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Roald Amundsen: O explorador que liderou a primeira expedição ao Polo Sul

Em 18 de junho de 1928, falecia uma das maiores figuras da história da exploração polar

Wagner Gutierrez Barreira Publicado em 18/06/2019, às 15h00

Roald Amundsen
Roald Amundsen - Wikimedia Commons

Os gregos adoravam o equilíbrio, a ordem e a simetria. Por causa disso, o filósofo Aristóteles concluiu, no século 4 a.C., não apenas que a Terra era uma esfera, e não um disco, como também que deveria existir, ao sul, um continente equivalente à massa que havia no norte. Foi a primeira vez que alguém fez referência à Antártida, ainda que de forma hipotética. O continente gelado foi o último naco de terra a ser descoberto. O caminho, da aventura intelectual de Aristóteles à bandeira norueguesa fincada no ponto mais extremo ao sul da Terra por Roald Amundsen, levou 2,5 mil anos para ser concluído.

Não é difícil entender por quê. As grandes civilizações nasceram e se desenvolveram no Hemisfério Norte, com a exceção dos incas – que preferiam escalar montanhas a desafiar os mares. Na área que os oceanógrafos chamam de Convergência Antártida, entre as latitudes de 50 e 60º (para entender a lógica das latitudes, lembre que na linha do Equador a latitude é de 0º e, no Polo Sul, 90º), em questão de horas as temperaturas do ar e da água caem drasticamente e um cerrado nevoeiro impede a visão. No mar, são comuns ondas de 30 metros de altura.

Um dos primeiros a navegar por essas águas foi Edmond Halley (sim, o mesmo que batiza o cometa). Em setembro de 1699, ele comandava o Paramour, que zarpou da Inglaterra com o objetivo de rumar “tanto quanto necessário ao sul até descobrir a terra incógnita que  se supõe existir entre o estreito de Magalhães e o cabo da Boa Esperança.

A tal “terra incógnita” já aparecia em mapas-múndi desde o século 16, mas tudo o que Halley descobriu foi o que imaginou ser três ilhas. “Chatas no topo e cobertas de neve, brancas como leite, com falésias perpendiculares de todos os lados”, anotou em seu diário. Acabara de descobrir os icebergs tabulares. O  primeiro a bater no Círculo Polar Antártico foi o capitão inglês James Cook – e isso só em 17 de janeiro de 1773. Ficou a 250 quilômetros da costa.

Scott, Shackleton e Wilson na expedição de 1902 / Crédito: Getty Images

A região começou a ser ocupada por caçadores de peles de foca e de baleeiros. Em 1819, o navio mercante Williams, comandado por William Smith, avistou terra no Círculo Polar Antártico. No ano seguinte, navios britânicos, americanos e até russos estavam navegando por ali. O Williams, agora sob o comando de Edward Bransfield, da Marinha Real britânica, voltou à região e encontrou o continente – um feito também atribuído ao americano Nathaniel Palmer e ao capitão russo Thaddeus Bellingshausen, no comando dos barcos exploratórios Vostok e Mirnyi. “Se fosse possível determinar um único mês de um ano específico como significativo para a historiografia da Antártica, o mês de janeiro de 1820 seria um candidato importante”, afirma Alan Gurney, autor de Abaixo da Convergência – Expedições à Antártica, 1699-1839.

Aqui, entram dois personagens cujos nomes estão marcados na geografia do continente. James Weddell, que em 1823 foi o homem que chegou mais ao sul, quase 300 quilômetros além de Cook, a bordo do Jane. E James Clark Ross, que em 1840, com os navios Erebus e Terror, descobriu a passagem que se transformou na rota para os exploradores da Antártida. A terra incógnita austral estava desvendada. Faltava chegar ao polo.

Como registrou Caroline Alexander no livro Endurance, diferentemente das outras regiões da Terra, não havia ali feras ou nativos hostis para barrar o caminho: “Com ventos que chegavam a quase 300 quilômetros por hora e temperaturas que podiam atingir -75 ºC, os confrontos essenciais eram simples e descomplicados: de um lado, entre o homem e a força desenfreada da natureza em estado bruto e, de outro, entre o homem e os limites de sua própria resistência”. O desafio veio de Clements Markham, presidente da Royal Geographical Society britânica, que organizou a pioneira expedição com três homens: o comandante Robert Scott, o médico Edward Wilson e o tenente Ernest Shackleton.

A equipe de Shackleton observa o Nimrod, no fundo da foto / Crédito: Getty Images

Em 2 de novembro de 1902, estavam ali para chegar ao Polo Sul e cravar a Union Jack, a bandeira do Reino Unido, a 90º de latitude sul. Diante do trio, um caminho de 2,5 mil quilômetros, desde o estreito de McMurdo até o ponto mais austral da Terra. O grupo chegou até a latitude de 82º17’, a 1,2 mil quilômetros do polo. Vítima de escorbuto, Shackleton cuspia sangue. Relutantes, deram meia-volta. Nasceu aí a inimizade entre Shackleton e Scott que marcaria a corrida – e da qual ambos sairiam derrotados.

Em agosto de 1907, a bordo do Nimrod, Shackleton zarpou de volta à Antártida. Avançou pela Grande Barreira de Gelo e, ao lado de Frank Wild, Eric Marshall e Jameson Adam, topou com uma grande geleira, batizada de Beardmore (um dos patrocinadores da expedição). Acabara de encontrar a passagem para o platô antártico. Os quatro sofreram cegueira da neve, estavam queimados pelo frio e famintos. Faltavam só 150 quilômetros para o Polo Sul, mas Shackleton resolveu não expor os companheiros – Adams estava tão doente que teve de ser carregado até o acampamento-base, numa marcha de 36 horas sem descanso.

Logo depois, se desenrolaria o último ato da conquista. Scott preparava uma nova expedição quando recebeu a notícia de que Roald Amundsen desistira de ir ao Polo Norte e pretendia fazer o caminho oposto. Em janeiro de 1911, Scott desembarcou no cabo Evans. O otimismo do grupo sofreu um baque quando um dos tripulantes alertou: Amundsen já estava na baía das Baleias, mais próximo do polo. “Por cerca de uma hora ficamos furiosamente zangados, possuídos pela ideia insana de que devíamos ir logo à baía das Baleias acertar as contas com Amundsen e seus homens”, escreveu Apsley Cherry-Garrard em suas memórias, A Pior Viagem do Mundo.

Roald Amundsen / Crédito: Getty Images

A data do início do ataque ao polo foi decidida por Amundsen com a ajuda de uma moeda (ele não sabia se deveria partir num sábado ou na segunda-feira, fez uma votação que acabou empatada e decidiu no cara ou coroa). O pequeno grupo partiu no dia 8 de setembro, uma sexta-feira. Quatro dias depois do início, a temperatura baixou para -56 ºC e o grupo voltou ao acampamento. Amundsen só retomou o rumo do Polo Sul em 20 de outubro.

A equipe, com roupas de esquimó, trenós e esquis, acompanhada por cães e com bússolas e sextantes para orientação, era, segundo Roland Huntford, o casamento entre a civilização e uma cultura primitiva. “A tecnologia utilizada já estava no limiar da obsolescência”, escreveu Huntford em O Último Lugar da Terra. O grupo era formado por Amundsen, Olav Bjaaland, Helmer Hanssen, Sverre Hassel e Oscar Wisting.

Quando chegaram à latitude de 89º30’, notaram um ponto preto adiante – e o temor de que Scott estivesse à frente apavorou o grupo, até que Bjaaland correu para investigar. “Miragem”, relatou. “Bosta de cachorro.” Ao montar acampamento a apenas 25 quilômetros do Polo Sul, Amundsen registrou em seu diário: “Será que veremos a bandeira britânica?”

A frustração britânica pela corrida perdida / Crédito: Getty Images

Às 15h de 15 de dezembro de 1911, Amundsen chegou ao fim da viagem. No dia 1º de novembro, uma quarta-feira, às 11 da manhã, Scott, acompanhado de Lawrence Oates, Edgar Evans, H. R. Bowers e o médico E. A. Wilson partiram rumo ao polo. Um mau presságio: horas depois, Scott chamou o acampamento-base, pois havia esquecido a bandeira britânica. Ironia: o encarregado de levar a bandeira foi Tyrggve Gran, um norueguês. A essa altura, Amundsen e sua equipe estavam mais de 320 quilômetros adiante.

Exaustos e famintos, os integrantes da expedição de Scott chegaram ao Polo Sul entre 12 e 13 de janeiro de 1912, somente para ver a bandeira norueguesa tremulando. Desolados, prepararam-se para o caminho de volta. Evans, que na ida havia se ferido, foi o primeiro a morrer. Em seguida, Oates decidiu deixar a barraca onde estavam e nunca mais foi visto. Os 3 integrantes restantes chegaram ao ponto onde seus corpos foram encontrados congelados, seis meses depois, no dia 21 de março. Sobreviveram até o dia 29. As últimas palavras escritas por Scott: “Pelo amor de Deus, cuidem de nossa gente”.


Depois de alcançar o Polo Sul, Amundsen passou a desejar novas conquistas. Interessou-se por aviação e, em 1914, obteve seu certificado de voo. Em 1925, organizou a primeira expedição aérea ao Ártico — junto a Lincoln Ellsworth e mais quatro tripulantes, voou até a latitude 87° 44' norte. Foi o local mais ao norte atingido por um avião até então.

Em 18 de junho de 1938, Amundsen sofreu um acidente com o seu hidroavião Latham 47, no oceano Ártico. O voo tinha o objetivo de resgatar o explorador e aviador italiano Umberto Nobile — seu dirigível havia caído ao retornar do Polo Norte. Diversas buscas foram realizadas para resgatar os restos do hidroavião e encontrar o corpo de Amundsen, mas nada foi encontrado.