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Eva Perón, ícone do populismo e mãe dos pobres

Neste dia, há 67 anos, morria a célebre primeira-dama da Argentina

Xavier Bartaburu Publicado em 26/07/2019, às 07h00

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Na noite em que Evita morreu, não tardou nem 12 horas para que se tornasse imortal. Trinta minutos depois do último suspiro, seu corpo foi entregue ainda morno ao embalsamador Pedro Ara, que varou a madrugada injetando soluções químicas para debelar a morte em seu rápido processo de decomposição. Ao amanhecer, o corpo de Eva Perón estava incorruptível. Seria velado pelos 13 dias seguintes por 2 milhões de argentinos. Meio milhão beijou seu ataúde. Alguns desmaiaram quando a viram. Outros, segundo se conta, tiveram de ser contidos para não se matar com navalhas e vidrinhos de veneno.

Do lado de fora, 18 mil coroas de flores decoravam a fachada do Ministério do Trabalho. As filas alcançavam trinta quadras. Era tanta gente enlutada que, naquela semana, as gravatas pretas se esgotaram nas lojas de Buenos Aires. Enquanto isso, um sindicato local se apressava em enviar ao Vaticano o pedido de canonização de Santa Evita. Nas rádios, vozes solenes anunciavam: “Ha muerto la Jefa Espiritual de la Nación”.

Eva Perón morrera às 20h25 de 26 de julho de 1952, encerrando 33 anos de uma vida breve, mas notável. Naquele mesmo minuto, começava outra existência, a de um corpo inerte, mas não menos vívido, que duraria 24 anos e atravessaria continentes numa epopeia insólita que desafia até a mais desvairada das ficções. Morta, Evita tornou-se mais viva do que quando respirava.

O primeiro ato dessa saga começa em 7 de maio de 1919 no povoado de Los Toldos, a 300 quilômetros de Buenos Aires, quando nasce a quinta filha de Juan Duarte, rico fazendeiro, e a cozinheira de sua estância, Juana Ibarguren, a quem tinha por amante. Deram-lhe o nome de Eva María, as duas mulheres cruciais do cristianismo numa pessoa só: a santa e a pecadora. Juan Duarte sustentou a família de Evita até morrer, em 1926, desencadeando longos anos de penúria e privações à menina, além da humilhação que as crianças sofriam pelo fato de serem bastardas.

Decidida a deixar no interior esse passado de vergonha, Evita mudou-se aos 15 anos para Buenos Aires para se tornar atriz. Em 1935, já interpretava melodramas no rádio-teatro, revelando intimidade com os microfones que ganharia contornos épicos nos discursos que viria a fazer da Casa Rosada, o palácio presidencial.

Crédito: Reprodução

 

Em 1944, Eva Duarte – já atriz consolidada na Argentina, com direito a capas de revistas e alguns filmes no currículo, conheceu o general Juan Domingo Perón, então secretário de Trabalho e Previdência Social do governo federal. A ocasião: um festival organizado por Perón com a presença de diversos artistas em solidariedade às 8 mil vítimas fatais de um terremoto que havia ocorrido na cidade de San Juan. Perón tinha 48 anos; Evita, 24. Quem seduziu quem, é matéria de especulação. O fato é que, poucos dias depois, o general já frequentava a casa de Eva na Calle Posadas.

Atrizes não eram muito bem-vistas na Argentina da época, mas Perón sentiu que Evita podia lhe ser útil: tinha a seu lado uma companheira que, vinda do povo, o aproximava do povo. Com o adicional, claro, do carisma e do poder da comunicação radiofônica. Evita, por sua vez, sabia que a ideia de se associar a um homem de grande poder alavancaria sua carreira. “Nesse casamento, se juntaram duas vontades, duas paixões de poder. Não foi um casamento por amor”, escreve Alicia Dujovne Ortiz na biografia Eva Perón: a Madona dos Descamisados.     

O que Evita não sabia era que seu grande papel não a aguardava na rádio ou nas telas. E a estreia se deu em outubro de 1945, quando Perón foi destituído do cargo de secretário por um golpe civil e militar que culminou com sua prisão. Na madrugada do dia 17, milhares de trabalhadores marcharam até a Plaza de Mayo e, diante da Casa Rosada, exigiram a libertação do general. Evita foi uma das articuladoras desse ato, que entrou para a história como o marco fundador do peronismo. Cinco dias depois, casou-se com Perón. Ao cabo de quatro meses, com a vitória do marido nas eleições de 1946, tornou-se a primeira-dama da Argentina.  

À semelhança de Getúlio Vargas no Brasil, Perón inaugurou uma era de forte ingerência do Estado na economia e no bem-estar da população. Nacionalizou setores estratégicos, impulsionou a indústria, criou um sistema unificado de saúde pública, instituiu a gratuidade do ensino universitário e concedeu benefícios à classe trabalhadora, como a ampliação da aposentadoria e a criação do décimo terceiro salário.

 Em seu governo, também as mulheres conquistaram o direito de votar – um triunfo em grande parte viabilizado pela intensa campanha de Eva em favor da aprovação da lei do sufrágio universal, promulgada em 1947. Conhecida como “Ley Evita”, ela também levou as primeiras mulheres a ocupar cargos legislativos. No pleito de 1951, foram eleitas 23 deputadas e seis senadoras, todas do Partido Peronista Femenino – criado, é claro, por Evita.

A dama da esperança

O foco do peronismo nos direitos sociais foi um campo fértil para que Eva Perón construísse uma imagem pública fortemente associada à população de baixa renda, os chamados “descamisados”. Já no primeiro ano de mandato montou um gabinete próprio onde começou a organizar sindicatos e promover ações de assistência social. Recebia pessoalmente, todos os dias, cada cidadão que chegasse lhe solicitando ajuda, fosse um pedido de emprego, moradia ou atendimento médico. “Vocês têm o dever de pedir”, dizia. Para um povo acostumado à obediência, aquilo soava quase como uma insurreição.

Em 1947, foi constituída a Fundação Eva Perón, que passaria a centralizar diversas iniciativas de auxílio à classe trabalhadora. Em pouco mais de quatro anos, o órgão criou 30 mil novos leitos hospitalares, botou 16 mil crianças nas escolas e ergueu dezenas de conjuntos habitacionais. Evita supervisionava pessoalmente cada iniciativa, visitando com frequência hospitais, fábricas e bairros populares, onde enfeitiçava a audiência com seus discursos de palavras simples, mas contundentes, marcados por uma retórica impecável talhada pelos anos de experiência como atriz de radionovelas.

Crédito: Reprodução

 

E mesmo quando visitava favelas, vestia-se de maneira impecável, desfilando modelos desenhados por estilistas como Christian Dior. Em 1953, numa entrevista à revista Paris Match, o estilista francês declarou: “A única rainha que vesti foi Eva Perón”. Aos críticos, ela rebatia: “Os pobres gostam de me ver linda. Não querem ser protegidos por uma velha malvestida”.

A presença cativante, a fala vigorosa e, sobretudo, o fervor com que Evita se entregava às causas sociais ajudaram a moldar a figura da “Dama da Esperança” dos argentinos. Desenvolveu-se um forte culto à sua imagem, reforçado pelos meios de comunicação – vale lembrar que os principais jornais e rádios do país pertenciam ao governo, e os que não eram peronistas sofriam constantes censuras. Tonificado pelo eficiente aparato ideológico presidencial, o mito de Evita cresceu a ponto de ela ser venerada quase como santa. Montavam-se altares com flores, velas e fotos arrancadas das revistas. Notas de dinheiro dadas por ela eram emolduradas.

No Teatro Colón, em Buenos Aires, por muitos anos manteve-se intacta uma taça de champanhe com sua mancha de batom. Em Mendoza, um museu guardava um vidrinho de descongestionante que ela usara quando passara pela cidade. Não à toa, Evita era cada vez mais odiada pela elite. Chamavam-na “la yegua”. A égua.

Eva se tornou ainda mais perigosa às vésperas das eleições de 1951, quando os sindicatos propuseram que se candidatasse à vice de Perón. Para ela, seria uma vitória pessoal, uma maneira de legitimar uma existência que lhe fora sempre negada ou questionada: primeiro uma filha bastarda, depois uma atriz namorando um general e por fim uma primeira-dama metendo-se em assuntos de política. O povo estava com ela: em um comício, a multidão diante da Casa Rosada exigiu, fanática, sua candidatura. Evita aceitou, mas acabou renunciando dias depois.

Evita e seu marido, Juan Perón / Crédito: Reprodução

 

Não são claros, porém, os motivos de sua renúncia. A biógrafa Alicia Dujovne Ortiz aponta ciúme por parte de Perón: “Ele não havia imaginado a intensidade do diálogo amoroso entre Evita e o povo. Encontrar-se obscurecido pelo resplendor de uma paixão a dois e excluído do triângulo não estava em seus planos”. Outras fontes sugerem problemas de saúde, que já davam os primeiros sinais na forma de hemorragias, desmaios e fortes dores no baixo-ventre. Se assim foi, resta saber o que lhe disseram para convencê-la a desistir da vice-presidência. Pois Eva Perón nunca soube que tinha câncer.

Era um tumor no colo do útero, curiosamente o mesmo que matara a primeira esposa de Perón, Aurelia, em 1937 – o que tem levado à hipótese de que o general teria transmitido a ambas o vírus do HPV, hoje sabidamente um fator de risco para esse tipo de câncer. A Evita disseram-lhe que tinha uma “úlcera” no útero. Mesmo emagrecendo a olhos vistos, ela também se recusava a crer que estivesse doente. Acreditava que era uma desculpa que lhe davam para escanteá-la, logo quando sua força política só fazia crescer.

“Sua ideia de que aquilo era mais uma conspiração para tirá-la da política foi sua condenação à morte. Quando a doença eclodiu, já era tarde demais”, escreveu Nelson Castro no livro Los Últimos Días de Eva: Historia de un Engaño, que trouxe à tona fatos até há pouco tempo ignorados, como a lobotomia que fizeram em Evita na fase final da doença.

Segundo o autor, o corte de alguns nervos cranianos teria sido feito para conter a agressividade da primeira-dama, que, talvez ciente de que fosse morrer, teria acirrado sua beligerância nos últimos meses de vida – chegara inclusive a encomendar da Holanda 5 mil pistolas e 1.500 metralhadoras para equipar um exército de sindicalistas na eventualidade de um golpe. Um golpe que Evita não viu.