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Guerra do Contestado: O maior conflito brasileiro do século 20

O confronto entre sertanejos e forças do Exército revelou as condições de luta pela terra no país no início do século passado, deixando um saldo de 5 mil mortos e feridos

Fabio Previdelli Publicado em 22/10/2019, às 12h00

Oficiais do Exército Brasileiro em Porto União, região do Contestado
Oficiais do Exército Brasileiro em Porto União, região do Contestado - Wikimedia Commons

A Guerra do Contestado foi o conflito armado entre camponeses e forças do Exército na região que engloba os estados de Santa Catarina e Paraná — uma região litigiosa (contestada), daí o nome do conflito — que ocorreu entre os anos de 1912 e 1916. Apesar do confronto ser pouco conhecido nos dias atuais, ele é considerado o maior embate do Brasil no século 20.

Um dos estopins da revolta foi a construção de uma estrada de ferro que ligaria as cidades de São Paulo a Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que ficou a cargo da Brazil Railway — liderada pelo empresário estadunidense Percival Farquhar.

Como na época não havia uma legislação que regulamentava as posses de terras, diversos sertanejos que moravam na região das obras foram obrigados a deixar suas terras após a desapropriação promovida pelo governo.

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Mapa que mostra o traçado da estrada de ferro / Crédito: Reprodução

Farquhar havia adquirido uma faixa de terra de 15 quilômetros de cada lado da ferrovia, que era uma região muito rica em erva-mate e madeira, o que certamente cativou o empresário que também era dono da madeireira Southern Brazil Lumber & Colonization Company.

 Com o início das obras, a população desabrigada formou uma comunidade independente com ideais anti-republicanos. Além do mais, após a conclusão da estrada, formou-se um significativo contingente de trabalhadores desempregados, que vieram de várias regiões brasileiras e não receberam nenhum auxilio de Percival.

Nesse momento, a região também via crescer um movimento messiânico em pequenas comunidades. Alguns profetas, beatos e monges surgiram pregando ideais de justiça, paz e santidade. O principal nome desse movimento foi o do monge José Maria, que ganhou a confiança do povo ao declarar: “estou do lado dos que sofrem”.

Envolvido em um ambiente de messianismo e revolta, os protestos começaram com um grupo muito pequeno de sertanejos seguidores de José Maria. Mas com o crescimento da ação policial e militar — das polícias estaduais e do exército — esse movimento foi agregando descontentes de toda a região, principalmente dos pobres.

É possível afirmar que o embate se tornou uma guerra entre ricos e pobres, uma verdadeira crítica ao coronelismo e à violência da expropriação praticada pela construção da ferrovia.

Tomados pelos pensamentos do monge, os sertanejos construíram um projeto rebelde de sociedade, a Cidade Santa, que seria uma Nova Jerusalém — um local onde todos trabalhavam para a comunidade e colocavam seus bens à disposição. Em resposta, o governo federal decidiu enviar tropas para combatê-los.

Grupo de vaqueanos (milícia armada privada) defende madeireira de ataques de revoltosos na Guerra do Contestado / Crédito: Agência Senado

 

Os embates duraram quatro anos (1912 a 1916), envolvendo os sertanejos do planalto catarinense (Lages, Curitibanos, Campos Novos e Canoinhas) e os ervateiros dos vales dos rios Iguaçu e Negro, contra as forças militares dos soldados do exército, além das mais de 2 mil praças das polícias do Paraná e de Santa Catarina.

O confronto deixou um saldo de mais de 5 mil mortos e feridos entre os caboclos. Seu último líder, Deodato Manuel Ramos, foi preso em agosto de 1916, marcando o fim da Guerra do Contestado. O episódio, em que os sertanejos terminaram derrotados e sem sua cidade, revelou as condições de luta pela terra no país no início do século 20.


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