódio de histeria coletiva, um pânico irracional. Nenhum dos lados ficou muito satisfeito com a conclusão dos EUA. Os palestinos não compraram, mas o rumor acabou morrendo — particularmente após novas acusações de envenenamento pelos israelenses.

A mais notória, a do líder Yasser Arafat em 2004, com alguns cientistas internacionais apontando indícios do agente radioativo polônio-210, outros contestando, e nenhuma conclusão definitiva.

Alguns israelenses,  como o historiador Rapahel Israeli, mantiveram a versão de um complô palestiono. Para ele, ao menos as primeiras meninas simplesmente fingiram, disparando o pânico geral.


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