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Fuga da Sibéria: A longa caminhada de Sławomir Rawicz

Malnutridos, enterrados na imundície, forçados a trabalhos exaustivos e, muitas vezes, fatais, os prisioneiros tinham o espírito consumido nos gulags, mas o jovem Rawicz não se deixou abater

M. R. Terci Publicado em 24/01/2020, às 14h00

Colin Farrel interpretou Sławomir Rawicz no filme Caminho da Liberdade
Colin Farrel interpretou Sławomir Rawicz no filme Caminho da Liberdade - Divulgação

Torres de vigia, arame farpado, brutalidade, violência, imundície, frio e fome todos os dias.  Essas são as imagens que povoam nosso imaginário quando folheamos o relato do livro The Long Walk, as memórias do ex-soldado polonês Slawomir Rawicz.

Em 1939, após a invasão soviética-alemã da Polônia, o esbelto e elegante tenente da cavalaria polonesa Rawicz, foi acusado de espionagem pela NKVD - Comissariado do Povo para os Assuntos Internos. Soldado, filho de mãe russa e fluente no idioma, se tornou o suspeito perfeito para os bajuladores alçarem-se às altas posições do partido comunista e, após a confissão de sua jovem esposa, obtida por tortura e espancamento, Rawicz era réu em um crime jamais cometido.

Para salvar a vida da parceira, então, assinou sua confissão. Sem seu uniforme finamente talhado, despido de suas reluzentes botas da cavalaria, alquebrado e privado de toda dignidade, Rawicz se viu dentro de um dos mais cruéis sistemas penitenciários do mundo.

Logo na chegada, ao descer em Yakutsk, no leste da Sibéria, a temperatura que saudou dos novos prisioneiros era de 32 graus negativos, considerada até suave pelos veteranos do campo de prisioneiros.

Já estavam ali por um bom tempo – 2 anos, o período mais longo possível desde que os soviéticos haviam descoberto ouro na região em 1937. Dada a carência de trabalhadores num lugar tão desolado, gélido e desprovido de condições para se sobreviver, o ditador Joseph Stalin enviou muitos dos chamados inimigos do Estado para a região.

A expectativa de vida era pífia. Os fluxos de entrada e saída dos campos era deveras substancial, o número total de detentos entre 1929 e 1953 é de cerca de 18 milhões. O número de mortes chega à 2.749.163, mas este número não leva em conta as execuções por razões políticas, cerca de 786.098.

Nos gulags, dezenas de milhares de prisioneiros políticos eram forçados a trabalhar para extrair o ouro e outros minerais. Havia gente de todo tipo ali. Professores cujo único crime fora dar nota alta a alunos acusados de serem nacionalistas, poetas, músicos, políticos com ideologia contrária ao comunismo, soldados poloneses e muitos outros detentos de outras nacionalidades, incluindo cidadãos americanos que sofriam as consequências da Grande Depressão.

Sławomir Rawicz / Crédito: Wikimedia Commons

 

"Se eu levasse 25 carrinhos de mão cheios de carvão até a superfície, eu receberia dois pratos de mingau. Se eu não conseguisse os 25, receberia apenas um por dia” afirmou em uma entrevista à BBC, datada de dezembro de 2010, o acadêmico e historiador Mikhail Ivanov, um dos poucos sobreviventes do gulag de Yakutsk.

Apesar da guarda reforçada e do arame farpado, os gulags siberianos eram considerados a típica prisão sem muros. Fora dos alojamentos, a natureza e o clima da Sibéria se tornavam vigias implacáveis e cruéis. As fatalidades eram diárias. Os prisioneiros morriam de fome, acidentes, doenças, frio, exaustão, rixas e, em grande parte, assassinados pelos guardas que promoviam verdadeiros extermínios coletivos.

Malnutridos, enterrados na imundície, forçados a trabalhos exaustivos, poucos entre eles não tiveram o espírito consumido por seus opressores. Mas o jovem Rawicz não se deixou capitular. Aferrou-se a ideia de que ceder seria a morte. Para sobreviver era necessário continuar caminhando.

Segundo o relato do livro, Rawicz foi transportado, juntamente com milhares de outros, para Yakutsk e levado a caminhar até o Campo Gulag 303, a 650 km ao sul do Círculo Polar Ártico. 

Em The Long Walk, Rawicz descreve como ele e seis companheiros planejaram por meses, estudando rotas e estocando comida, até escaparem do acampamento no meio de uma nevasca em 1941.

Tendo como grande inimigo o cenário aterrorizante do inverno siberiano, eles seguiram para o sul, evitando cidades. O grupo de fugitivos incluía três soldados poloneses, um proprietário de terras letão, um arquiteto lituano e um enigmático engenheiro de metrô dos EUA chamado Sr. Smith. Mais tarde a eles se juntou uma menina polonesa de 17 anos. 

Viajaram da Sibéria para a Índia, atravessando o deserto de Gobi e o Himalaia. Quatro membros do grupo morreram Dois de sede no Gobi, dois de fome no Himalaia.  Os quatro sobreviventes da jornada de 11 meses chegaram à Índia britânica por volta de março de 1942 e tropeçaram em uma patrulha gurkha e foram conduzidos a um hospital em Calcutá. 

Uma vez liberados do hospital, os sobreviventes seguiram seus próprios caminhos. Rawicz emigrou para a Inglaterra após a Segunda Guerra Mundial, se estabelecendo nos arredores de Nottigham, onde trabalhava como artesão. Casou-se com uma inglesa, com quem teve 5 filhos.

Poster do filme Caminho da Liberdade / Crédito: Divulgação

 

Entre o campo de prisioneiros na Sibéria e a liberdade em Calcutá, os sobreviventes percorreram mais de 6 mil quilômetros.

As alegações no relato de Rawicz foram questionadas por várias fontes. 

Em 2006, a BBC divulgou um relatório baseado em antigos registros soviéticos, incluindo declarações escritas pelo próprio Rawicz, mostrando que ele havia sido lançado como parte da anistia geral de 1942 dos poloneses na URSS e posteriormente transportada através do mar Cáspio para um campo de refugiados no Irã, e que sua fuga para a Índia nunca ocorreu.

Em maio de 2009, Witold Gliński, um veterano polonês da Segunda Guerra Mundial que vivia no Reino Unido, se apresentou para afirmar que a história da longa caminhada era verdadeira, mas na verdade era um relato do que aconteceu com ele, não Rawicz.

Slawomir Rawicz jamais pôde se defender de seus detratores, uma vez que morreu em abril de 2004, em Nottingham, no Reino Unido.

Contudo, Rupert Mayne, um oficial de inteligência britânico na Índia em tempos de guerra, afirmou que seu filho havia entrevistado três homens emaciados em Calcutá em 1942, que alegavam ter escapado da Sibéria. Segundo seu filho, Mayne sempre acreditou que a história deles era a mesma de The Long Walk, mas, contando a história décadas mais tarde, seu filho não conseguia se lembrar de seus nomes ou detalhes.

Outro sobrevivente polonês do gulag de Yakutsk, Leszek Gliniecki, alegou, de posse de vários documentos, que Glinski, o usurpador do relato de Rawicz, jamais esteve no campo de prisioneiros.

A Jornalista e escritora Anne Applebaum, autora do livro premiado com o Pulitzer, Gulag: Uma História, não só acredita na história original de Rawicz, como também trabalhou como consultora no filme The Way Back (no Brasil, Caminho da Liberdade), que estreou em dezembro de 2010, com direção de Peter Weir e estrelado por Colin Farrell.

O filme é conta a história da inacreditável marcha de Rawicz e seus companheiros, um emocionante testemunho da capacidade humana para superação, solidariedade e a busca incessante pela justiça.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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